Capítulo 001

revisto - 22/06/09

"Nublado, nublado e frio".
Mondrian observa o movimento das nuvens — lívidas — "e sobre estas nuvens há outras mais lívidas, por todo céu esta uniformidade cinzo-gasosa, densa, tão densa quanto uma vida inteira sob o olhar panorâmico no ocaso da maturidade, lamentando as oportunidades perdidas e ainda sentindo o fluir da vida já ameaçada pela proximidade inaceitável da morte! Incômodo cessar da especulação inerente ao humano, desamparado de qualquer conforto após alimentar uma duradoura simpatia pelo ateísmo. Há nuvens, por todos os tempos, silenciosas. E meu pensamento, claro, vasculhando em todas as direções num ímpeto de conhecer, ignorando se terá forças para levar a cabo descomunal tarefa, sensível aos significados das palavras, elas lançam luz à escuridão do não-ser-além-homem. Bem poderia compor, sim, compor é mais próximo do ofício, não como um dever mas uma idiossincrasia sem escolha do artista, idealizar, mais poético, uma poesia consistente, plástica ainda, pois as representações por este meio ainda atraem-me não obstante eu ter abandonado a alma mater há tanto sonhada, e involuntariamente mergulhar no caos, nas incertezas pois suponho que não é do destino do homem topar com a singularidade neste campo, estas reflexões, reflexões nunca escritas de Mondrian, sob estas mesmas nuvens caminhando pelo bois de Paris, no statu quo da 1ª Guerra indo ao encontro do consolo, e também desta ânsia latente de restauração que o homem busca nas religare, de ter vivido numa época passada num lugar mais afeito às coisas do espírito, um viver não mais maculado pela dureza das necessidades e misérias, eis outra pluralidade de tormentos que pesa no fado humano, além do legado da experiência artística, um viver, aos mortais permitido apenas o exercício da contemplação, transitando numa silenciosa orbe, pela lembrança dos contemporâneos e miríade imaginada, feito uma tradição oral a nós legada da noite dos tempos, em sua silenciosa viagem com destino ao esquecimento. Nuvens tristes, mas um sentimento suportado pelo sofredor... nuvens tuberculosas!", lembra-se de um fragmento de um solo de piano, ele vê um teclado surgir da escuridão tocado pelas mãos de um pianista, "Chopin", um retrato pintado deste, "figura soturna o polonês, cabelos longos, casado pesado e olhar vago", olha para as nuvens, "noturnos de Chopin" — deve ser triste: — "sozinho a ouvir a chuva no telhado, assim que ele compôs algumas músicas", ergue o lábio inferior e as sobrancelhas, "não, talvez não seja tão ruim assim. Quem escreveu que a natureza nos dá forças para suportar as vicissitudes? não sei, acho que foi um romano. Mas acho que não é Chopin e sim John Cage, é daquele CD que tem a música para o piano de brinquedo, que ouvi na casa do Tales, mas a disposição para a melancolia serve para ambos. Cedo mais uma vez ao vício de concluir ao supor não se tratar de uma inclinação a tal estado de espírito mas sim relampejos de uma ulterior maturidade, a mesma que vejo estampada na seriedade de meu pai em seu esforço diário de resignação na loja de meu avô. É certo que ele um dia foi tão jovem quanto eu, a preferir a diversão e a piada ao fardo da sobrevivência, ou então a disposição para piadas seja um atributo da juventude e um dia também acabe, e reste o perene e universal e cotidiano desafio de afrontar a vida".
O vento frio se alterna com o chuvisqueiro, Mondrian franze a testa, pisca rapidamente e desvia o rosto — que tempo horrível! — "Itapetininga é mesmo uma highland, acabei de crêr...", volta-se para frente, percebe então, as pessoas passando, a rua e os edifícios ao redor, "estava tão absorto nas minhas reflexões que ignorava tudo isto, parece um despertar", lembra-se que caminha para a editora onde trabalha, sente aborrecimento, "o homo theoricu cede ante o homo labor", olha os carros que passam, "as pessoas que vão ao centro da cidade se escondem nos Tempras, Vectras, Ômegas, com todos os vidros fechados e o som ligado; quem pode, fica em casa, na cama quentinha, embaixo dos cobertores, que delícia é acordar tarde nestes dias!", mexe a cabeça — e o Maldito Judeu... — "que entonação rude! foi sem querer, hã? cadê o involuntário tão bem considerado para usar há pouco nas reflexões?", suspira, "eis a resignação mutatis mutandis" — necessário à sobrevivência! — disse isso com uma raiva sem força, como um animal capturado, "aproveitando a deixa desta queixa, aah! ora-pois-lusitano! já tinha suspeitado disto quando usei alhures sozinho a ouvir, declarou:" — é uma delícia acordar às 10 horas todo dia vassalo! — "perde-o-amigo-mas-não-perde-a-piada!" — ah!ah!ah! — o riso dissipa o mau humor, deixa-o à vontade, mas o fruir do bem-estar é interrompido ao perceber que está caminhando pela calçada, "opa!verdade-cara!", olha ao redor, para ver se alguém o flagrou rindo e falando sozinho, "ufa! ninguém", sorri, "e-daí-se-alguém-me-flagrou-rindo? daí?!" — aposto que você ficaria sem graça se alguém estivesse vendo! — "é verdade cara!", dá de ombros, "usufruindo a solidão de estar entre as gentes!" Olha as pessoas, caminhando apressadas pela calçada, deste e do outro lado da rua, "os dias estão curtos para quem levanta-se cedo para trabalhar, agora estás-a-plagiar-Hesíodo-heterônimo!" — ah! — "os limpos dias de pouco sol e céu azul, típicos de inverno, há tempos não dão as caras, e as noites, frias e longas, me fazem pensar por que tenho que acordar cedo, levantar da cama quentinha e ir trabalhar, não sou tão pobre assim", tenta convercer-se desta afirmação, frusta-se, "pel’enésima-vez!" — o hábito de resignar-se é mais forte que a verdade — pressiona um lábio contra outro, olha para o chão, "meu pai não iria sustentar um artista anônimo, um, um dândi!", olha ao redor, tenta encontrar esperança, "mas ele também gosta de ler" — mas e o ‘vô Saratoga?! — mexe a cabeça em negativa, "eis o problema! detesta livros, quando meu pai morava com ele tinha que esconder os livros senão o ‘vô jogava tudo, sempre diz que nossa família nasceu pra trabalhar e não estudar! mesmo assim, meu pai e o tio Fausto conseguiram fazer faculdade, e eu não terminei a minha, ele não toleraria minha licença, cairia de pau no meu pai! vai-perde’dinheiro-com-ele-de-novo?!", olha para o chão, "o ‘vô já acha que artes plásticas, publicidade é coisa de viado..." — Maldita necessidade de trabalhar! — "bem que Kafka dizia que o mundo é uma colônia penal!"
Mondrian desce do centro da cidade pela rua Quintino Bocaiúva, ele caminha alguns minutos aborrecido, sem conseguir chegar a uma conclusão — quantos prédios antigos atrás dos postes elétricos — "a padariazinha escura, atrás do ponto de ônibus cimentado, pouco movimentada, nunca fui lá, qual é o nome dela mesmo? o prédio do século XIX, com seus arcos sobre altas portas, amarelo e branco, os arabescos, parece aquelas construções históricas de Portugal, na esquina da ruela-que-vai-lá-embaixo... eu também nunca fui lá, é Vila alguma-coisa", atravessa a rua, inspira sonoramente — Ah! que merda! — "o homem marcha inexoravelmente para o caos! e que adianta revoltar-me?!", observa a casa da esquina — a casa de rico sempre fechada — "pelo menos", ergue os ombros, "vejo-a mais fechada que aberta", olha para o circular descendo a rua, "vai parar diante do prédio abóbora, na frente da mercearia do barbudo, ao lado das duas garagens... cara! que frio! que mão gelada!". O circular pára diante do ponto de ônibus, algumas mulheres obesas, com casacos de lã sobre blusões de moleton, com sacolas nas mãos, chamando as crianças que acompanham-nas e falando com alguém que ficou dentro, descem do ônibus, Mondrian, aproximando-se das mulheres e crianças, observa um homem de cabelos brancos, magro, de chapéu preto, óculos, bigode e cavanhaque brancos, vestindo um casaco de lã surrado e segurando um livro numa das mãos descer do circular, ao pisar na calçada, ele e Mondrian trocam um olhar, "ele tem olhos azuis", o homem toca na aba do chapéu e mexe a cabeça em cumprimento, involuntariamente Mondrian mexe a cabeça também, "eu conheço? se o tio Franz não tivesse desaparecido na guerra talvez seria esse senhor... a-a! não exagere! quantos-anos-ele-deve-ter?75? Se o tio Franz estivesse vivo estaria com uns 100 anos", olha para o ônibus, que se põe em movimento, "e lá vai o azul-e-branco...", olha para as mulheres, que falam alto, e as crianças ainda no ponto de ônibus, "aliviado! continuar seu trajeto pra Chapadinha", olha para frente, o senhor abre o livro e caminha para a esquina, Mondrian lembra-se das suposições acerca da necessidade de trabalhar, dá de ombros, "não seja tão trágico!", e deixa-as de lado. O homem vira a esquina e sobe a rua Cesário Mota. Mondrian pára diante de um portão baixo, atrás do ponto de ônibus; as mulheres resolvem subir a rua Quintino Bocaiúva e chamam as crianças, que reclamam de fome e querem comprar doce na mercearia, para virem, ele abre o portão e sobe uma escada, olha para o outro lado da rua, observa o casarão em frente, "a sede da fazenda de antigamente, talvez fosse de um coronel apadrinhado pelo Júlio Prestes, no meio do que um dia deve ter sido um jardim, que agora é chão batido", lembra-se novamente do solo de piano, "agora que reparei: à esquerda, sob árvores, há um caminho, um-velho-caminho, que leva ao fundo do casarão". A escada conduz ao pátio do 1º andar, ele percebe que o chuvisqueiro parou ao olhar para o piso, ainda molhado, onde há desenhos abstratos feitos com cacos de cerâmica, no meio destes, ele vê uma data, final de 1974, "deve ter sido quando terminaram o prédio, o mesmo costume de colocar a data, 1917, por exemplo, no alto das fachadas das casas antigas... será que na fachada do casarão tem alguma data?", olha para as janelas e as portas que dão para o pátio, pintadas de verde-escuro, e o abóbora das paredes, olha para o muro e para as árvores atrás deste, ao fundo, o prédio amarelo de apartamentos, "imagine como seria viver ali, sem preocupar-se nem com dinheiro ou alguém! ter tempo suficiente para poder ler, para escrever... já falei isto para o Maldito Judeu, estás a delirar vassalo!", Mondrian, sorrindo e mexendo a cabeça, entra numa sala de estar, "eh!eh! maldito judeu!", ao fundo há uma cozinha, separada da sala por uma meia-parede e meia-divisória, entra por uma porta à esquerda, numa sala espaçosa, Mondrian lembra-se das dimensões desta, "a mesona, cheia de papéis, livros, caixas de equipamentos eletrônicos e uma escultura em barro, lembro-me que foi aqui que encontrei o Vítor pela primeira vez, a sala parecia maior ainda, acho que é porque estava vazia". Há cadeiras estofadas pretas espalhadas pela sala, uma janela grande na parede ao lado da escada que leva à rua e outra, mais estreita, na parede que dá para rua Quintino. Esta janela está um pouco aberta, as lâmpadas fluorescentes estão acesas, de cada lado da janela em questão há uma mesa com um 486. Na da esquerda há um homem sentado diante do micro, ele aparenta ter uns 40 anos.
Vítor olha para Mondrian e sorri.
— Fala aí cara — diz com voz rouca — vamos trabalhar um pouco? — sorri.
— Tem n’é?! — "cabelos lisos, longos, pretos, talvez como Chopin! Vítor! O-Chopin-d’Itapetininga!". Vítor está com uma blusa de lã grossa, que encobre as mãos, "ach’qu’é da Luiza", suas pálpebras estão semi-abertas, ele leva o cigarro à boca e dá uma tragada enquanto observa Mondrian rir, volta-se para a tela do monitor.
— Ô-o... Mondrian, como é mesmo a ferramenta para eu fazer o degradê?
— Clica no baldinho que’ce acha.
Mondrian senta-se diante do micro, "às vezes...", segura no mouse, clica duas vezes no ícone do Corel, olha para Vítor enquanto o programa abre — e se você salvar como default o degradê, ele entrará automaticamente em cada figura que‘cê fizer — "...ele fica assim horas-e-horas", coloca o relógio de pulso sobre o monitor, "nem liga p’r’o que acontece ao redor", seus olhos observam o programa aberto.
Vítor força os olhos e ergue as mãos diante do monitor — não, não, Mondrian, não é isso! como volta mesmo? control-o-quê? Só quero aplicar degradê nesta figura aqui de fundo para uma ilustração...
— Control-z!
Vítor olha para o teclado, "control-z", aperta as duas teclas e olha para o monitor, "aí!", olha para Mondrian — é isso aí... mestre do computador! — e sorri, Mondrian ri sem olhar para Vítor — imagine Mondrian: uma ilustração de alimentos, usando aquela técnica — arregala os avermelhados olhos — de profundidade!
Mondrian olha para Vítor — Legal hein Vítor!
— Ninguém aqui usa um recurso deste! Vai ser um toque de sofisticação no Guia — ele olha para a janela e dá outra tragada.
— E a gente pode usá-la no jornal!
— Pode sim... — volta-se para o monitor — vai ser muito legal — sorri.

Capítulo 002

revisto - 18/05/09

Mondrian observa o lado esquerdo do monitor, "dia inteiro vendo essa tela tremendo é de sai’ c’os olhos ardendo!", encosta-se no espaldar, inspira, olha no relógio, "já-são-20-pra-6! Beleza!", apóia os braços sobre a mesa, "nem senti o dia passar hoje. Em compensação, tem dia que a hora não passa nem a pau!", volta-se para o Vítor, "puta merda! e não é que ele ficou o dia inteiro assim?! Acho que nem foi almoçar, saí e voltei e ele estava ali...", eles ouvem alguém subir a escada, "tuc!tuc!tuc! é mulher!". Mondrian olha a impressora ao lado do PC, " ‘tá com pouco sulfite... puta-vontade-de-da’ma-cagada-cara! Devia ter cagado depois que almocei, ‘tava com um pouco de vontade".
A porta do pátio é aberta, entra uma moça, de cabelos loiros e ondulados na altura dos ombros, olhos castanhos; ela está com uma blusa de lã vermelha, que vem até o meio do quadril, e que lhe revela os contornos do corpo, calça jeans e sapatos pretos.
— Ai gente, oi, oi! — Mondrian e Vítor voltam-se para a vendedora — Está frío-frio lá fora! — Vítor! consegui vender mais dois anúncios de R$540,00! — Vítor concorda com um movimento de cabeça, ela olha para a mesa, coloca a bolsa sobre esta — ai gente, que bom — abre-a e procura o contrato assinado. Mondrian olha a moça dos cabelos até os pés, "hmmm! se’la-vie’co’esse-ai-muito-perto, nossa-cara! juro-qu’agarro-ela!"
Vítor observa-a mexer na bolsa, "blusa vermelha", olha para um desenho na tela do monitor, "tem muito vermelho ainda aqui". A moça, empolgada com o sucesso da venda, não percebe a falta de atençã0 dele.
— Olha, olha, aqui! Este — "ele vai gostar!", ela faz um movimento para entregar-lhe o contrato mas Vítor não estende a mão, "hã? não entendeu?", fita o rosto dele, — é daquela floricultura no largo do Rosário, ai-ai! — sorri-lhe, "que chato! parece que ele não está nem aí! será que ele esqueceu os anúncios de R$ 540,00 que vendi esta semana?" — foi igual a dona da loja que queria também um anúncio pequeno, achei que a mulher ia fazer um deste também — "mostrei o anúncio e vi que ela achou, achou mas não disse, muito pequeno o de R$ 120,00" olha para Mondrian — ela... — "o que foi? hã?! ‘tá olhando p’ra mim! Acho que minha blusa ‘tá muito apertada — ...quer ver o layout amanhã — "ele ‘tá olhando meu peito!"
Mondrian não percebe isto, "que coisinha linda que é a Márcia! loirinha... parece a Holandezinha, que susto cara: achei qu’era ela quando a vi de costas, sentada diante da mesa da Luiza, pela primeira vez... que bundinha que’la tem... e uns lábios carnudos... imagine-beijá-los?!". Ele olha nos olhos dela "o que foi?!" — ah sim! vou fazer o layout amanhã — volta-se para o monitor, "xiii... parec’qu’ela-percebeu-qu’eu‘tava-secand’-a, só-falt’eu-fica’vermelh’agora!". Márcia observa-o de perfil, "ele tem jeito de ser bonzinho".
"Dona da loja? anúncio pequeno?" — O quêêê?! — "achei que era outra moça que tinha vendido aquele anúncio", Márcia olha para Vítor, ele, levantando-se da cadeira, sorri como se tivesse acordado agora, mostrando os dentes escuros, "caiu a ficha dele!", ela estende a mão com os contratos, Vítor pega-os, — ela ‘tá ficando boa de venda hein?! — e olha para Mondrian, que sorri também, "mas ela já é boa...". A moça, envaidecida, "não precisa elogiar, só estou fazendo minha obrigação, ah! ah!", olha para Mondrian, ele fita os lábios da moça, "aquele "ai" não sai da minha cabeça cara!". Vítor examina os contratos, "seria muito bom uns 10 destes por dia", olha vagamente para o computador, "mas as coisas não são tão fáceis assim...", estende a mão com os contratos em direção à vendedora, "...tanta dificuldade..." com o canto dos olhos, Márcia percebe isto, "que grosso! parece que ‘tá fazendo pouco caso! só faltou jogar na mesa!", e pega os contratos novamente.
Mondrian desvia o olhar, "senão-ela-vai-percebe’deve’star..." levanta-se da cadeira, "e aquele maldito judeu falou outro dia que uma-aí, com uns lábios assim, fez um boquete pra ele que deixou-o fissurado...", eles ouvem um grupo subindo a escada, "a-dupla-piadinha-e-saco-de-risada!", olha para a vendedora, estende-lhe a mão, olha nos lábios dela — então deixa’qui comigo o contrato — "hmmm!" — Márcia.
A vendedora, "hã? ele está olhando meu peito de novo!", entrega-lhe o papel, "se eu tivese entregado o contrato pra Luiza ela reagiria diferente, não sei! seria uma reação mais direta, acho que mais espontânea! Ele parece que vive no mundo da lua", lembra-se da venda, "deixa pra lá, quando a dona da floricultura viu o anúncio maior ela balançou, não resistiu! só fiquei esperando ela morder a isca: eu fico com este maior aqui, olhou pra mim e sorriu!"
Mondrian observa-a, "cara! que sorriso lindo! esses olhos castanhos, os cabelos loiros, parece que’la passa a língua nos lábios com volúpia, ach’qu’é’ssa-palavra: vo-lú-pi-a! E esses peitos durinhos?!", os olhos da vendedora miram os dele, "por que não deu certo com a Holandezinha?! E essa coisinha aqui? Uma mulher linda, loira assim deve ter um macho que come!" — amanhã-de-manhã eu faço o layout.
— Só falta ela ver o layout do anúncio pra entregar os cheques Mondrian — "ele disfarça, disfarça e olha, dizem que é os quietos que são os piores", Mondrian concorda com um movimento de cabeça enquanto guarda o contrato na gaveta da outra mesa, transversal com a mesa do PC, "ahh!hoje’u-toc’umas-pensand’nela!".
— Márcia — ela volta-se para o Vítor — pra quem você vendeu o outro anúncio?
A porta do pátio é aberta novamente, a conversa e as risadas de outros vende-dores chama a atenção da Márcia, "hã?! ah! é ela! mas que risada escandalosa! eu teria vergonha de rir se tivesse uma risada assim", Mondrian olha no relógio, "é agora", Vítor ignora a gargalhada, "uma semana de venda e ela conseguiu vender uma média de... dois anúncios grandes por dia! qual o perfil de comprador se identifica com o tipo de venda dela? A mulher da floricultura... Mondrian?"
— Vítor, já ‘tô indo nessa aí!
— Sim, sim Mondrian, até amanhã.
Márcia observa-o, "ai-ai! não acredito que fechei esses contratos! Amanhã, é só mostrar o layout que eu pego os cheques! Tanto tempo sem emprego e já na primeira semana me dô bem assim! Aaah! Hoje, hoje eu quero comemorar! E se ele não tiver a fim?! Vai dizer que ‘tá cansado, que ‘tá frio, que tem que levantar cedo amanhã... quando a gente namorava era tão diferente, era tão gostoso escondidinho no carro!", ela percebe que Mondrian olha para ela, seus olhos encontram os "castanhos-sorridentes-olhos-dela, que vontade de te beijar! você é tão parecida com ela! Dava pra ser irmã até!" — tchau Márcia — "tchau... ex-cunhada!"
— Tchau! E não se esqueça do meu layout hein?! — ela sorri, "sem querer ser chata", Mondrian sorri também, baixa lânguidamente o olhar até os lábios carnudos sob o batom, "pequenos dentes, é a Holandezinha que está rindo para mim! ‘tô-pirando-cara!’tô-pirando!n’é-possível!", ela percebe que Mondrian olha a boca dela, e enquanto lhe sorri, pisca-lhe.
Um vendedor, sisudo, olhando os contratos e layouts nas mãos, com uma pasta abarrotada debaixo do braço, entra na sala — Licença, Vítor — olha para Mondrian que está saindo — ou! Já vai mesmo?! ‘tá frio lá fora!
Vítor volta-se para a Mária — desculpe, continue o que você estava falando.
Mondrian, "ela’tá-dando-bola-pra-mim?!", olha para o vendedor — É! pelo jeito ‘tá mesmo — e sai da sala, "esquece-cara! ela já tem namorado. Por que não deu certo co’a Holandezinha? Ela era a mulher dos meus sonhos!"
Há um casal de vendedores na cozinha tomando café.
— Daí, ele falou bem assim: "non!-non! já fiz anú’cio noutro guia!"
Mondrian ouve isso, "hã?! A-lá!a-lá! Mais um causo do Jorginho!"
— É! É’ssim-mesmo-que’le-fala! — disse a moça, uma morena, que ri das caretas e dos falsetes que o vendedor faz.
— ‘té’manhã pessoal! — "por hoje chega!".
Jorginho olha para Mondrian e acena-lhe — tchau, tchau Mond!
Mondrian sai para o pátio escuro, "parece que não está tão frio", a vendedora morena, Angélica, explode numa gargalhada, "puutz! que risada! eh!eh!êh!". Mondrian enfia as mãos nos bolsos dianteiros da calça; está com um blusão-de-lã cinza-e-preto, "quente-pra-caramba, êpa! Er’da-minha-mãe-também! E eu falando do blusão do Vítor!", uma calça jeans azul desbotada e Nike nos pés, "lembro-me do primeiro dia dela aqui na agência: "é meu primeiro emprego...", disse-me com aquela cara que’ra só boas-intenções", caminha para a escada, um carro com escapamento furado sobe a Quintino, "puta-barulho-cara! Tem-que-se’pobre!", ele observa as plantas que balançam à luz amarela da rua, ao vento, sobre a escuridão do canteiro, ao lado da escada, " naquele dia o Vítor mostrou-me uma pétala de flor onde o vermelho de uma ponta se misturava com o branco num suave degradê... achei tão-tão poético isso! Faz lembrar-me Goethe: a beleza está nos olhos de quem contempla". Ele chega à calçada, as motos usadas pelos vendedores estão paradas, em 45°, diante do portão da escada, uma delas, a preta, é usada por Angélica e pelo Jorge, "Jorginho. Jorginho é um figura! miudinho, cabelão-preto-jogad’p’ra-cima, Ray Bans de Chips, dentes de cima sempre p’ra fora, aquela camisa vinho horrosa! que ele nunca tira! três botões abertos p’ra mostrar a corrente dourada e aquelas calças jeans brancas de desbotadas".
Mondrian vai Quintino ladeira acima, "hoje mesmo ele estava co’a tal camisa por baixo daquela jaqueta de veludo preto. Angélica conheceu Jorginho na agência, não demoro’ muito p’ra estarem juntos pra-cima-e-pra-baixo fazendo vendas, resultado: acabaram namorando... e-os-caipora’vendem!"
— Háháháháháhá!!! — "escandalosa daquele jeito, imagina a gritaria na hora de dá uma!" — Háháhá! — olha ao redor, "quem me vê’ rindo assim cara, achará que sou louco!", pára na esquina da "casa de rico sempre fechada" — louco-não! — "só porque encontro tipos por aí que bem poderiam ser personagens, ávidos por aventuras, quem sabe não desejem ser protagonistas de uma história? — o romance de Jorginho e Angélica!" — Romeu e Julieta já era! — "a imaginação se animou tanto que o sonhador percebeu que poderia criar! — ah! ah! ah! — "a quem dizer isto?! Quem entenderá meus insights?! Tales, o Maldito Judeu!".
Olha à esquerda, a Praça 9 de Julho, diante da qual há um posto de saúde, "com gente na frente ainda, ness’frio-cara! foda!", e, do outro lado da praça, o prédio do SENAC "que nunca terminam". Um Santana branco, dirigido por um bigodudo, vem pela Quintino e vira na rua da praça, Mondrian atravessa a rua logo em seguida.
Na outra calçada, diante do prédio da TELESP, ele é apanhado por um vento frio, "uuh!meu-rosto’tá-queimando!", vira o rosto para direita e vê o ponto de ônibus cimentado, as pessoas estão encolhidas de frio, enquanto observam o circular azul-e-branco que se aproxima. Há carros indo e vindo, motoboys "costurando", gente de bicicleta, um ônibus da Nisshinbo que deixa gente aqui e ali.
Mondrian observa uma moça no ponto de ônibus, "nunca vi por aqui", a moça olha para Mondrian, depois olha para ônibus que está vindo.
— Como Itapetininga tem mulher bonita! — "ela parece aquela vendedora eslava, Helena, que gata! ach’que-vou-namorá-la! Mas-ela-mora-nos-cafundó-do-juda’! Ai! ‘quele-dia ela saiu do banheiro e logo em seguida eu entrei p’rá dá’ uma mijada e, quando peguei no assento da privada..." — noooossss’cara!!! — "tava-quente! quente-gostoso-del’inda! quis-lambê’o-assento! lambê’ond’ela-tinha-post’a-bunda! ond’el’abriu-as-pernas! que-lô’co! que-lô’co! ‘tô-ficando-de-pau-duro! ‘magina‘quela-bunda-quent’sentand’no-meu-pau?! Noooossss’cara!!!". Ele tenta esconder a ereção com as mãos nos bolsos, "precis’rruma’uma-namorada-cara! Ela parec’ que não é cu-doce, é até meio bobona, ma’s’ela-me-de’m-fora?! Ué? daí? daí’os’cambau! Mas-ela-é’m-tesão-cara! Uma-put’eslava-cavalona! Um-fora-dela-é’m-baque! E-se-foss’ele? o-Tales?! Ele-não’tá-nem-aí! Puta-cara-de-pau! E-tem-um-pique-p’ra-coisa! Viu-gostô’chegô’! Ach’qu’a-mulherada-gost’do-jeitão-dele, p’ra-ele, caiu-na-red’é-peix’! Gostaria de ser com’ele. Ach’qu’ele-toma-menos-fora-qu’eu... ma’manhã-é-sábado!".
— Sábado-cara!
"S’ela-não-quise’nad’comig’, a-Bullu’s’tá-chei’de-mulhe’que-pod’querer!"
— E-o-rest’que-se-foda!
"E’u-quero-sai’à-noite!", inspirou, "libertar-me da maldita luta pela sobrevi-vência, toma’ um chopinho c’os amigos, viajar ouvindo dance-music tucs-tucs-tucs-tucs-tum-tum-tum! uou! tucs-tucs-tucs-tucs-tum-tum-tum! Conhece’ umas gostosas e arruma’ uma namorada linda-e-loira!" — E o resto que se foda!
Olha para o chão, para seus tênis, "confortáveis qu’eu poderia ir até Tatuí a pé... que-nem-o-Vicente-Matheus-falo’quele-dia: "a gente vai de Campinas a São Paulo a pé comemorando! Mas a pé em cima do caminhão!" — eh!eh!eh!
Pára na esquina da rua Julio Prestes, olha para a esquerda, "quero agradecer à cervejaria e engarrafaria Antarctica pelas Brahmas que mandou p’ra cá", um Voyage, "fudido!cor-de-burro-quando-foge", com um imenso "Jesus salva" no vidro traseiro, veio da Julio Prestes e entrou na Quintino, "nossa! que-carro-horroso! quando eu contei essa do Vicente Matheus p’r’o Quim-lá-da-loja ele quase explodiu de rir!".
Atravessa a rua, na Quintino, um circular passa, a moça que Mondrian tinha observado no ponto de ônibus está pagando a passagem ao cobrador, "outro dia a Helena estava com uma camisa branca e reparei, que-delícia-tesuda! na rendinha do sutiã dela, e-que-peitão-gostoso’la-tem! Ela deve ter 1,70m, longos cabelos, lisos e castanhos, pele branca, olhos castanhos, belo sorriso e aquelas sardinhas-pouquinhas que’la tem no rosto e... no-colo-cara!!! seios grandes, magra, veio de uma cidade pequena, ai! hoje-preciso-toca’umas-par-senão-não-sossego! Mai’n’quero-mais-toca’punheta! Quero dá’m-metão!" Olha para o chão, para a calçada-pisos-aqui-cimento-lá-buraco-ali, "tenh’que-se’com’ele! Atiradão! Chega’junto-mesmo! Chega’junto-n’Helena! Usar-dest’entusiasmo! dest’paixão! dest’tesão! p’ra compo’minh’imitação! imitação-de-Tales! cheg’de-punheta! Quer’ comê-a-Helena! Diga-não-à-punheta!"
Mondrian caminha um pouco mais, distrai-se vendo o movimento dos carros, outro circular cheio sobe a rua, "tem alguma buceta boa lá?", outros carros, no fim da rua, circular e carros tornam-se uma massa de latas com luzes vermelhas e setas amarelas — Tales. Seu-maldito-judeu! — "como pode ser atirado-lo’co-daquel’jeito?! E encontrar beleza em cada esquina?" — olha! Isto ficou legal! Preciso anotar! — "será qu’ele sente também esta doce melancolia que estimula-me a criar?". Ele olha para cima e vê as nuvens que refletem a luz amarela da rua. "Eu escolho muito... por isso fico sempre sozinho... ach’que nunca conseguirei conciliar meu ideal de mulher com o qu’o meu caminhãozinho ‘güenta..." Lembra-se de uma loira de olhos castanhos que ele encontrou na rua Campos Sales, Mondrian olhou para ela mas esta fingiu que não o viu, "não é p’ro teu bico"; uma eslava que sorria, sentada numa mesa, num barzinho próximo à Bullu’s, ele tentou falar com ela e esta virou-lhe a cara; uma ruiva que folheava uma revista na banca da avenida, ele aproximou-se dela, ela olhou-o com tamanho desprezo que ele teve que sair da banca; "todas surgindo e sumindo na escuridão de minha sina". Ele torna-se melancólico, olha para cima, vê as nuvens cinzentas, "que fogem da luz amarela para as trevas do alto da noite", tenta imaginar este movimento, um mergulho na escuridão, "pois p’ra mim nada resta’qui...", até encontrar uma noite sem nuvens, "profunda" e estrelada, sua memória traz-lhe de volta fragmentos de solo de piano do concerto para piano 1 de Tchaikovski, "música é tudo!"
Sente desprendimento, alheio ao tempo, à caminhada para casa, pousa o olhar sobre os sobrados, fachadas e casas da rua que passam por ele, "são de uma rua de Paris, a Paris de Proust, da Belle Époque! Contemplar me dá uma paz". Ele percebe que, enquanto sua mente observa alguma coisa, pode avaliar seus sentimentos, "nesta paz comecei a entender como sou, pela primeira vez percebi que há um caminho além de tanta incerteza, da insegurança, o medo não é p’ra sempre..." — preciso registrar isso! — Lembra-se de que está com um caderno de anotações em sua mochila, ele considera o impulso de registrar este pensamento — por que comecei a escrever? — "para registrar as idéias que tinha, seja p’r’uma HQ, um roteiro de filme ou um poema, de escrever idéias passei a descrever estados de espírito". Ele vê uma rua sem saída, à sua direita, doutro lado da Quintino, onde as árvores da calçada fazem sombras nas casas e terrenos que ficam atrás, "sibipirunas", e suas folhas e galhos são balançados suavemente pelo vento, sob a luz-pálida-iluminando da rua, "o duo de flauta doce e piano", Mondrian percebe o "vvventoolllâânnnguidosssoprannndofffffolllhlhasssmmmiúdasss" enquanto elas e os galhos movem-se seguindo o vento-que-vai. Ele sente aquela miríade indo devagar, "tão devagarinho, onde já vi isso?" reduz os passos, "era assim que as árvores eram balançadas, balançadas pelo vento, naquele dia em que eu olhava pela janela da cozinha, da casa da ‘vó Olga", inspira lentamente, "as árvores do quintal, terrenão-que’ra", expira devagar, viu-se naquele quintal, "roupas estendidas nos varais, suspensos por bambus secos, de-quando-em-quando elas eram erguidas lentamente pelo vento, como as velas brancas de um navio; aquele movimento parecia eterno, sempre indo, depois elas voltavam, o vento soprava-as no compasso de um largo-alegro d’um concerto grosso de Corelli", Mondrian arrepia-se, "fazem lembrar-me de Fernando Pessoa: às vezes, só de ver o vento soprando as roupas no varal, já vale a pena ter nascido..."
— As roupas erguidas lentamente pelo vento naquele eterno movimento.
Mondrian continua caminhando, "o céu cheio de nuvens escuras, elas se moviam lentamente também", tira as mãos dos bolsos e esfrega-as uma contra outra, "a ‘vó ‘tava de pé, de braços cruzados, diante do fogão, esperando a água ferver p’ra fazer o café", ele chega à pracinha do largo do Rosário, pára no posto da esquina, olha os carros que estão passando na rua, passa mais uma Kombi branca, ele atravessa a Quintino e segue pela rua Cel. Clementino de Oliveira, "a ‘vó ‘tava falandinho, ‘tava olhando pela janela da cozinha também, ach’que‘tava-meio-melancólica, então ela olhou para a jabuticabeira, suas folhas tentavam acompanhar o vento também, eu olhava p’ra ela sem ela perceber".

Apresentação - Presentation

Tudo que Mondrian quer, na sexta, é sair à noite, deixar o resto que se foda, libertar-se da maldita luta pela sobrevivência, tomar um choppinho com os amigos, viajar ouvindo dance-music, conhecer mulheres interessantes, arrumar uma namorada linda-e-loira e se dar bem. São estes pensamentos que ele considera no caminho para casa.
Entretanto, ao observar uma árvore da rua balançada pelo vento, ele se recorda do tempo em que ia à casa da avó materna — Olga, filha de imigrantes alemães —, do drama da imigração da família, que veio fugida para o Brasil durante a 1ª Guerra Mundial, e de como aquelas histórias fascinaram sua imaginação durante anos. Ele não aceita a sua brasilianidade, e lamenta ser um alemão perdido nos trópicos. Mondrian tem 21 anos e mora em Itapetininga. Ele percebe que não sente mais aquele encanto despertado pela narrativa da imigração da família. O que o atrai agora é sair à noite no fim de semana, "as coisas mudam!", mas não deixa de lamentar essa mudança, e sentir receio de entregar-se aos prazeres de uma boa noitada. Neste dilema, lembra-se de Tales, seu amigo, e de como ele atira-se às coisas novas, "não sou assim...". No sábado de manhã ele volta a considerar esta mudança, "as coisas vêm e vão", lembra-se do avô, pai-do-pai-dele, Saratoga, dono da "Os Tropeiros", uma loja de materiais para construção, de como o avô fazia-o sofrer quando Mondrian era criança, quando o menino tinha que ficar n'Os Tropeiros. Hoje, para Mondrian, Saratoga é um velho rabugento, divertido, que tem histórias grosseiras a ponto de serem únicas. Quando Mondrian chega à agência de publicidade, passa a observar as vendedoras e outras colegas de trabalho, em especial Helena, a vendedora que está de camisa transparente, pela qual se vê a renda do sutiã que ela usa; ele imagina como seria se ela fosse sua namorada. Depois do expediente, Mondrian é convidado para almoçar na casa do tio, Vítor, dono da agência, que é pintor e tem uma casa que Mondrian acha exótica e agradável ao artista. À noite Mondrian alimenta todas as expectativas de ter uma boa noitada. Concomitante, sente um desejo de exprimir artísticamente as diversas expectativas que o oprimem. Ele tenta entender "este caos!" conversando com Tales, seu amigo e escritor. No caminho para um barzinho, ele vê uma loira, "que passa", e que é a encarnação de seus desejos. Mondrian e Tales vão a um barzinho onde encontram um grupo de garotas e Mondrian se interessa por uma morena. Depois vão à uma danceteria, onde Mondrian toma um fora da morena, reencontra a loira-ideal, ganha um beijo mas logo é deixado por ela, pois a moça tinha bebido para esquecer que brigou com o namorado. Mondrian, arrasado, consola-se por acabar a noite, mais uma vez sozinho, contemplando o ambiente da danceteria: as mulheres dançando, as luzes hipnóticas, os amigos bebendo, alguns ficando, a dance-music. Ele percebe que "este caos de promessas de alegrias e prazeres" não existirá na manhã seguinte, somente ruas frias e vazias.
Nos dias que se passam ele caminha pelas ruas de Itapetininga observando a beleza fugidia de cada árvore, cada casa, "foda-se o resto!", cada portão que deixa entrever um jardim mais imaginado que real; ao sentir a provisoriedade das coisas ele reconhece que este movimento é inexorável, porém belo! Descomunalmente belo! "É preciso registrar estas ondas, é preciso escrever sobre isto, extrair do transitório a beleza que é eterna!"

Everything that Mondrian wants, on Friday, is to leave at night, to leave the rest that if fuck, to free of the damned fight for the survival, to drink a draught beer, to travel hearing dance-music, to know interesting women, to arrange a beautiful-and-blond girlfriend and if to give well. They are these thoughts that he considers in the road home. However, when observing a tree of the street balanced by the wind, he remembers of the time in that went to the maternal grandmother's house — Olga, German immigrants' daughter — of the drama of the immigration of the family, that came fled to Brazil during to 1st World war, and of as those histories fascinated his imagination during years. Him no it accepts his brasilianidade, and he laments to be a lost German in the tropics. Mondrian is 21 years old and it lives in Itapetininga, São Paulo, Brazil. He notices that he doesn't sit down more that charm wakened up by the narrative of the immigration of the family. What attracts him now it is to leave at night on the weekend, "the things change!", but he doesn't stop lamenting that change, and to feel fear of giving to the pleasures of a good whole night. In this dilemma, he remembers Tales, his/her friend, and of like him he/she throws himself to the new things, I "am not like this...". On Saturday in the morning he considers this change again, "the things come and space", remembers the grandfather, father of his father, Saratoga, owner of “The Tropeiros”, a store of materials for construction, of as the grandfather made him to suffer when Mondrian was child, when the boy had to be in The Tropeiros. Today, equal Mondrian, Saratoga is an old one grumpy, entertaining, that he has rude histories to the point of they be only. When Mondrian arrives to the publicity agency, it starts to observe the salespersons and other work friends, especially Helena, the salesperson that is of transparent shirt, for the which sees her the income of the bra that she uses; he imagines how it would be if she went her girlfriend. After the file, Mondrian is invited to eat lunch at the uncle's house, Vítor, owner of the agency, that is painting and he has a house that he finds exotic and pleasant to the artist. At night Mondrian feeds all of the expectations of having a good whole night. Concomitant, it seats a desire to express artistic the several expectations that oppress him. He tries to understand "this chaos!" talking with Tales, his friend and writer. In the road for a bar, he sees a blond one, "that it passes", and that is the incarnation of their desires. Mondrian and Tales are going to a bar where find a group of girls and Mondrian is interested for a girl. Then they go to a club, where Mondrian takes an out of the girl, it meets again to blond-ideal, it wins a kiss but soon it is left by her, because the girl had drunk to forget that she fought with the boyfriend. Mondrian, satiny, is consoled by finishing the night, once again alone, contemplating the atmosphere of the club: the women dancing, the hypnotic lights, the friends drinking, some being, the dance-music. He notices that "this chaos of promises of happinesses and pleasures" won't exist the following morning, only cold and empty streets.In the days that happen him bed for the streets of Itapetininga observing the fugitive beauty of each tree, each house, "fuck the rest!", each gate that lets to glimpse a garden more imagined that real; when feeling the temporary in the things he recognizes that this movement is relentless, however beautiful! Incredibly beautiful! "It is necessary to register these waves, it is necessary to write on this, to extract of the transitory the beauty that is eternal!"

Capítulo 042

"O tempo está passando", concorda com um movimento de cabeça, "percebo isto", Mondrian olha para o céu nublado enquanto caminha pela rua, "dias frios, cinzentos, como os dias podem ser tão iguais assim? sem sal, sem açúcar", sorri, olha para a calçada, "parece até que eles estão em consonância com meu estado de espírito", pela Praça Rui Barbosa, "solo de piano na cabeça", passa pela avenida Peixoto Gomide, observa as janelas das escolas, "solo tão lento, com espaços imensos entre uma seqüência e outra de notas", suspira resignado, "além desta zica há melancolia... mas tantas coisas ocorrem ao meu pensamento! Ond’stá-o-maldito-judeu-p’r’eu-discuti’stas-coisas? Sinto falta dele. Agora ele vai à casa da Fernanda todo dia. Estão namorando. Bom, muito bom p’ra eles", continua caminhando, "agora meu refúgio é meu quarto, minhas leituras, há-tanto-p’ra-ler-cara! minhas recordações, minha solidão que estimula meu pensamento", observa o céu azul, "minhas contemplações... pareço um condenado contando os dias que restam da minha pena!"
Caminhando pela rua Campos Sales, "agora os dias nublados alternam-se com dias de céu azul muito limpo", observa as pessoas que passam por ele na calçada, "as pessoas indo e vindo, próximas para o artista vê-las, distantes para o homem falar com elas..." Ele passa pelo cruzamento daquela rua com a rua Julio Prestes, "apenas as ruas, as casas são constantes; as fachadas das casas refletem o tempo em que foram construídas, as vidas que se aconchegavam atrás delas enquanto miríades de olhares, de dias, o sol e a chuva, enfim, o ‘aqui-fora’, passava pela rua, do outro lado desta fachada; mesmo uma janela denuncia isto, sua simplicidade revela a pobreza de quem a colocou ali no meio da parede, entre o fluir das coisas, fluir cara... e a vida doméstica; as coisas estão sempre fluindo". Ele pára numa esquina, observa um prédio novo, "ali era um terrenão onde havia mangueiras, a gente pulava o muro e subia nas árvores", olha para a casa à esquerda do prédio, "aquela casa já tem outro dono, ele a reformou", à direita, vê o vento balançar as folhas das árvores do quintal de uma casa, "como no quintal da casa da ‘vó".
Mondrian passa defronte a uma casa antiga, atrás de um jardim e uma escada que conduz a uma espaçosa varanda, "os impressionistas estavam certos, a luz refletida é tudo", observa seus canteiros, "deve ser do tempo em que meu bisavô chegou aqui’m Itapê", os arbustos como cercas vivas, "ou nem tanto, talvez seja do tempo da casa de minha ‘vó, de quando ela estendia roupa no varal do quintal de chão batido... não há mais chão batido, o tempo do chão batido já fluiu também". Lembra-se de ontem, quando foi ao quarto de Olga e encontrou a velhinha sentada na poltrona, cochilando diante da TV ligada, o som estava baixinho, as imagens da TV refletiam-se no rosto dela, "eh!eh! ‘dá um soninho senta’ p’ra ‘ssisti’ televisão!’, ela diz", olhou para os porta-retratos na estante, "toda essa vida, essas histórias que’la me contava, já passaram...", seus olhos pararam numa foto de Olga mocinha, "até mesmo as pessoas passam", olhou para a avó na poltrona, "nem minha ‘vó está mais naquele quintal... cara! tudo passa! passa inexoravelmente! nada-fica-p’ra-nós! nada! aquele mundo que conheci, aqueles dias em que ia à casa do ‘vô Bart já se foram, ‘té o ‘vô Bart já foi cara, gostava tanto dele", observa as flores e as linhas dos canteiros ao fundo, "tudo fluindo... inclusive este momento", olha para um dos corredores laterais da casa que leva ao quintal onde há um pomar, "da contemplação chego à amplitude...", ergue os olhos, "insight-cara!", depois das árvores, "lá longe", o azul do céu, "o infinito!" Mondrian arrepia-se, sente que está na praia, com os pés na água, observando o movimento das ondas, "enquanto uma vida, um encanto, uma época vai desaparecendo outra vem surgindo, e enquanto permitirmos morrer junto com aquilo que está indo, com a onda que volta, que nada nos resta a não ser amargura, não estaremos prontos para o novo!", ouve novamente o solo de piano, "meu! As Ondas!!!", olha de um lado a outro da rua, há apenas casas, fachadas, árvores e carros parados.
— Ah!ah!ah! Caaara! — ri de novo — onde está você agora seu maldito judeu?! Óh Judá! P’ra eu contar-lhe tudo isto? — "há uma poesia bruta em tudo isto, neste movimento que ora contemplo, as ondas que nos trazem coisas e pessoas, e tiram-nos sem consultar nossa vontade", olha para a direita, para a rua, "o silêncio da rua", para a fachada antiga da casa, "a beleza das casas", para uma sibipiruna balançada pelo vento, "das árvores", para cima, "e do céu! Hoje vejo tudo isto através de meus olhos", arrepia-se — mas isto — sente a sonoridade de sua voz na rua vazia — também está passando, fluindo, desaparecendo da realidade cara! para ressurgir na memória — "um dia!", concorda com um movimento de cabeça, "um dia cara, tudo isto será apenas uma experiência! a de ter estado aqui em Itapê! de ter sentido o que senti... isto ninguém pode tirar-nos cara!", sente êxtase ao perceber o quanto já passara, "as histórias contadas pela minha avó, a doçura e bom humor do ‘vô Bart, a irreverência do tio How, os dias apertados em ‘Os Tropeiros’, Saratoga, os longos diálogos com Jerônimo, a conversa brejeira da Jurema, a eterna juventude dos Anjos Rebeldes, os áureos dias de FAAP! o trabalho na agência ao lado do Vítor, Alexandre, Hugo, os figurinhas! o mundo pulsante da noite, a Bullu’s! as lindas mulheres e o sonho de encontrar a minha Rainha loira de olhos verdes!!!" — Ah!ah!ah! — rodopia como se estivesse na pista de dança — não se trata de um lamento! saudade! É preciso mais que não esquecer estas experiências! Escrever cara! Escrever sobre tudo isto! Eis a missão que tomo para mim! — sente que sua existência cintilará na longa jornada da História, "Literatura cara! através da qual recuperamos para a eternidade aquilo que um dia foi experimentado, sonhado... fluido em alguma vida!"

Capítulo 041

Mondrian acorda antes do despertador tocar, "segundona... começa’tudo-de-novo, ah!vô’liga’p’r’o-Vítor-e-dize’que-não-vô’trabalha’hoje", vira-se na cama, "e-o-sábado-de-uruca? agora parece um pesadelo cara, palhaçada! a-lo’ca-e-a-bêbada! um filme no qual o protagonista-trapalhão só se fode co’as mulheres, aquelas-duas-que-se-fodam... com’é-qu’o-Marco-Nanini-falo’naquela-minissérie? Mulher e bolacha em qualquer lugar se acha?! isso!", senta-se na cama, esfrega os olhos, "ai cara! preciso anda’ um pouco p’ra ‘spairecer", levanta-se, tira o pijama, vai até o guarda-roupa, "a banca de jornais da rodoviária, quem sabe não chego’ algum CD de música clássica, e-s’encontra’uma-das-vagabunda’pela-rua?finjo-que-não-conheço!", pega uma calça jeans, "puta saudade do tempo em que andava pelas ruas de São Paulo... que vontade de andar, andar até sumir cara!", veste a calça, coloca os tênis, "vou ficar com essas meia’ mesmo", vai até a cômoda, aplica um jato de desodorante nas axilas, "foda-se também, à noite tomo banho", pega uma camiseta de uma das gavetas, veste-a, coloca uma blusa de lã, "hoje estou com o corpo frio e a’lma gelada cara", desce para a cozinha. Encontra Olga tomando café, "ela ‘tá viajando", cismada com alguma coisa, ela olha subitamente para Mondrian.
— Hã?! Já levanto’?!
— Ué! — "tio How!" — Não dizem que quem madruga Deus ajuda?!
— Qué’ que a ‘vó faça uma panqueca p’ra você Mondrian?
"Hum... será?" — não-não, não precisa hoje ‘vó, como pão mesmo — "panqueca todo dia enjoa, e’ngorda-também... será que buceta todo dia enjoa também?!", ele senta-se à mesa, diante de uma xícara virada com a boca para um pires, "às vezes vejo esses artista’ na TV", vira a xícara, despeja leite do canecão nela, completa com café, "com cada mulherão e depois ouço um boato, ‘fulano é viado’... Deus-me-livre-cara!", pega um filãozinho do saco de pão, corta-o, Olga sorve sonoramente um gole de café-com-leite da xícara que tem na mão, "que-será-qu’ela‘tá-matutan’o?", ele passa margarina no pão, "putz! que saudade do tempo da manteiga". Mondrian toma o café e sai para a rua.
"Que solzinho tímido, será que o tempo vai abrir? se-depende’da-minh’uruca-não!", sente o gosto de café na boca, "cafezinho-da-hora combinava tanto com um pãozinho com manteiga! confesso que não gosto de margarina, mas dizem que manteiga tem muita gordura, é a nata do leite, faz mal p’r’o coração, isso e aquilo... se fosse a Dercy ela falaria: ‘enfia a margarina no cu da mãe’! ah!ah!ah!". Ele chega à rua Quintino, observa os carros indo, os circulares que vão para o centro da cidade, "lá vai todo mundo de novo", as pessoas caminhando, "todo mundo indo p’r’o trabalho..." Ele segue pela rua General Glicério, "todo mundo acaba caindo nessa ciranda algum dia", olha para a praça Rui Barbosa, lembra-se de uma sonata para piano de Schubert, pára, "eu ainda posso sentar-me ali naquele banco, eu-a-uruca-o-Hardy-e’ssa-maldita-sin’artística! ficar vendo o tempo passar-passar, o condenado ao ostracismo!", por um momento sente-se fraco a ponto de se resignar a esta suposta realidade, "não-não!", continua a caminhar, vira à direita na rua Saldanha Marinho, "isso parece coisa de fim de livro, ou daqueles filmes baseados em livro", pensa na figura de Jó, em sua mente ouve um solo de cravo do CD de música barroca que ouvira no domingo à tarde, lembra-se da Heloísa, da Silvana, "será que é por isso que tenho tão pouca sorte com as mulheres?", vira à esquerda na rua Pedro Marques, vê uma moça alta, de cabelos pretos, olhos azuis, eles trocam um olhar, a moça passa por ele, "que belos olhos cara! será-qu’ela-toparia-sai’comigo?", ele chega à rua Virgílio, "segunda, a Virgílio é outra, não tem nada a ver com a de sábado", atravessa-a, continua caminhando pela rua Pedro Marques, anda mais um quarteirão, vira à direita, "melhor eu virar aqui p’ra não passar na loja do ‘vô", na rua João Evangelista, "eu gosto dessa rua cara! não sei por que, gostaria de um dia ter uma casa aqui", ele sobe pela rua observando a fachada das casas, "como seria ter uma casa destas?", chega ao cruzamento desta rua com a rua Jorge Ozi, "não quero passar em frente à Bullu’s, ainda ‘tá doendo cara", vira à esquerda nesta rua, "nossa cara! já estou aqui?! ando distraído, não percebo quanto ando mesmo", ele chega à rua Padre Albuquerque, "antiga estrada p’r’o Paraná, quantos sabem disso? quantos, eu digo, da minha idade, ah! sei lá! aqui já é uma parte feia da cidade, boca quente à noite", ele avista a ponta do telhado da rodoviária.
Quem vem pela rua Padre Albuquerque, como Mondrian, vê apenas as árvores do estacionamento, atrás fica o barracão azul da rodoviária de Itapetininga. Mondrian atravessa o estacionamento, dá uma olhada no ponto de ônibus onde há pessoas embarcando num circular azul e branco, olha para o destino indicado na frente do ônibus, "Chapadinha! Podia-manda’quelas-duas-p’ra-lá!", volta-se para o chão, vê os paralelepípedos rústicos, olha para a frente, "lugarzinho-mal-cuidado‘sse’qui! grama não tem mais!", entre as árvores e o prédio da rodoviária, vê os táxis parados, atravessa a rua e entra na rodoviária, vê uma gorda morena, "como tem gente diferente aqui", ela dá uma tragada num cigarro, "uma bugra? e não é nem gorda é inchada mesmo!", ela tem os cabelos negros, presos atrás da cabeça, com uma mecha branca em cada lado, "deve ser crente p’ra ter um cabelão cumprido assim", ela tem o olhar distante, vez em quando seus olhos movimentam-se para olhar a entrada de um box ou outra coisa que chame-lhe a atenção. Ao lado da bugra vem uma moça, "e-que-corpinho-hein?!", que lamenta-lhe alguma coisa, "dev’te’uns-15", é mais alta que a outra mulher, mantém a mão direita no ombro da primeira; a moça usa uma blusa de lã justa no corpo, sobre o fundo branco da blusa há figuras abstratas, calça jeans, "calça horrorosa", elas passam ao lado de Mondrian, "será que a morena é boa de bunda também?", vira-se para olhá-la, vê uma loira alta, "Sí?!", de óculos escuros, saindo da bombonière à esquerda dele, "que-Sí-o-quê!", ela está com um tablete de chocolate na mão, "Talento, gosto deste chocolate", vira-se para frente, a loira passa por ele, Mondrian sente o perfume que ela deixara, "que frescor! deve ser filha, cu-doce-pelo-jeito! de algum ricaço daqui". Ao lado da bombonière está a banca, um box de 5x3 m, com as três paredes forradas de jornais, revistas, CDs, livros, fitas de vídeo, etc. Antes de entrar na banca, Mondrian olha à direita, onde ficam as plataformas de embarque dos ônibus, o Bonavita está parado na primeira plataforma, na do lado passageiros desembarcam de outro ônibus, Mondrian entra na banca, dá uma olhada na Folha e no Estadão, "não é o mundo que ficou pior, é a cobertura de imprensa que melhorou! ah! ah! cara! onde li isso?", uma passada de vista pela Caras, "a promoção dos CDs de música clássica acabou", pela Veja da semana, revistas de cinema, "nada do 4º Indiana, eles vão deixar p’ra fazê-lo quando o Harrison Ford estiver velhinho", revistas femininas, chega aos CDs, "ainda está no Tchaikóvsky", observa as fitas de vídeo, "aprenda a pescar, viajar com economia... viaje-co’Salim! ganhar dinheiro sem sair de casa", dá uma olhada nas revistas americanas, "olha-que-par-de-teta’dessa-loira! Parece a Sí! E-que-cara-de-puta-dessa-o’tra! boca-de-chupete’ra!daquelas-que-deixa-goza’na-boca!uhhhh!!! quant’é?!quant’é?! déiz-pila’? ach’que-não, é o dobro do preço da Playboy", olha para o relógio, "8 e 22, mais uma boa caminhada e até às 9 chego na agência". Ele sai da banca, "onde acham mulher com umas teta’ daquele tamanho cara?!", volta pelo mesmo corredor, à esquerda, num bar, vê um homem passando um pano sobre o balcão, "ele tem a cara vermelha de tanto beber, inchado também", o balconista usa uma camiseta branca, manchada, sob um guardapó azul desbotado, "e’ss’cururu-ou-música-sertaneja-lazarenta-qu’ele’tá-ouvindo!P’ra-mim-é-o’tro-mundo!", ao lado dele há caixas de cerveja empilhadas, atrás, prateleiras com garrafas de pinga, "e uísques vagabundos", um velho mulato, muito magro, de calça social azul-claro, camisa branca, de chapéu preto, um pouco corcunda, passa diante do boteco, tira o cigarro da boca e, soltando fumaça, cumprimenta o balconista. Ele sorri-lhe sem mostrar os dentes, fala alguma coisa, "que diferença! o balconista, sério, enquanto passava o pano no balcão, parecia exprimir em seu rosto o peso daquela experiência monótona, imagine: todo dia, sábado-domingo-feriado, faça-chuva-faça-sol-frio-calor, ele ali, limpando o balcão, atendendo os pingaiada, viajante e a putaiada, por-que-não?! Isto aqui à noite ferve!", Mondrian sai da rodoviária. Um grupo de taxistas está reunido do lado esquerdo da entrada da rodoviária, jogando conversa fora, "eles estão falando da ‘ameaça’ dos moto-boys". Ele atravessa a parte arborizada do estacionamento, "as árvores estão perdendo espaço aqui", observa um grupo de viajantes que caminha em direção ao ponto de ônibus, "o que não teria sido isto aqui há 100 anos? Quantas árvores mais!", observa o chão batido ao redor, lembra-s de ter visto fotos antigas do centro de Itapetininga, "onde foi que vi?", caminha em direção à calçada, ao chegar, olha para a esquerda, vê as pessoas esperando o circular, entre elas reconhece Helena, "Helena!", a moça está de pé, segurando uma mochila, ao lado de uma mala tamanho médio, "ne’tudo’stá-perdido-cara!nossa!’quele-dia’la’mpinando-as-teta’p’ra-mim-cara!", ao aproximar-se percebe alguma coisa diferente nela, "nã’é-nada!nã’é-nada!", a moça sorri-lhe.
"Hã?!" — Oi! — "qu’é’ssas-olhe’ra’cara?!" — ‘tá vindo de onde? — "cara-de-sono!será-que’la’ amanheceu-na-farra? cabelo-preso... puta-merda! onde’stá’quele-mulherão-que-me-deixo’doido-anteontem?!"
— Paranapanema... — Helena olha para o lado por um momento, "que chato isso", Mondrian olha para a camiseta branca que a moça usa, "cadê-os-peitão’?! será-qu’ela’tá-usand’um-sutiã-tão’pertado’ssim?!", ela volta-se, "ele vai achar que sou caipira... mas ele é bonzinho!" — sô’ de lá...
— Ah é? Não sabia — "já tinha ouvido falar alguma coisa do Jorginho".
Helena examina o rosto de Mondrian, "não mudou" — como ‘tá frio aqui n’é? lá... — "em Paranapanema" — não ‘tava tanto assim — Mondrian observa-a falar, "será que idealizei-a demais?" — Quando entrei no ônibus, tudo quieto, quentinho, dormi tão gostoso! — ela sorri.
— Ah! — Mondrian sorri involuntariamente, "hã? não prestei atenção no que ela falou cara", Helena percebe a distração dele, deixa de rir, "o que um moço como ele poderia querer com uma caipira como eu?", Mondrian percebe uma expressão cansada no rosto de Helena, por um momento vê Heloísa no lugar de Helena, "quê?!", depois Silvana, "hã?!", fecha os olhos e mexe a cabeça — Solzinho ardido!
Helena olha para cima, "não acho" — É mesmo — "ele tem os olhos claros, vai ver que é mais sensível". Mondrian abre os olhos, "é você Helena!", observa-a, "nenhum vestígio daquela beleza eslava... nem os peitão’mpinado".
"Que ele olha tanto?", ela sorri — Que foi?
— Hã?! Ah! ah! — "qu’eu-falo?", ele ouve um circular se aproximando, olha para a esquerda, vê no alto da frente do ônibus "Parque 4L".
— Vou pegar esse aí — Helena pega na alça da mala, Mondrian olha para ela, depois para a mala.
— De-deixa-qu’eu-ajudo-Helena — pega as alças das mãos dela, "que mãos macias!", ele percebe a gentileza involuntária, "ma’o-qu’eu’tô’fazen’o?!", olha para a moça — obrigada Mondrian — ele sorri distraídamente, "eu não ia caminhando?", o circular pára no ponto de ônibus, uma fila se forma diante da porta posterior do veículo, Helena fica na frente de Mondrian, ao subir os degraus da porta Mondrian olha para ela, "mas que bunda enorme que ela fica nessa calça de agasalho cara! carçuda-me’mo! calça velha, tem’té’m-furinho’li-do-lado", entra no ônibus, eles param diante da catraca, "imagin’eu-namorando-a", pagam as passagens, "mai’pobre-do-que-já-sou", passam pela catraca, sentam-se num banco duplo, Helena olha pela janela enquanto o circular se movimenta, Mondrian espia-a com o canto dos olhos, "andando-p’ra-cima-e-p’ra-baixo-de-circular, te’que-i’a-Paranapanema-conhece’o-sogro-e-a-sogra... como-faz-p’ra-i’lá?", olha para os seios dela, "ach’qu’é-o-sutiã-mesmo", ela vira-se para ele, "que-cara’massada-cara!"
"O que ele veio fazer aqui tão cedo?" — O que você veio fazer aqui?
— Aproveitei para andar um pouco — "aposto-qu’o-Tales-cairia-na-risada" — vim até a banca da rodoviária — "pobre-namorando-pobr’ele-diria!", Mondrian olha para a frente e suspira — às vezes acho uns CDs, uns livros bons aí — aperta um lábio contra outro, "imagin’a-Sí-me-vendo-co’ela...", sente-se envergonhado, "humilhado, eis a palavra!", olha para Helena, observa a doce expressão que ela tem no rosto.
— Você gosta de ler? — "eu não gosto nem um pouco".
— Gosto — abaixa a cabeça, "qu’eles-têm-a-vê-co’a-minha-vida?!", olha para o lado para esconder a raiva que sente, "vá-toma’no-cu-Tales! V’à-merda-Sí’rigaita!", volta-lhe o mal-estar que sentira quando Tales contara que tinha visto a Sí brigando com o namorado na saída da Bullu’s, "a-Helena-não’ncheri’a-cara-e-ficaria-co’o’tro-p’ra’squec’o-namorado!", Mondrian olha para Helena.
— Quando eu estava na 5ª série a professora de Português pediu para a gente ler um livro do Machado de Assis...
— Qual? — Helena olha para Mondrian.
— Acho que o Dom Casmurro — "ou foi outro?"
— Ah! já li.
— Já? — "ele já deve ter lido tudo" — Então, fizemos um grupinho, 5 meninas, cada uma leu uma parte do livro... — Mondrian olha para o corredor do ônibus, "não vou ter forças p’ra enfrentar o Tales, meus amigos, minha dureza, p’ra arruma’ uma namorada em Paranapanema... ‘magine-s’ela’ngravida?! aí-vô’tê’que-mora’lá-porqu’o-pai-dela-vai-me-por-na-parede-p’r’eu-casa’!", olha para a frente do ônibus, a rua pela qual o veículo passa, "imagine’la-depois-de-10-anos-de-casada... gorda-e-de-bob-no-cabelo! vô’sonha’com-loira-o-resto-da-vida, ’cabá-eu-ficando-casmurro!", suspira, "é cara, é zica mesmo, zica total!"

Capítulo 040

À tarde, Tales, de boné preto de marca, calça jeans, blusão verde bandeira com um "Hard Rock Café" em branco na frente e tênis, vai à casa de Mondrian, "maldito-judeu!Agor’ele-não-anda-mais-a-pé!é-de-Tempra-p’ra-cim’e-p’ra-baixo!", eles conversam diante da casa de Natan.
— E aí maluco?! — Tales sorri, puxa a aba do boné para baixo — Sumiu ontem! Procuramos você por todo lado, nem o Luis nem o Tá-Certo sabiam de você.
Mondrian está encostado no portão da casa — Ah! Zica cara! — olha para a esquerda, volta-se para direita, para Tales — Zica total ontem cara! — "ach’que-bebi-demais-mesmo".
— Hárárára! Por que zica total? — "olha o estado do cara: camiseta amassada... vai ver que dormiu assim, calça caída... olha que carçudo!" — Hárárára! — "meião nos pés, chinelo... o cara ‘tá mal mesmo!" — Foi por causa da Helô não é?
Mondrian arregala os olhos e ergue a mão direita espalmada — ‘quela-m’ina-é-lo’ca-meu!
— Hárárára! — Tales vira-se para o lado para rir, Mondrian fica observando-o, tentando descobrir a graça que tanto diverte o amigo.
"Tanta’sfregação-no-car..." — ‘cê-viu-com’ela’tava-no-carro-n’é?!
Tales volta-se para Mondrian — Não sei maluco, tinha algo mais interessante para eu fazer! Hárárára!
Mondrian franze a testa, "mai’que-viado!", supondo que todo aquele riso seja uma ofensa, "pimenta-no-rabo-dos-o’tro’é-festa!"
— Ela estava te procurando depois...
— É mesmo cara? — ele esperou que Tales risse, "ele-deve‘tá-zoand’comigo... não?", por um momento Mondrian se anima, "será-qu’eu-devia-ter-ficado-co’ela?", franze a testa, "co’aquela-megera?!p’ra-quê?!p’ra-toma’o’tro-fora?!", mexe a cabeça em negativa — nãããããooo!!!
— Hárárára!
— ‘quela-m’ina-não-sab’o-que-qué’cara! — Tales pára de rir e observa Mondrian falar — Ficamo’num-puta’masso-no-carro! — Mondrian fita Tales por um momento, "ele-parec’que‘tá-querendo-ri’!" — ela-deixo’eu-pega’nas-teta’dela!
— Hárárára! Mas qualquer uma deixaria!
"Qual-é-a-graça?!" — ‘nfiei o dedo no rego dela!
— Hárárára! Não diga cara! a primeira noite de um homem!
"Maldito judeu!" — Ela topo’i’comigo-p’r’o carro... — Mondrian fica embaraçado diante de tanto riso — e-eu-ia-come’ela-cara!
— Hárárára! É? você é comedô’ mesmo!
"Ach’que’tô-fazendo-papel-de-palhaço", Mondrian olha para o outro lado, melancólico — e de repente ela encana uma feia comigo, quebr’o-pau e me largo’ lá no meio da pista! vaca-viu-vaca! — Mondrian volta-se para Tales.
— Hárárára! Que comédia maluco!
— E’la’tava-me-procurando-depois?!
— ‘tô zoando com você maluco! Não a vi mais, a tarzinha sumiu também.
— Ah! — "Paia-dele!eu-sabia!" — seu-maldito-judeu! Eu-me-fodi-bonit’e-você-fica’chando’ngraçado!
— Sorry man! mas antes você do que eu! Hárárára!
Mondrian ri também.
— A Fê me disse... — Tales olha para a rua, volta-se para Mondrian — depois que a gente encontrou você na pista, que a Helô é meio xarope, acha que todas as amigas são puta’, tem umas encanações p’ra ficar.
Mondrian, aborrecido, "o’bacaxi-sobro’p’ra-mim", olha para a calçada, dá de ombros, "foda-se".
Tales o observa — fique frio! — sorri — você não é o primeiro que ela larga assim. Parece que a mãe dela é neurótica...
— Aquela vaca é neurótica!
— Também, também! vive pegando no pé dela, um lance assim.
Eles ficam em silêncio por alguns momentos.
Mondrian olha para Tales — E você cara? — sorri de canto — cato’ a Fernanda hein?! — Tales sorri — Eh!eh! Nunca imaginei vocês dois juntos.
— É maluco! — ele ergue os braços para se esticar, olha para a rua — fiquei com a Fê! — volta-se para Mondrian — Já fazia um tempo que ‘tava rolando um clima sabe, umas trocas de olhares, você sabe n’é? Quando eu vi você beijando a Helô achei que tinha chegado o momento, assumimos então — sorri novamente, Mondrian concorda com um movimento de cabeça — ‘tô curtindo cara! curtindo mesmo a Fê! depois de tantas aí, tantas que não deram em nada, e tantas que deram também n’é? Hárárára! encontrei alguém que vale a pena.
— Legal cara — "Tales e Fernanda! que coisa diferente este ficar, a vida tem caminhos curiosos... quê? mai’que-merda-de-conclusão-cara!"
— E aí maluco? — "a comédia, hárárára! último ato" — encheu a cara, coisa assim, e voltou embora depois?
Mondrian dá um sorrisinho, olha para o lado, "agor’eu-mostr’o-zap!"
— O Luis se saiu bem com a amiga da Fê, a Lilian sabe n’é? fico’ com ela. O viadão do Tá-Certo só não cato’ a outra, a turca fanha, por que não quis.
Mondrian, ainda sorrindo, olha para Tales.
— Acho que ele queria ter ficado com o Luis! Ah!ah!ah!
— Hárárára! Pode crê’! Pode crê’ maluco!
Tales nota algo diferente no rosto de Mondrian, "rendeu ainda?" — Como é maluco? Vai me contar ou não?
— Lembra-se quando a gente passou pelo posto da esquina da Virgílio, que tinha um Corsa vermelho lá e umas moças do lado dele?
— Ach’ que sim cara — "Corsa? no posto?"
— Melhor!Melhor! Lembra-se do Sacyzinho, daquela mesa ao nosso lado, quase no final, sentaram-se umas moças, lembra-se?
— Hum! sei! umas loira’ cu doce — "o cara ‘tá zoando comigo!"
— Lembra-se da loirona peituda...
— Hárárára! ‘cê ‘tá zoando comigo maluco!
— Não‘tô-cara! eu-juro! juro! lembra-da-loira-qu’eu‘tô-falando?! de blusa verde e saia?
— Hã, sei, sei, a de saia, altona... — "ele vai tira’ uma da minha cara" — ‘cê ficou com aquela cavalona cara?
Mondrian, cheio de satisfação, concorda com um movimento de cabeça — fiquei cara! — sorri.
"Ele ‘tá zoando comigo..." — ‘cê ‘tá zoando comigo cara — "como é o nome dela?" — ela é muita areia p’r’o seu caminhãozinho cara!
— Ah!ah!ah! fiz duas viagens cara!
— Como é o nome dela? Eu sei quem é! aquela gostosa! — Tales olha para o Tempra, estala os dedos — como é mesmo?
— Silvana.
Tales olha para Mondrian — Isso! Silvana!
"Sí... vou falar que comi ela! mas ainda falta o final da história".
Tales mexe a cabeça em negativa — Silvana! Que largo! — olha para Mondrian — seu viado! — "hã?!" — espera aí maluco!
Mondrian franze a testa, "que foi?"
— ‘cê inventou tudo isso cara! Hárárára!
— Inventei?
— Quando eu, eu e a Fê, fomos embora — "sem a carniça daquela amiga doida dela" — depois de procurar você e não achar, vi a Silvana — Mondrian sentiu um choque — discutindo com um altão assim ó — ergueu o braço — perto da saída, ela ‘tava meio que chorando sabe?
Por alguns segundos, Mondrian fica sem reação, "lá vai o menino levando meu cachorrinho de brinquedo... e eu não posso fazer nada", suspira, Tales percebe, "rolou algum lance entre eles", Mondrian mexe a boca para o lado, "melhor eu abri’ o jogo" — é cara, eu dei uns beijos nela — engole seco — uns cato’, daí ela empurrou-me, sem-mais-nem-menos, pediu desculpas, disse que não ‘tava legal, que tinha bebido p’ra esquecer o namorado, esse viadão aí... o tal de Cris, não-sabia-qu’ele’tava-lá...
— Verdade meu? Acho que ela quebrou o pau com ele.
—To-toda’quela-satisfação’quela’ntensidade-qu’eu-senti era-sob-um-engano! que-merda-cara!
— A gente saiu e eles continuaram brigando, ‘tava todo mundo olhando — Mondrian começa a se incomodar com a conversa de Tales, "parece que tem prazer em contar-me essas coisas" — ele largou ela sozinha lá, a gente viu o cara passar por nós, daí nós ouvimos: "Filho-da-puuutaa!", hará! foi até engraçado o barraco! todo mundo ficou assim — ele arregala os olhos e mexe a cabeça — que foi? que foi?
Mondrian irrita-se com aquilo, "chega-disso-porra!", mas não sentia vontade de reagir, "Deus dá asa p’ra quem não sabe voar, como diria o tio How, um mulherão daqueles sendo dispensada assim... e-eu’qui-sozinho, doido-p’ra’rruma’ ma-namorada’ssim!", olha para Tales, ele continua falando, "e’sse-maldito-judeu-tagarelando", procura forças para reagir, "chééé cara!", suspira, "o-namorado-ex-namorado-dela ‘stava lá, ela chapo’o-caneco, fico’comigo-p’ra’faze’ciúme-p’r’ele...", sente frio.
"Foda hein cara?" — e hoje maluco? domingão! — sorri enquanto esfrega as mãos, Mondrian observa o sorriso de bêbado do Tales — vou sair com a Fê, acho que tem uma amiga dela que está sozinha, trep, quer dizer, topa?!
Mondrian franze a testa — quem?
— Uma tal de Helô! Hárárára!
Mondrian sorri, tenta rir, mas apenas saem alguns soluços — ela que vá à merda!
Tales percebe o aborrecimento de Mondrian, muda de assunto, fala de outras coisas, outras mulheres, mas não adianta.
— Acho que vou ficar lendo Os Sertões hoje — "chééé... nem p’ra isso tenho ânimo...", Tales entende o recado, não há o que fazer.
— Beleza então maluco, depois você me conta do livro, quero lê-lo também.
Despediram-se. Tales entra no carro, dalí observa Mondrian entrar em casa, dá a partida e sai com o carro.
Mondrian volta para o quarto, "de volta à prisão", coloca o CD de música barroca e deita-se. Enquanto observa a pouca luz do dia acabar relembra o que aconteceu no sábado à noite, desde o momento em que viu a Sí no posto, sua consciência se perde no meio de conjecturas, "em vão! nenhuma conclusão... zica-cara!zica-total!", o calor da cama estimula sua imaginação, através da música ele busca lugares mais aprazíveis, "uma igreja, catedral, escura como a igreja matriz de Tatuí, perdida num canto da França, de Paris! em algum ano do final do século XIX, da Bélle Époque, lá está Mondrian, o dândi..."

Capítulo 039

Aquele som que vinha do fundo, e do qual Mondrian tinha uma vaga consciência, mais longe do que a sucessão de fatos em sua mente, por fim ele reconhece ser o vento persistente na janela do quarto; ele inspira profundamente, "put’vontad’de-mija’", abre os olhos, "que-sede", de sua cama, observa a pouca luz que entra pelas venezianas semi-abertas, ergue a cabeça, sente melancolia, "parece que não é um daqueles domingos límpidos", lembra-se vagamente destes domingos, olha para o despertador, "nossa, já?", são mais de 10 e meia, fecha os olhos, ergue as sobrancelhas, "daqueles em que a gente acordava cedo p’ra ir à missa das crianças com a ‘vó", lembra-se da nave da catedral de Nossa Senhora dos Prazeres iluminada pela luz da manhã, "eles parecem tão perfeitos, tão iluminados... que saudade", pensa ser este sentimento um arrependimento por tanto tempo longe da igreja, "desde que achei a imagem de Cristo cruxificado cruel demais para ser exposta numa igreja", mas abandona a idéia; em sua memória, ele continua a contemplar a nave iluminada da igreja, "que paz", estica o corpo, ao ouvir Stella e Olga falarem longe suas lembranças tornam-se confusas, "já estão mexendo com a comida", o som da TV ligada, "as meninas já acordaram", um caminhão que passa na Raposo Tavares; aos poucos ele percebe o turbilhão de pensamentos e sentimentos desagradáveis em sua mente. Afasta os cobertores.
— Puta merda cara... — sente-se fracassado, "pior! humilhado", lembra-se de uma passagem ou outra da noite anterior, tenta juntá-las, entender o que aconteceu, "como tudo começou?", além dos contornos do pesadelo, "dessa mancha escura...", só encontra tristeza, não consegue chegar a lugar algum, "não quero...", suspira, "sinto-me feito Atlas: sustentando o mundo nas costas", senta-se na cama, sente a boca seca, percebe que encontrou um álibi que justifique o mal-estar que o oprime, "ach’que-bebi-demais", olha para o chão, "preciso maneirar na bebida cara", coloca os pés nos chinelos, "chope com menta é forte mesmo", não se sente bem para completar o pensamento com um elogio à bebida, levanta-se, caminha até a janela, abre mais a veneziana superior e olha através dela, "o tempo voltou a ficar nublado... as pessoas evitam sair das casas em dias assim, fazer o quê na rua nesse frio?", concorda com um movimento de cabeça, olha para a casa do seu Aníbal, a janela da sala de jantar está fechada, "apenas carros e este ventinho chato nas ruas, a Virgílio deve estar vazia", fecha os olhos e boceja, abre-os, observa a paisagem, "tempinho bom p’ra ficar em casa, assistindo a um filme... não-peguei-nenhum-film’ontem... será que as meninas pegaram?", olha para a cama, "bem, se não tiver nada, posso ficar dormindo". Sente a bexiga cheia, "dá’ma-mijada", caminha em direção à porta, abre-a.
— Nossa! que ar frio — caminha até o banheiro, "no quarto ‘tá tão quentinho", entra e fecha a porta, olha-se no espelho, "merda de cabelo", pára diante do vaso sanitário, tira o pau para fora, "ui!vai!vai!", aponta-o e começa a urinar — que alívio cara — olha para o vaso, o jato de urina faz espuma na água, "urina sem cor... teve uma época que eu achava que aquela urina amarela era sinal de saúde... ah!ah! que merda!", sente a bexiga esvaziar-se, "aquela morena era muito gostosa cara! tinh’um-fogo!", olha para seu pau urinando, "mas a loira era mais cavala... puta-mulher-gostosa!", olha novamente para seu pau, "nada... e tem cara que dispensa um mulherão daqueles! O tal de... Cris? Alex! Alex! deve ser um viadão!", olha para o seu reflexo nos azulejos, "hoje’u’tô-mal-cara! é! Deus-dá’sa-p’ra-quem-não-sabe-voa’!", vira-se para as toalhas de banho sobre o box, "mais um domingo sozinho, n’amargura!", no bidê há roupas amontoadas de suas irmãs, "que zona cara". Termina de urinar, guarda o pau, vira-se para o lavatório, pega o sabonete, "largaram ele na água, olha-só! ‘tá se desfazendo... são aquelas meninas relaxadas!", abre a torneira, "água fria!", ensaboa as mãos sob o jato de água, "o quarto delas é uma zona! eu, que sou homem, sou muito mais organizado", enxágua as mãos, lava o rosto, fecha a torneira, pega uma toalha de rosto, "deixaram úmida, ‘tá-cheiran’o-cachorro-molhado", enxuga o rosto e as mãos, no espelho, vê seu rosto vermelho devido à água, "um café bem quentinho, co’esse frio, vai bem cara", estende a toalha no lugar, caminha para a porta, abre-a, segue até a escada e desce. Ele observa a pouca luz que há nas escadas, chega à porta da sala-de-estar, iluminada pela TV. Ingrid e Rebeca assistem a um seriado americano, "enlatado", não percebem que Mondrian está parado à porta, "como a Rebeca dorme! ela está cochilando no sofá!", ele se vira para a janela do corredor que dá para o quintal, "parece aquelas paisagens do tempo em que só havia foto em preto-e-branco", observa que as plantas são balançadas pelo vento, "eu sei que aquele mundo das fotos em preto e branco não era assim, era tão colorido quanto nossos dias, co’exceção-d’hoje! Mas através das fotos acabamos por imaginar um mundo sem cor", volta-se para o corredor e caminha em direção à cozinha, "sede cara!vontad’de-toma’uns-três-copão’d’água! mas daí minha mãe vai perguntar o porquê de tanta sede assim", ele olha a porta aberta do banheiro, entra, ao ver a pouca luz que há no banheiro ele acende a luz, "vo’scova’os-dente-p’ra-não-chega’com-bafão-de-cerveja-perto-da-minh’mãe"; ele sai do banheiro sentindo o gosto de creme dental na boca, ouve Natan pigarrear na biblioteca, "o pai deve ‘tá lendo jornal...", ao passar diante da porta fechada, ouve um solo de piano, "parece Mozart, ainda não consigo entender esses solos de piano, parecem tão monótonos, uma constante, eles combinam com dias assim", olha para a sala de jantar iluminada, "Chopin teve a idéia de seus noturnos ao ouvir a chuva sobre o telhado", chega à cozinha, Olga está ao lado do fogão, atrás das panelas e do vapor, "por isso que a cozinha está quente!", colocando o macarrão na água quente, Stella está sentada à mesa, cortando beterrabas em fatias, "o Natan gosta de salada". Sobre a mesa, restos do jantar, "só borda seca de pizza, aposto que não deixaram nenhum pedaço p’ra mim", um saco de pães e a garrafa térmica de café.
— O madrugado’ apareceu! — diz Olga e sorri, Mondrian aproxima-se da avó e beija-lhe a face — ele chego’ era quase de manhã Stella!
— Bom dia filho querido! — ele se vira e beija o rosto de Stella — é verdade isso Mondrian? Falei agora para sua avó que logo tinha que chamar você.
— A‘vó‘ta’xagerando-mã’! — ele pega um copo do armário e vai até a tália — a ‘vó abre os olhos meio dormindo, olha para o relógio e acha que já é hora de levantar — coloca o copo sob a torneira e abre-a.
— Não é isso não! Eu vi que eram... 3, 3 ou 4 horas!
— ah!ah!ah! Viu! Cheguei ach’ que eram... — "ih!não-lembro-cara!" — 2 e meia, por aí.
Stella não dá mais atenção ao caso, "mamãe exagera as coisas", olha para a beterraba e continua a cortá-la.
— Mesmo assim é tarde, hoje fez muito frio! Dormi com três cobertores esta noite! Pode ficar resfriado andando nesse frio... — ela observa Mondrian tomar água.
Mondrian deixa o copo na pia, ouve Pirata latir.
— É só dormir bem agasalhado que não fica resfriado mã’ — ele caminha em direção à geladeira — e este pijama de flanela é muito bom nesta época.
Stella vê-o tirar a leiteira da geladeira.
— Você vai tomar café? Mas logo fica pronto o almoço Mondrian.
— Vô’ toma’ só uma xícara de café com leite mã’ —enquanto fala, ele caminha até o armário, abre o compartimento da direita — a propósito, o que tem de almoço hoje? — pega uma xícara e um pires — "Não estou com tanta fome p’ra..."
— Macarrão, filé de frango à parmegiana e salada.
Mondrian olha para Stella— Hoje capricharam hein?
Ele coloca leite na xícara, depois coloca o leite da xícara numa caneca, leva-a ao fogão — dá um espaço aí ‘vó.
— Use aquele ali — ela aponta para uma das boca de trás, Mondrian acende o fogo, coloca a caneca sobre ele, sente o calor que vem do fogão, olha para o forno.
— É o filé à parmegiana que ‘tá no forno ‘vó?
— É sim Mondrian, e daqui a pouco vai ficar pronto!
Ele apoia a mão na pia, observa a luz fraca que entra pela janela, sente ainda o turbilhão de sensações em sua mente, "sinto-me tão sem graça, que nem esta luz".
— Lá na Alemanha fazia frio assim ‘vó?
— Ih! Pelo que minha mãe contava isto é fichinha perto do frio de lá!
"O leite dele vai ferver já-já!" — O leite vai ferver Mondrian.
"Hã?", Ele olha para o canecão e apaga o fogo, leva o canecão até a mesa, "‘tá fumegando!", despeja o leite na caneca, coloca a caneca sobre um descanso de madeira sobre a mesa, senta-se diante da mãe, pega a garrafa de café, abre-a e coloca café no leite.
— Onde você foi ontem? — Stella pergunta.
— Ao Sacyzinho e depois à Bullu’s — ele sorve o primeiro gole, "delícia!"
— Com o Tales?
— Han-hã.
— Ele ‘tá fazendo faculdade?
— ‘tá fazendo letras na PUC, em São Paulo.
— É uma faculdade cara não é?
— Não é das mais baratas... é mais cara que a FAAP — sorve outro gole.
— O seu Aníbal que falou outro dia p’r’o seu pai.
Mondrian não responde, observa as coisas sobre a mesa, "lembro-me que comi filé de frango à parmegiana lá na casa do Sapo, em São Paulo, uma vez... era só mesmo comida qu’eu comia lá em São Paulo..."
— Por que ele quis fazer lá a faculdade hein?
Mondrian não dá atenção, "ainda não tinha esquecido a Holandezinha, lembro-me que escrevi em meu diário: o carro já não anda mais....", sob o turbilhão de sensações em sua mente começa a ouvir um solo de piano. Toma outro gole de café com leite, "já está esfriando", olha para a xícara, tem pouco menos da metade, olha para a mãe.
— Não sei mã’, ele passou lá... — ele termina de tomar o café com leite, levanta-se da mesa com a xícara, caminha até a pia, coloca a xícara sob a torneira, abre-a e enche-a de água.
— Daqui a pouco vou chamar para o almoço Mondrian, seu pai daqui a pouco vai querer almoçar.
— ‘tá bom mã’ — ele suspira e sai da cozinha, "vô’pega’o-caderno-2-do’stadão... não! depois! meu-pai-vai-começa’co’aquelas-pergunta-dele", caminha pelo corredor, sobe as escadas pensando no solo de piano, volta ao quarto, sente o gosto de café com leite na boca, "aquela amiga da Fê deve ser lo’ca mesmo, de-repente-viro’quebra’o-pau-comigo!", ele mexe a cabeça em negativa, vai até o guarda-roupa, "e-a-loira?A-loiraça-cavalona?!", em sua mente ele vê o rosto da moça antes de beijá-la, "eu-fiquei-mesmo-co’ela?", lembra-se nitidamente de tê-la tido em seus braços, sorri, "não’tava-tão-bêbado’ssim!", de tê-la beijado, "fiquei-mesmo-cara!Que-gata-qu’eu-catei!‘spera’quele-maldito-judeu-saber!", olha para a janela, seu sorriso se desfaz, "até ela empurrar-me e dizer: ‘meu namorado terminou comigo’!", olha para o guarda-roupa, abre uma das portas, "depois...", tira uma calça de agasalho azul-marinho, "depois’la-veio-co’quele-papo-tentan’o-se-desculpa’por-não-quere’mais-fica’comigo... daí-eu-percebi-que-tinh’tomado-no-cu". Sua mente fica absorta nesta frustração, "é-zica-demais-p’r’uma-noite!", tira a calça do pijama e a joga na cama, sobre as cobertas desarrumadas, lembra-se da Silvana caminhando pelo posto, "‘queles-peito’quelas-coxa’grossa...", seu desejo vai de encontro à frustração, "merda-cara!", caminha pelo quarto, "seu nome será gravado numa lápide, como num cemitério, cemitério-preto-e-branco! e será soprada pelo vento dos séculos até o esquecimento! Eis Lilith!", sente um ímpeto de melancolia, "sozinho de novo", abaixa a cabeça, continua a andar em círculos pelo quarto, lembra-se do solo de piano — como dói cara! — sente vontade de chorar, "e não é veleidade... mas não há lágrimas", pára, olha para a cama, "ela era um ideal de mulher materializado!", concorda com um movimento de cabeça, "eu chapado, depois do quebra-pau co’a lo’ca-lá, delirei cara! delirei!", tenta descobrir onde começa o delírio, "eu vi a Sí no posto... depois no Sacyzinho... a-calcinha!eu-vi-a-calcinha-dela!", do turbilhão de sensações em sua mente emerge a lembrança de um gemido que Heloísa dera em sua orelha, no Tempra, "nossa-cara!", sente uma pressão no meio das pernas, a lembrança da boca quente da moça, "que boca cara!’magine’ma-boquete-cara!que-nem’quelas-de-filme-pornô!que-passa’língua-bem-devagarinho-na-cabeça-do-pau!", sente uma ereção começar, "ela-deixav’eu-pega’nas-teta’dela-cara!", ele ergue o blusão do pijama e olha para seu pau sob a cueca, "ela-deixo’eu’nfia’o-dedo-no-rego-dela-cara!", fecha os olhos, pressiona os dentes uns contra outros, "e’nfim-você-Sí!!!", lembra-se dela dançando, deixando ver as coxas, "precis’toc’uma!", ele sai depressa do quarto, vai ao banheiro, tranca-se nele, abaixa a cueca e senta no assento do vaso sanitário, "Síííí!!!ques-coxa!", pega no pau e começa a fazer movimentos rápidos, "ques-teta’!lo’ca-p’ra-da’!tira!tira-a-calcinha!", ele inspira e prende a respiração, "ela’briu-as-perna’cara!bucetinha-loira!", acelera os movimentos, "eu-quero-Sí!eu-quero!fode’você!fode’você-bem-gostoso!deixo’por-tudo!geme!geme-sua-puta!você-é-demais-Sí!’güent’um-na-frent’e-o’tro’trás!" Mondrian se ergue do assento, "vô’goza’dentro!sem-camisinha-Sí!!!!Ai!’ss’é-muito-bom-cara!", ela responde "goza’ntão!goza-muito!", ele sente o jato subir pelo canal da uretra, segura-o, "Sí!!!", até a sensação de "quase-lá" se espalhar pelo corpo, então ele goza, põe a mão na boca para não escapar nenhum gemido, "arrebent’o-pau!", goza mais, sua frustração muta-se em ódio, "morte-a’stas-vagabundas-todas!", consome-se em vingança, "em fogo!", ele imagina Roma queimando, "ah!ah!ah! Qualis artifex pereo!", da consumação da vingança extrai nuances bizarras de prazer, o delírio dissipa-se sobre o turbilhão de sensações em sua mente, "não foi tão bom assim...", ele senta-se no assento, de olhos fechados, mas percebendo a luz laranja que atravessa suas pálpebras, "uma gozada rápida, breve ante o arder de meus desejos", abre os olhos, vê a luz fraca que vem da janela, "ela beijou-me e deu o fora, desapareceu no meio das pessoas", suspira, sente-se abandonado, perdido, olha ao redor para ver se não pingou nada, puxa o papel higiênico e limpa as mãos, "estou na merda de novo!", faz uma bolota de papel e joga-a no lixo, pedaços de papel ficam grudados em sua mão, ele levanta-se, ergue a cueca, lava as mãos no lavatório, sente um pouco de arrependimento, "como no tempo em que achava que bater punheta era pecado", fecha a torneira, enxuga as mãos e volta ao quarto. Logo Stella o chama para o almoço.

Capítulo 038

Mondrian anda entre as pessoas dançando, "puta-merda-cara!puta-merda! eu-devia’nche-a-cara-e-i’mbora!", ele observa, entre as pessoas dançando, o chão iluminado, "a luz no meio da escuridão... legal-isso", ouve um alegretto na dance, "não!não!nunca-bebi-p’ra’squece’ma-frustração-cara!", observa uns caras dançando feito doidos, "eh!eh!não’tão-nem-aí!vo’faze’que-nem-eles", começa a mexer o corpo, "eu-quero-que’cê-se-foda-Heloísa!", sorri ao perceber que ainda tem disposição suficiente para aproveitar a noite, olha para outro lado, "quero-cata’ma-mina-cara!" Entre os vultos se mexendo ele percebe uma figura clara que avança através da massa dançante, "opa!é-loira!", ela sai do meio dos vultos, "cara! não’credito!!!", a loira percebe que Mondrian a observa, "conheço ele de algum lugar, quem é?", Mondrian continua olhando para ela, não consegue esconder a admiração, "caaaraaa!!!É-é-a-Sí!!!", ela desvia o olhar; atrás dela surgem Paula-ou-Patrícia, Flá, Má e Jú, pulando, rindo e cochichando uma na orelha da outra, "ach’que’stão-toda’chapada’!", elas formam uma roda, ao fundo, as luzes revelam mais uma vez as pessoas dançando na massa escura que se move e ocupa a pista irregularmente, "e’ste-grupo!Sí-e-suas’amigas!", Flá, "a-nojentinha-parec’tão’mpetuosa’gora!", ela aponta alguma coisa para Sí e fala-lhe ao ouvido, "ela gesticula muito", Sí concorda com um movimento de cabeça, elas começam a dançar sob a a pauleira do 2 Unlimited. Um copo de bebida passa de mão em mão até chegar à Sí, ela toma quase a metade do copo numa vez só, Mondrian a observa, "vai-fica’chapadinha-já-já!", Sí faz uma careta e depois entrega o copo à Má. Ela sorri, joga os cabelos para trás, empina os seios e olha para Mondrian, "quem é ele?"; as amigas insistem para dançar no meio da roda — vai Sí! que nem aquele dia no Tro-lo-ló! —, diz Jú; a loira chama a atenção quando atende ao pedido, sob ovação das amigas. Os cabelos loiros se mexendo, a alta estatura, os grandes seios, as coxas grossas e brancas à mostra e os movimentos sensuais dela despertam a atenção dos homens ao redor, Mondrian continua a observá-la, "que-cavala-cara!ela-parec’quelas-atriz’pornô-que’güentam-um-na-frent’e-o’tro’trás!oh-yeah!fuck!yeah!fuck! noooss’! daquelas-que-deixa-faze’tudo!", ele fecha os olhos, sua mente se esvazia, "é-o-Nirvana", deixando apenas a consciência da contemplação e a suposição, ignorada de momento, de que o tempo está distorcido, "‘tô-viajando-lo’co!lo’co!cara!", fita-lhe o quadril se mexendo, "um-fodendo-na-frente...", as pernas brancas e bem torneadas, "o’tro-fodendo-atrás", sente o sangue ferver e uma nova ereção começar, "tô’de-pau-duro!", Sí olha novamente para Mondrian como se tivesse adivinhado o pensamento dele, "cara!ela-continua-olhando-p’ra-mim! Será-qu’ela’tá-a-fim-de-mim-cara?! uma-cavala-dessa’?!nã’viaja!nã’viaja!é-muita’reia-p’r’o-meu-caminhãozinho!", ela continua olhando para ele, "não-tem-problema!faz-duas-viage’! será-que-chego’minha-vez-cara?!", vira-se para o lado e dá uma gargalhada, "não’credito-cara!ach’que’tô’lo’co-de-chapado!foi-o-chop’co’menta!", volta-se para a moça e flagra-lhe um olhar para ele, "hoje-não-vale-tudo?’ntão!qu’eu-tenh’a-perde’?!", um dedilhado sobre a percussão, a luz azul é substituída pela luz vermelha, Má acompanha um dos olhares da Sí para Mondrian e reconhece-o, "ah! o moço que ‘tava contando piada no Sacyzinho!", ela observa a moça olhar para ele novamente, Sí dobra os joelhos lentamente, abre as pernas, sente a saia subir, coloca uma mão em cada coxa, desliza as mãos sensualmente para a cintura, as outras ovacionam-na, no batidão da pista, Mondrian apenas vê-as sorrindo, olhando umas para as outras e fazendo movimentos com a boca. Com um olhar, Má indica para Paula-ou-Patrícia Mondrian.
— É o rapaz do Sacyzinho — diz Má — o que estava contando piadas.
Paula-ou-Patrícia concorda com um movimento de cabeça.
— A Sí estava olhando para ele.
Sí sai do meio da roda, Jú avança para o lugar dela, as outras ovacionam Jú enquanto estendem os braços para ela, trocam comentários e gargalhadas, começa a luz intermitente, sob esta, dá-se a impressão que de um único braço faz aquele movimento dentro da roda. Sí vira-se para Mondrian, "lembrei! é o moço que viu minha calcinha, que vergonha! no Sacyzinho", ele olha para os lados, "nenhum-cara’qui... só-eu", vendo aquele olhar interminável da loira para ele, "vertigine!", Mondrian perde todo o senso de realidade, "um-mulherão-deste’", ela continua a olhar para ele; Mondrian percebe que, para abordá-la, só depende de uma iniciativa dele, "tremedeira-cara!", sente isto de tal maneira que não consegue formular em pensamento, "inefável... mai’umavez-contemplando-todo’quele-azul-líquido-da-piscina-do-clube’ntes-de-pula’da-plataforma", ela tenta sorrir-lhe, Mondrian se lança, "caaaraa!!!atiro-me-da-plata’!", sorri para ela, ""ou-vai-ou-racha!um-fora’mais-ou-a-menos-tanto-faz!"
À sua mente vem uma passagem de Dança com Lobos, onde o tenente John Dunbar cavalga, desarmado e de braços abertos, "ao-encontro-do-ignoto!", diante do fogo inimigo, fumaça, acende-apaga, Mondrian se vê, "de-bigod’e-cabelo-liso-cara!", no lugar de John Dunbar, ele fecha os olhos por um momento, "Tumanitutanka-oatshee!", Mondrian se aproxima da Sí, ele percebe que outros caras também se aproximam do grupo, "ó-os-gavião’se’proximando! gavião?! cada-ba’xad’um-pinto?!ah!ah!ah!", elas são abordadas de vários lados, trocam olhares de aprovação entre si e permitem que eles participem da roda, Mondrian fica ao lado da Sí.
Sí olha o rosto de Mondrian — Oi — sorri-lhe.
"Uau-cara!" — Oi! — "qu’eu-falo-p’r’ela?!"
— Voc... — ainda sorrindo, Sí olha para o outro lado da roda, Mondrian acompanha seu olhar, "agora não posso errar", um dos caras que entraram na roda, "conheç’ele-de-vista!Ronaldo!sempre-rindo-simpático-com-todo-mundo", propõem algo, gesticulando para ser entendido, ele sorri e vai para o meio da roda, chacoalha-se de um modo tão bizarro, acrescente-se as caretas feitas, que fez as moças rirem muito, "é-cara!ele-confia-nos-olhos-azuis-dele!", um rodopio e ele, ouvindo a dance, "seventies again!", começa a imitar o John Travolta, "eh!eh! saturday night fever!", outro rodopio, "caralho!ond’ele’prendeu-dança’ssim?!", por fim elas aplaudem-no, "elas gostaram!", Mondrian também, "se’le-pod’eu-tam’ém-posso!", Ronaldo demonstra estar interessado em Paula-ou-Patrícia pois aproxima-se desta e fala-lhe alguma coisa ao ouvido; Má, "pronta-p’r’Expo-Agro", estava distraída e empurram-na para o meio da roda, ela inventa alguma dança exótica e ri muito, volta ao seu lugar, depois dela vai outro cara, "cusão’sse-aí!", ele balança os ombros, faz caretas, dá uma gargalhada, desiste, insiste em tentar dançar algo diferente mas desiste, Flá substitui-o, Mondrian ergue o braço simulando que gira um laço em sua mão — uuhhh!façam-suas-apostas-qu’o-jogo-começo’! — "opa-cara!", Sí vê-o fazendo o gesto e dá uma gargalhada, ele ri também, "ela não é cu doce como achei", Ronaldo aponta para Mondrian — é isso aí cara! é isso aí cara! —, Mondrian faz um sinal de jóia para ele; a próxima à direita de Mondrian, Jú, vai para o meio da roda, ela simula uma dança egípcia, ergue os braços, dobra os cotovelos, os pulsos, "ah!ah!ah!baixo’a-Cleópatra-nela!", mexe a cabeça na horizontal, Sí estica os braços e começa a mexer os ombros, Mondrian faz o mesmo, outra também, logo todos na roda estão fazendo "ola!", Sí sorri ao ver esse movimento, olha para cima, fachos azuis e vermelhos surgem do teto, Jú, rindo muito, volta para a roda — minha vez! — diz Mondrian, ele vai para o meio da roda, "vamo’ve’quem-é-mai’lo’co!", com o indicador direito erguido, de repente ele abaixa-se no meio da roda, apoia uma mão no chão, "danças-russas!", ergue o outro braço, estica uma perna, "balalaika!", troca de mão, estica outra perna, gira em sentido horário, as moças aplaudem-no, "up’!não’credito-cara!up’!minha-dança-uf!fora-de-forma! deu-certo!uf’!uf’!", ele vê que começa a luz intermitente, Sí estica os braços novamente, suas amigas fazem o mesmo, elas fazem outra "ola", Mondrian fecha os olhos, ergue o rosto, dá uma gargalhada, "uf’!é-a-glóriaaa!uf’!" — É isso aí cara! bota p’ra quebrar! — diz Ronaldo, ele olha para Paula-ou-Patrícia — o cara é bom! ele é bom! — Mondrian troca de mão novamente, gira noutro sentido, num pulo, "vertigine!", ele joga o corpo para cima e se levanta, as moças olham-no admiradas — já vi isso num filme! — diz Paula-ou-Patrícia; Sí, rindo da dança de Mondrian, é empurrada para os braços dele, Mondrian segura-a pelos braços, "caaar’!", seus rostos ficam muito próximos — ah!ah!ah! eu não consigo! — ele sente o hálito dela, "era-tudo-qu’eu-queria!tê-l’em-meus-braços!", ele fica sem ação — ah... — ela percebe que ele a segura demais, "f...?" — tenta qualquer coisa! — ela solta-se dos braços dele, Sí tenta dançar de forma cômica, pára para rir, as amigas insistem para ela dançar, ela tenta, não consegue e volta para a roda — dançou bem! dançou bem! ah!ah!ah! — disse-lhe Mondrian, — onde você aprendeu aquilo? — "ah!ah! ele é divertido mesmo! conta piada e dança daquele jeito... f...?", Mondrian sorri-lhe, "puta-cara!ela’tá-me-deixando-lo’co-esfregando’ssim-em-mim!" — acho que na TV — inspira — não sei mais — sorri-lhe, "hoj’é-meu-dia-cara!" — eu não consegui dançar nada! ah!ah! — "f...?", enquanto fala, Mondrian admira cada detalhe que encontra nela, "meeeuuu!!!é-muito-gata’ssa-mina!!!", ele vira o rosto, aproxima-se da orelha direita dela, "que cabelo cheiroso!" — foi você que’u vi lá no posto da Virgílio? — ela aproxima-se da orelha dele, "f...?", responde alguma coisa, Mondrian observa-a com o canto dos olhos, "cara!ach’que-nunca’stive’tão-próxim’do-paraíso!", fecha os olhos, Sí percebe que ele fechou os olhos, afasta-se, "f...?", Mondrian abre os olhos — quêêêê?! — "f...?", ela ri daquilo, Mondrian, pouco à vontade, ri também, "que vergonha cara!", tenta disfarçar olhando para Ronaldo, este se apresenta a Paula-ou-Patrícia, Sí, ainda rindo, continua a olhar para ele, "f...? ele é o oposto daquele grosso! que ódio! mas eu jurei p’ra mim mesma que iria esquê-lo hoje! já sofri demais na mão daquele galinha-filho-da-puta!", Mondrian vira-se lentamente para Sí, por um momento, suas bocas ficam frente a frente, ela olha para a boca de Mondrian, ele pisca, aproxima-se do rosto dela, "f...? f...?!", roça-lhe os cabelos loiros, "que-cabelo’cheiroso!E-os-peitão’dela-cara!uuuhhh!!!’tão’ncostado’m-mim!" — como é o seu nome? — ele se afasta, ela aproxima a boca da orelha direita dele — Silvana, e o seu? — Mondrian aproxima-se da orelha dela, a ponta do nariz dele enconsta na orelha dela — Mondrian... — mal ele termina de pronunciar o nome ela beija-lhe o rosto, "f...?", — prazer! — "ela-beija’bem-perto-da-minha-boca", ele a beija no rosto, próximo à maçã do rosto, "poss’senti’a-saliva-dela-na-minh’pele!", outro beijo, "f...?", ele a beija mais próximo da boca, ela beija-o no canto da boca, "f...?" — três p’ra casar! — "que-simpatia-cara!totalmente-diferente-daquela-vaca’mburrada!" Ronaldo propõem outra dança, pega na cintura da Paula-ou-Patrícia, por trás, e empurra-a, Má, rindo, segura na cintura do Ronaldo, todo mundo pra lá, "trenzinho!", Silvana pega na cintura de Mondrian, cutuca-o — ah!ah! você tem cócegas! — Mondrian vira-se para ela — pare por favor! — "que-sorris’lindo!nã’é-p’ra-se’paixona’cara?!", todo mundo pra cá, trenzinho voltando, Mondrian pega na cintura da Silvana, cutuca-a — e você? tem?! tem?! — ela faz um movimento brusco para ele soltá-la — pare! pare! ah!ah! — ela encosta as costas no peito de Mondrian, ele, rindo, segura-a pela cintura, coloca a cabeça sobre o ombro direito da moça, entre os cabelos dela, "que-delírio!", fecha os olhos, ela olha para ele, "f...? não faça isto...", olha para a boca dele, volta-se para frente, segura nas mãos dele, "f...?", livra-se. Ronaldo solta Paula-ou-Patrícia, olha para eles, propõem, "esse-cara-é-o-mestre-meu!", que uma dupla dance no meio da roda — vem Paula! — "a-há! o nome dela é Paula!", segura-a pela cintura e começam a dançar, Mondrian vira-se para Silvana, aproxima-se dela — você é daqui mesmo Silvana? — ela vira-se para ele — sim! sim! — "f...? estou ficando confusa, acho que bebi demais..." — você também? pode me chamar de Sí... — Mondrian e Silvana são puxados para o meio da roda — ah!ah! — ela olha ao redor, "foi a Pá! foi idéia dela empurrar a gente p’r’o meio da roda!", volta-se para Mondrian — eu não sei dançar essa música! — rindo, Mondrian olha para ela — Sí!faç’o-qu’eu-fize’! — ele ergue os braços, "hoj’é-meu-dia-cara!", começa a fazer a dança egípcia — assim não vale! tem que ser juntinho! — disse Jú, mas eles continuam dançando entre gargalhadas, tentativas, "não-dá-p’ra-faze’palhaçada-c’um-corpão-dess’!", mais risos e mais tentativas, Silvana está de braços abertos, erguidos, Mondrian olha para o rosto dela, ao fim de uma gargalhada Sí, "quanto tempo não saía com as meninas! quanto tempo que não me divertia assim...", olha para ele, "com um cara tão legal", Mondrian percebe o olhar diferente dela, "ele entedeu!", a moça volta-se para o lado, Mondrian olha os seios dela, "noss’cara!olh’o-tamanho-das-teta’dela!", ela volta-se para Mondrian, abaixa os braços — ai! desisto! — "num’güento-cara!", ele segura-a pelos ombros e balança-a — mais um pouco Sí! — os seios dela pulam de um lado e outro sob o olhar atônito dela, as amigas riem daquilo, Ronaldo também, "olha o cara!", Silvana agarra Mondrian, que também ria, pelos braços — pare Mondrian! — mas acaba por soltá-lo enquanto ri, "caaara!ela-que’fica’comigo!olha-com’ela-olha-p’ra-minha-boca!", eles voltam para roda e outra dupla substitui-os. Mondrian segura-a pelo braço e aproxima-se dela — achei que você era de fora — ela olha para ele, "peg’em-mim!roça’ssas-teta’em-mim!’tô-lo’co!lo’cão!" — jura? de onde? — "cada-vez-qu’ela-se-vira’la-mira-minha-boca..." — da Holanda, ou da Dinamarca — sorri-lhe, Silvana gosta da piada, "ah!ah! os homens preferem as loiras!", subitamente puxam Mondrian para o meio da roda com o Ronaldo — vamo’ ver agora! — Ronaldo faz uma cara séria, "iihhh! olhar-de-viado-cara!", abre as pernas e começa a dançar, Mondrian acha aquilo engraçado e acompanha-o, imitando-o. Ele rebola daqui, Mondrian, pouco à vontade, repete, ele põe a mão no chão, gira o corpo, "o-car’é-professo’de-dança!nã’é-possível!", as moças vibram com aquilo, ele estica a perna, Mondrian acompanha, ele requebra, "uf!ond’ele-quer-chega’?!", balança os ombros, repete o movimento que fez a Sí mexer os seios, "ih-cara!ach’qu’ele-nã’mita-só!é-viado-mesm’!", Mondrian deixa-o exibir-se, "vai-pavão!poderosa!" — olha a cara do Mondrian! — Sí e suas amigas continuam rindo, "deix’ele-ganha’o-prêmio-de-boneca-da-noite! Ochirinindaikon", Ronaldo termina a dança com um pulo e cai de pé, "fim-do-martírio!", elas aplaudem e riem, Ronaldo, sorrindo, curva-se aos aplausos, "farra-total-cara!", ele cumprimenta Mondrian — cara! como é o seu nome? — Mondrian. Você é o Ronaldo n’é? — Isso! valeu Mondrian! — Ronaldo aponta para Paula e fala-lhe alguma coisa rindo; Mondrian olha para Silvana, "que-gata-cara!gata-me’mo!", enquanto volta para a roda, ela esconde o riso com a mão enquanto observa-o, "f... mereço um cara legal" — Sí — ele inspira, "que vá!"— vamos ali no bar pega’ uma cerveja? ‘tô morrendo de sede — ela olha para ele — aaa... — "já?!" — vai você! não vou sair daqui — Mondrian não consegue esconder o desapontamento — ‘tá — involuntariamente caminha em direção ao bar, "qu’eu’tô-fazendo-cara?!", percebe que está tocando Run to me, do Double You, "ach’qu’eu-viajei’chando-qu’uma-deusa-daquela-queria-fica’comigo..."
Heloísa caminha ao redor da pista, "gente! onde está todo mundo?", num lado da pista, entre um vulto e outro, ela vê Tales abraçando e beijando a Fernanda, "hum!’tão no maior amasso!", Heloísa vira-se, "cadê o Mondrian? Onde ele está?", procura-o entre as pessoas dançando na pista, sob a luz amarela que acende e apaga reconhece a Paula, "quê?", e suas amigas, "são aquelas moças da outra mesa lá do Sacyzinho!", ela segue o olhar da Paula e vê a Silvana, "a loira lá!", aborrece-se. Silvana percebera que Mondrian tinha ficado chateado, "até quando vou ficar na fossa? aquele filho-da-puta não merece!", Heloísa continua caminhando ao redor da pista, vê Mondrian indo ao bar, "Mondrian!", ela entra na pista. Silvana torca um olhar com Paula, ela a observava, viu Mondrian afastar-se e deixar a Sí sozinha; Silvana vai atrás de Mondrian, Heloísa caminha em direção a ele, "ai gente! o que eu falo p’ra ele?!", dois caras param para conversar e ficam entre Heloísa e Mondrian, Heloísa pára, "será que ele está bravo ainda?", ela olha para a esquerda, "o quê?!", vê Silvana surgir e puxar Mondrian pela mão, ele olha assustado para Sí, "o que eu faço?", ela está pouco à vontade, Heloísa recua, "que filho-da-puta!", põe a mão na boca, Mondrian observa Silvana — lembrei de onde conheço você, você é o cara do Sacyzinho! — eles ficam em silêncio, "ela veio cara!", um olhando para outro, ela aproxima-se de Mondrian, ele olha para a boca da moça, os olhos verdes dela pousam na boca dele, "acho... quero ficar com você...", Heloísa continua olhando para eles, "não acredito!", Mondrian percebe a indecisão dela, sente um clima de "finalmete" na música, "é-p’ra-mim-cara!" — faz um mortal feliz! — puxa-a pela mão, ela não resiste, ele aproxima-se do rosto dela, ela fecha os olhos, toca-lhe os lábios com a boca, "sim!sim! eu quero ficar com você!", ela abre a boca, Mondrian enfia a língua na boca da loira, ela deixa-se beijar, "que gostoso!", Mondrian segura-a pela cintura, ela passa os braços por trás do pescoço dele, "ques-teta-cara!", Heloísa olha para eles — filho-da-puta! biscateee! — o som alto impede-a de ser ouvida, ela vira-se e afasta-se. Mondrian continua beijando a Sí, "com-toda-fúria!com-todo-desejo!cara!toda!toda-você-Silvana!" — V’c’m’d’x’l’c... — enfia a língua na boca da moça, "‘té-a-garganta!", sente-se viril ao sentí-la nos braços, "um-momento-que-super’toda-minha-vida’nterior!um-divisor-d’água’ste-beijo!", ele solta-a, Sí observa-o enquanto ele fecha e abre os olhos — ach’que’sto’sonhando — ela ri, eles se beijam novamente, com mais força, "você-Silvana-vai-se’minha-namorada!", as mãos dele descem pelas costas dela, param na cintura — Você é muito gata Sí! — sussurra-lhe enquanto a beija, ela enfia a língua na boca dele, Mondrian agarra-a pelos cabelos, "tesão!tesão!tesão!", chupa-lhe o lábio inferior, "que dentes lindos!", percebe que está suado, Silvana está ofegante, "adoro’sse-cheiro-de-boca-cara!", passa a língua nos dentes dela, "chupo’cê’nteirinha!", enfia-lhe a língua na boca, ela agarra-o pelo colarinho da camisa com as duas mãos, "ele ‘tá deu pau duro!", ele beija o rosto da moça, ela passa a língua em volta da boca dele, "ai que gostoso!", enfia a língua na boca, "me esfrega no teu pau gostoso! saudade!", ela solta a boca dele, "saudade?", ela observa Mondrian afastar os cabelos dela, ele chupa a orelha da loira, "aiii... isso é bom demais! Vai! Chupa gostoso!" — Chupa mesmo Alex! — Mondrian solta-a — quê?! — "Alex?!", Silvana segura no rosto de Mondrian e beija-lhe a boca, "ai! ele beija gostoso! Quem nem o...", Mondrian percebe alguma coisa errada, pára de beijá-la — Sí... — Silvana observa-o, eles se agarram novamente, "não!não! Oh meu Deus! Ele aparece de todos os lados! Não consigo esquecê-lo!", ela insiste no beijo, "e se ele me ver aqui?! Vai achar que estou pagando a traição dele com traição!", ela afasta Mondrian subitamente, ele fica olhando para ela, "o-que’conteceu?!" — Que’conteceu-Sí?! — ela olha para o lado, "ela-parece-que’tá-meio-perdida!", a dance continua, ela vê, entre as pessoas que estão dançando, Paula e as outras se divertindo — vo-você está bem?! — "cara!o-qu’eu-fiz?!será-possível!de-novo!duas-vezes-na-mesma-noite!", Sí olha para ele — me desculpe... — "que vergonha! esqueci o nome dele!" — ... — "esqueci! esqueci! — não, não estou legal — "conto p’ra ele?", aos olhos de Mondrian toda aquela beleza, gostosura subitamente acabaram, Silvana está vermelha — Acho que bebi demais... — "nem sei o nome dele!" — não estou bem... — Mondrian aproxima-se da loira — Helô’ps! — olha para o lado, "puta-bosta!" — Sí! va-vamos até o bar, você toma um refrigerante, logo isso passa — Silvana mexe a cabeça em negativa — m-meu namorado... — Mondrian franze as sobrancelhas, "quê?!não’credito-cara!" — meu namorado... ele terminou comigo... — Mondrian, ainda diante dela, abaixa a cabeça, olha para o lado, "ela’tava-me-usando-p’ra’squece’o-o’tro!que-merda-cara!que-merda!sou’m-capacho!bem-que’u-desconfiei!", Sí olha-o com o canto dos olhos já com lágrimas, "que chato isso, que vergonha! ele não vai me perdoar nunca...", mexe a cabeça em negativa, "ele não merecia isso, imagino como ele se sente". Mondrian engole seco — vo-você não-que’fica’comigo? — pergunta sem olhar para ela, "não-pode-ser!não-pode-ser!vô’toma’banho-de-sal-grosso-cara!" — não ‘tô legal Márcio... — "Márcio?! primeiro foi Alex e agora..." — como é mesmo seu nome? — Mondrian abaixa a cabeça, "essa-foi-foda!" — É-é Márcio mesmo... — ela não consegue olhar para ele — va-vamos esquecer tudo isto... — ela olha para ele, Mondrian continua olhando para o lado; sem ter o que fazer, incapaz de qualquer consolo para ele, ela beija-o no rosto, "beijo-de-Judas!", ele continua olhando para o lado, "tive um momento sublime com ela e ela me pede p’r’eu esquecê-la!", Mondrian percebe que ela se afasta — você vai encontrar alguém que te mereça... você é muito legal Márcio! — segurando para não chorar, ela deixa-o, perde-se em meio às pessoas que vêm e vão. Mondrian olha para frente — fodeu cara — volta-se e continua andando em direção ao balcão escuro do bar, "dois foras numa mesma noite cara!", encosta-se no balcão, "onde’stá-todo-mundo-cara?! onde’stã’os-amigos-quando-mai’se-precisa? O-maldito-judeu?!O-Polaco?!O’Tá-Certo?!", um balconista aproxima-se dele.
— Quero uma cerveja... — Mondrian não olhara para o balconista.
— A ficha.
— Hã? — ele se volta para o balconista, "ma’que-merda-de-som-alto! Não dá p’ra entender nada do que o cara diz! Meu! e’sse’mpurra-empurra! bêbados-filhos-da-puta! — não entendi — "Urgh! e’sse-cheiro-de-cigarro! cigarro?! tão-fumand’um-banza’li-no-canto-cara!nã’é-possível! misturado com o gelo seco, a! a!", vira-se para o lado e espirra, volta-se para o balconista, este indica-lhe o caixa, Mondrian olha para o caixa, "é mesmo cara, a droga da ficha", volta-se para o balconista, "vô...", ele olha para Mondrian com desprezo, "branquelo drogado", e se afasta para atender um grupo de caras que bate no balcão e chama pelos balconistas. Mondrian olha para a pista, "cadê a carteira cara? só falta ter perdido a carteira também... a-chave-do-Tempra?!Entreguei’ntreguei!", ele observa as pessoas dançando, "parece’ que ‘tão dançando lentamente", a luz intermitente dispara, "que negócio horrível", olha para o lado, vê uma morena passando, "tomei fora de morena e de loira... puta-que-pariu! E-agora?! De-volta-p’r’as-baranga? humpf! Prefir’uma-punheta!", olha para a esquerda, um grupo de peões que toma cerveja em latinhas observa-o, eles perceberam que Mondrian olhou para eles e voltaram-se para pista, ele fez o mesmo — Zica-total-cara! — caminha para a saída, Mondrian não quer ver mais ninguém.

Capítulo 037

Heloísa aproxima-se de Lucineide, Maria Helena e Jussara, segura nas mãos da primeira.
— Oi Helô?! tudo bem? — Lucineide pisca rapidamente, "acho que não n’é?" — a Fê disse que ‘cê ‘tava aqui... — "com um amigo dela..." — mas o que aconteceu?! ‘cê ‘tá chorando!
— Ai Lúú! — "alívio! que alívio encontrar você!" — eu ‘tava ficando com aquele cara ali — Heloísa se volta para ele, "não é tão mau assim", as moças olham para Mondrian indo em direção oposta, Heloísa se volta para a amiga — e-e... puxa-vida! — ela abaixa os olhos — acabei fazendo besteira! — "de novo! de novo!"
— Besteira? Que besteira Helô?
Heloísa, com as lágrimas escorrendo pelo rosto, olha para Lucineide.
— Briguei com ele Lú, briguei com ele... — "que eu faço? que eu faço?"
Lucineide troca olhares com Maria Helena, "brigou?", e Jussara, "brigou por que?"
— Mas por que... — timidamente, pergunta Maria Helena.
— Achei... — ela olha para as amigas, "será que eu falo?" — achei... — "se eu não falar p’ra elas p’ra quem eu vou falar?!" — achei que ele ‘tava olhando para outras moças, que ‘tava bebendo muito... que tinha se esquecido de mim!
— Ah Helô! — Lucineide, "ah! ela acha! ela sempre acha essas coisas! depois fala que não era nada disso, p’ra ela qualquer coisa é motivo de ciúme, de briga!", segura a cabeça de Heloísa, que, soluçando, encosta a cabeça no ombro da amiga. Elas tentam consolá-la.
Mondrian olha para trás e vê as moças rodearem Heloísa, "puta-merda!puta-merda!", volta-se para frente, caminha entre as pessoas dançando na pista, "cara!el’é-maluca!", tenta se convencer disso, mas lembra-se dela dançando, mexendo os seios, "aquelas-teta’cara", o quadril largo, "aquele-par-de-coxa’", a fascinação que ela, morena, diferente da namorada loira que ele sempre quis ter, "fazendo-me’squece’meu-sonho-de-te’ma-loira!co’quele-corpão-gostoso!miríad’ de-prazeres-que-só’ma-morenona-daquela’pode-proporciona’!", exerce sobre ele, lembra-se de quão quente — INTENS’! — suspira, tinha sido no banco de trás do Tempra, Mondrian fica excitado novamente, mas não pode satifazer este desejo, "megera!", lembra-se do fora que ela lhe deu, "puta-merda-viu! Ia-fica’noit’inteira’nrolando’nrolando!", toma o último gole de cerveja, já quente, "quand’a’smola-é-muit’o-santo-desconfia", ele olha, inseguro, "parece um pesadelo!", as pessoas dançando, alheias ao seu drama, "onde’stá-o-Tales", os movimentos da massa hipnotizada deixaram de ter beleza, "ach’que-foi’té-bom’le-não’sta’qui, já-penso’se’le-dess’quele-risadão-dele-na-minha-cara?! ‘há!há!há! aí vacilão!’", mexe a cabeça em negativa, "ele-não-ia-faze’iss’!"; a luz vermelha acende, ele lembra-se de uma expressão de volúpia de Heloísa, "apost’que-s’eu-pedisse-ness’hora’la-chuparia-meu-pau", ele se incomoda com as pessoas dançando, dobra à esquerda, "o-qu’eu-fiz-de’rrado-cara?!", olha para um lado e outro, "Tales?Luis?onde’stão-vocês!", sente-se desesperado, "solitário’ntr’as-gentes-cara!", começa a luz intermitente, ele pára, "precis’pensa’cara!", ele olha para algumas moças próximas dançando, "onde’rrei?!onde’rrei-cara?!"
— Helô! Helô! Já falei p’ra você! — diz Lucineide — Homem é diferente de mulher! Eles sentem as coisas de maneira diferente! não adianta você querer trazê-lo ‘no cortado’ como dizem — "ai meu Deus! ela é muito complicada!" — nem brigar com ele porque ele gosta de tomar cerveja — "qual é o problema?" ela flagra uma simpatia pela bebida em si mesma mas ignora isso de momento — você já achou defeito em outros moços também, lembra? — "custa entender que ninguém é perfeito?" — você falou p’ra eles também e eles deixaram você... — Lucineide examina o rosto de Heloísa, "cuidado com ela" — depois você falou que não era nada daquilo — "Heloísa! Heloísa!", Lucineide mexe a cabeça em negativa fitando a amiga — desde que não beba de ficar ruim não tem nada de mais!
"Ai gente! ela fala com tanta segurança, com um olhar tão consolador que parece que tem muita experiência no assunto, mas está sozinha também"; Lucineide continua falando, mas Heloísa não presta atenção ao que ela diz, começa outra dance, ela enxuga as lágrimas, "ela já foi com um homem p’ra cama... me deixou lo’ca quando contou p’ra mim... aiiii! que tortura ouvir aquilo!", Heloísa ouve o cantor dizer ‘what is love?’, isto ecoa na mente dela, "eu nunca experimentei isso! E vou embora de novo sem saber o que é isso! E se eu morrer amanhã?! Morrerei virgem!!! Ai meu Deus! Acho que é p’ra eu virar madre!" — ela sente desespero, esconde o rosto entre as mãos — "ele parecia ser tão bonzinho! tão carinhoso..." — lembra-se dele ter enfiado o dedo no seu rego — "ai! shhhh!!! foi perto do buraquinho... que tarado!", ela ergue o rosto, seus sentimentos se abrandam ante ao ressentir do desejo, "vou atrás dele, que se dane! quero que ele me humilhe! me bata! aiii!!! shhhh!!! daí a gente vai p’r’o carro... ai gente! eu não quero morrer virgem!"
— Tem homem que não vale nada mesmo! — Heloísa olha para a pista a procura de Mondrian — Como tem mulher assim também. Helô! — ela se volta para a Lucineide — O que você me falou não são defeitos, são gostos diferentes! — Heloísa, "vou tomar uma cerveja também, p’ra não ter que pensar muito", observa o rosto da amiga — A gente tem que saber tolerar estas diferenças... se ele for do jeito que você quer não vai ter graça!
Mondrian está parado na pista, "mai’afinal-que-deu-nela-cara?!", ele vê Tales, rindo, com outro copo de cerveja na mão, surgir do meio da multidão, Tales, ao vê-lo, "que o maluco ‘tá fazendo sozinho ali?", pára de rir, Fernanda percebe a reação dele, olha para frente e vê Mondrian se aproximando.
— Cadê a Helô? — ela franze a testa — O que aconteceu?
— Não sei Fê — diz Tales indiferente — não sei.
Mondrian enfia a mão no bolso, "vô’ntrega’a-chave-p’r’ele".
— Mondrian, o que aconteceu? Cadê a Helô?!
— Nã-não-sei’que-deu-nela-Fê! Quebro’o-pau-comigo...
— Hárárárá! — Tales vira-se para o lado, "o vassalo fico’ na mão de novo!"
— Tales! Não ria dele! coitado! — "‘eles ‘tavam tão bem no carro... foi ela! eu conheço a Helô! Devia ter avisado ele!"
Mondrian olha-o, tenta rir, "com’diz-o-tio-How-pimenta-no-rabo-dos-outro’"
— ‘Sorry! Sorry!’ Hárá! Mas é que você fez uma cara maluco! — Tales abraça Mondrian — Desculpa mesmo! ‘cê é meu irmão! — Mondrian abraça-o também.
— Mas por que vocês brigaram Mondrian? — Tales e Mondrian se soltam.
— Ela brigou comigo Fê! — Tales, sorrindo, mantém a mão no ombro de Mondrian, "sabe qual a diferença entre o leão e o viado?", oferece-lhe o copo de cerveja, Mondrian agradece, pega o copo e toma um gole, "ela‘tava’mburrada-já-n’hor’que-fomos-compra’fich’p’ra-cerveja" — na hora que fomos ao caixa ela já estava meio emburrada, fico’ assim, do nada!
"Vou perguntar p’ra ele!" — Você não falou alguma merda p’ra ela? do tipo: vamos p’r’o motel, por exemplo? Hárárárá!
— Ai Tales!
— Não! Ah! a propósito — ele tira do bolso a chave do carro — ‘tá’qui-a-chave do carro — Tales pega a chave.
— Hã?! Por que você estava com a chave do Tempra?
— Nós tínhamos combinado, Fê, que iríamos ficar um pouco aqui na danceteria e depois iríamos para o carro...
— E daí? — "ihhh!!! será que ele falou em motel p’ra ela?"
— É isso aí maluco! — Tales dá um tapa nas costas de Mondrian — Hárárárá! Conte tudo! Não esconda o jogo! — "esqueça a morena, parta p’ra outra!"
— Daí, quando nós estavámos dançando na pista, eu falei p’ra ela: ‘vamos Helô?’ — Fernanda observa Mondrian enquanto ele fala, "eles ‘tavam num ralo lá no carro... ah!ah! ela toparia? O Mondrian não iria sacanear ela, conheço ele!" — daí ela pediu p’ra esperar, esperei... — Tales oferece o copo de cerveja a ele.
— Beba maluco — Mondrian, tentando rir, aceita — beba que consola.
— Daí Fê, falei de novo p’ra ela, ela ficou quieta, quando vocês saíram p’ra comprar cerveja eu insisti com ela, assim, numa boa sabe? Daí ela explodiu comigo, falou que eu só queria aquilo...
"É bem capaz dela ter topado, 5 minutos depois ter achado ruim, ele não ter percebido... ou não ter entendido por que ela estava emburrada, insistido, daí ela brigou com ele".
— Concordo com ela — Mondrian e Fernanda olham para ele — ele ‘tá precisando dar uma! Hárárárá!
— Tales! — Fernanda olha para Tales, "ele zoa com todo mundo!", segura para não rir — olha a cara dele!
— Hárárárá! É a mesma! — ele e Mondrian riram.
— Tenha dó! — Fernanda olha para Mondrian — e então?
"Eu só queria ir p’r’o carro com ela" — fico’brava-quand’eu-falei-que-tínhamos-combinado! Começo’a-pega’no-meu-pé’m-tudo-qu’eu-falava! até me chamou de bêbado!
— Ele queria que ela pegasse em outra coisa...
— Tales! — "ah! ah! ai meu Deus! o pior é que o Mondrian conta de um jeito que dá vontade de rir mesmo!"
— Daí eu gritei com ela n’é? E ela saiu com a história que tinha me achado legal — Fernanda concorda com um movimento de cabeça, "olha só! já ouvi ela falar isso" — que queria me namorar, mas que eu só pensava em aproveitar-me dela — Fernanda mexe a cabeça em negativa, "como coisa que ela é muito novinha p’ra ser ingênua!", Mondrian fica emocionado, Fernanda sente pena dele, "que vaca que ela é!" — daí eu fiquei mal... ah Fê! Fodeu! fodeu tudo! — "que chato ficar falando disso..."
— Onde ela está?
— Ela ficou conversando com umas amigas ali perto da pista.
— Fica frio maluco! — Tales dá dois tapas no peito de Mondrian, ele olha assustado para Tales — ‘tá cheio de mulher aqui hoje! parta p’ra outra!
Mondrian sente que a bexiga está cheia — vô’ dá uma mijada — se afasta.
Fernanda pega na mão de Tales e o puxa em direção ao lugar onde eles tinham ficado — vamos ver se a gente encontra ela.
— Ah Fê! vamos nós p’r’o carro! — ela pára e olha para ele — ela já fez a escolha dela — e sorri.
Fernanda observa-o por um momento, "é verdade!" — ‘cê tem razão! — "não adianta falar p’ra ela", Fernanda vê-o sorrir, ele puxa-a pela mão, segura-a pela cintura, "e eu fiz a minha escolha", ela ergue-se na ponta dos pés e beija-o.
Mondrian sai da pista, "mai’o-que-deu-nela-cara?!", abre passagem entre as pessoas paradas por ali, uma loira que dança e fuma fica frente a frente com ele, Mondrian observa os cabelos dela caídos no rosto, os seios pequenos, sob a luz intermitente, que faz sombra no rosto dela, a moça olha para ele, solta fumaça pela boca, olha para o lado e lhe dá passagem, "credo!fica’co’mulher-que-fuma-é-mesma-coisa-que-beija’cinzeiro!", ele anda mais um pouco, estica o braço e abre a porta do banheiro, "ai-cara!a-bexiga-parec’que-vai’xplodi’!", alguns caras fumam e bebem cerveja no banheiro, "que luz fraca! fria!", Mondrian olha para eles, abaixa a braguilha enquanto dirige-se para a calha de metal, pára em frente desta, ao lado de um gordo que, de olhos fechados e boca aberta, oscila o corpo enquanto urina, "chapadérrimo", tira o pau para fora e começa a urinar, "puuuut’!", ele observa o jato forte de urina, "meu-pau‘tá‘scorrendo... — olha para o gordo e volta-se para a calha de metal, ouve os caras falando e rindo atrás dele — "se-não-tivess’ninguém’qui!duas-tocadinh’e-eu-gozaria", os caras riem de algo e saem do banheiro falando e rindo alto, "ach’qu’um-dos-viado’peido’cara!", o gordo arregala os olhos, termina de urinar e se afasta para o lavatório. Mondrian abre os olhos, observa o azulejo branco sobre a calha, "bate’punheta-na-danceteria-é-o-fim-da-picada-cara!", ele chacoalha a cabeça freneticamente, "que-merda!que-merda-cara!", desanimado, ouve o barulho que o jato de urina faz no metal; ao fundo, abafado, a música que vem da pista, "ela’tava-numa-frescura-comigo! ‘me chama de puta!’ naqueles-ralo’violento-cara!não-consig’ntede’!", sente o jato de urina se enfraquecer, "e’gora-cara?!Parti’p’ra-o’tra?!", por fim a urina acaba, ele chacoalha o pau, caem algumas gotas, guarda-o, vai até o lavatório, abre a torneira, "parece’queles-banheiro’de-filme:po’co’luminado-e-sujo", molha as mãos, "que sabonete nojento cara", tira duas folhas de papel de um suporte ao lado do lavatório, enquanto enxuga as mãos, vê pelo espelho outro cara entrar no banheiro, "o’tro-cara-chapado... esse’tá-sinistro!parec’m-vampiro!", e se fechar numa das cabines, "se fechou ali... lança-perfume?banza?!", Mondrian joga o papel amassado num lixo embaixo do lavatório, olha-se no espelho, "que merda cara!", vira as costas, segue até a porta, abre-a, sai do banheiro e caminha para a pista.
Heloísa mexe a cabeça em negativa — Lú! eu vou atrás dele! — olha para a pista procurando Mondrian, Maria Helena e Jussara se olham reprovando aquilo.
— Ele deve estar bravo com você Helô! — "ela é teimosa! vai tomar outro fora!" — deixa p’ra falar com ele depois, com calma — ela percebe que não adianta falar com Heloísa, "mas que cabeça dura!" — se ele é tão legal como você disse ele vai te desculpar... pode até rolar um namoro Helô!
Heloísa olha para Lucineide — vou procurar ele... — e caminha para a pista.
— Helô! Helô! — ela se volta para as outras — ai! não adianta falar p’ra ela!