“Jerônimo fez outra pausa, colocou a carta sobre a mesa e tomou a Coca que estava em seu copo, fiz o mesmo. A história do motim tinha me deixado curioso. Jerônimo colocou mais Coca no meu copo”.
— E o Kirsch? O que aconteceu com ele?
“Ele colocou mais refrigerante em seu copo” — Depois que Nicolau, Iolanda e seus filhos, meu avô, tios e meu pai, Albert, desembarcaram do Kérberos, meu avô virou-se para o navio e viu dois marujos negros trazerem Kirsch diante de Claudius — “ele pegou a carta que tinha colocado sobre a mesa” — Ah! aqui está! “Olhe Nicolau! O Kirsch!” Nicolau e Iolanda olharam. Enfesado, com os punhos cerrados, Claudius parecia que ia dar uma surra em Kirsch”
“Interrompi-o” — Que aparência tinha esse Kirsch?
“Jerônimo olhou para mim” — Meu avô conta que o polaco tinha cabelos lisos e vermelhos, usava barba, era um pouco mais baixo que o capitão — “olhou para a carta” — “Kirsch estava com hematomas nos braços, ao lado do capitão estavam seus imediatos, Zarco, entregou um revólver a Claudius, que apontou-o para Kirsch. Este, até então olhava lentamente de um lado, de outro, fazia uma careta, olhava para o capitão, desviava dele o olhar, resmungava, enquanto os marujos torciam seus braços, quando viu o revólver apontado para ele, fechou a boca, tossiu e ficou olhando para a arma e para o rosto do capitão. “Olha’qui filho-da-puta!”, Claudius agarrou-o pela gola do casaco e puxou-o, engatilhou a arma e enfiou o cano dela embaixo do queixo do polaco; de dentes cerrados, aproximou a cara da cara do outro, “eu poderia ter mandado enfiar um balaço no meio da sua testa e ter-te atirado aos tubarões, meio morto meio vivo!” O capitão empurrou o polaco, “mas já estou cansado de ver morte e miséria!”, desengatilhou o revólver, abaixou-o, olhou para esquerda e fez um gesto de cabeça, um marinheiro atirou as coisas de Kirsch ao chão, diante deste; Zarco atirou um maço de dinheiro sobre a mala dele, “agora dê o fora do Kérberos e nunca mais apareça na minha frente!”, olhou para os marujos que o seguravam e fez um gesto de cabeça, eles o soltaram, Kirsch olhou para os marujos e para o capitão, “tem um cigarro aí?”, Claudius tirou um do bolso da camisa e atirou-o sobre o dinheiro, Kirsch abaixou-se, pegou o dinheiro e o cigarro com uma mão e com outra a mala, Kirsch ergueu a cabeça e fitou a cara enfezada de Claudius. O polaco guardou o dinheiro e o cigarro no bolso do casaco azul, pegou outra mochila e caminhou para a rampa de desembarque, ia devagar, mancava, Claudius e seus marinheiros ficaram observando-o, ao colocar o boné, já no porto, ele voltou-se para a proa do navio, onde estava escrito Kérberos, fez um movimento de cabeça e seguiu em frente, cumprimentou-nos com um aceno e continuou, olhando de um lado, de outro”. Meu avô olhou para o capitão, Claudius o fitou sem dizer nada, depois continuou olhando o marujo indo até ele desaparecer no meio das pessoas. Kirsch tinha sido o único sobrevivente dos amotinados, trabalhava com Claudius há anos.
“Único sobrevivente?! A coisa deve ter sido feia mesmo!”
— Meu avô estava com pena do Nicolau, “vermelho, triste, coitado dele”, enquanto pensava em algo para dizer-lhe, algo para animá-lo, ele olhou para frente: Valim conversava com o carroceiro. Eles iríam até o tal Hans Dusseldorf, depois, a alguma secretaria ou bureau do governo, para dizer que estavam aqui! por fim, pegariam um trem para Blumenau, “será que vai caber tudo na carroça Karl?”, minha avó, que carregava o tio Johann, sempre chorando, perguntou-lhe isto, mas não esperou resposta, estava interessada em conversar com Iolanda e as moças. “Como estaria o Christian? ele tinha 29 anos quando veio para cá, apegado à idéia de fazer fortuna. Ele supunha que encontraria outra Tróia aqui”. Meu avô olhava as pessoas que passavam, pensava no irmão, “achei que tinha visto alguém conhecido no meio das gentes, olhei de novo... fitava-me”.
— “E-Elsa, olhe, olhe ali!”, ele gaguejou e apontou para alguém. “Ele estava de chápeu, um chapéu de abas largas, tinha engordado, já não tinha mais aquele rosto comprido de antes”. Ele estava de camisa azul, calça marrom, meu avô suspirou, “está sorrindo agora! Ele vem! vem vindo agora!”
“Jerônimo tirou os óculos e esfregou os olhos”
— Fico emocionado ao lembrar-me de meu avô contando isto — Então ele parou, estava tão comovido que duvidava que fosse verdade. “Agora chega de cartas e longas esperas!” Minha avó reconheceu-o — “Jerônimo recolocou os óculos” — ela parou de falar e olhou. Nicolau percebeu alguma coisa e saiu de seu mutismo, tentou perguntar algo, percebeu que não era preciso, os meninos também se viraram: era o Christian!
— “Você deixou crescer a barba!” foi a primeira coisa que Christian tentou falar-lhe, a primeira coisa que ouviu dele, em alemão, a voz era a mesma. “E eu fiquei, parecendo... mais velho? Christian?”, ao ouvir seu nome, ele sorriu, “sorriu como uma criança! como sorria quando menino!” Meu avô inspirou profundamente, ele mostrou p’ra mim! Lembro’! — “Jerônimo já estava com os olhos cheios d’água” — “você ainda sorri como nossa mãe”, meu avô dizia que o irmão lembrava muito a mãe deles. Christian concordava com movimentos de cabeça, olhava para meu avô. “Mamãe!” Meu avô tinha avisado-o por carta que ela estava doente, “ela queria qu’eu voltasse, mamãe gostaria qu’eu estivesse próximo dela nos seus últimos dias... todos os seus filhos e filhas estavam lá, menos eu!”, olhou para Elsa, Nicolau, Iolanda, “depois ele escreveu-me que ela estava nas últimas... fiquei desesperado ora-sim! Nunca chegaria a tempo... sofri muito tempo com esta constatação!” Meu avô não acreditava! Era mesmo Christian! Lá estavam dois irmãos, dois alemães, o mais novo, pálido, magro, barbudo e fugitivo, o outro, vermelho, forte, de barba feita e feliz. “Não há mais o que discutir! Ora-sim! Ela morreu querendo me ver! foi ele quem me escreveu: mamãe não está mais conosco, e você não estava aqui. É hora de pedir perdão ao meu irmão”. Christian e Karl se aproximaram, com cuidado, o primeiro colocou a mão no ombro do irmão mais novo, “perdão, carne-de-minha-carne” — Alemanha! Alemanha reunificada! Sejam bem-vindos!
— “18 de janeiro de 1915. Fechei meus olhos e concordei, agradeci”, ele abraçou meu avô, há anos esperava por isso! “ao vê-lo, lembrei-me com tristeza de nossa mãe”. “Perdão! Vou pedir nem que seja tarde!”
— Meu avô não queria chorar ali, então chamou Elsa, que Christian conhecia apenas por foto, Nicolau, Iolanda, os meninos, para conhecê-lo. “Todo dia, aqui, tem gente se reencontrando!”, disse Christian ao observar o irmão, Elsa e os meninos, “aqueles que podem estão felizes”, Nicolau e Iolanda, “os que estavam tristes agora parecem estar consolados”, olhou à direita, o marujo apertava a mão do carroceiro, “será mesmo que a felicidade é uma ilusão? Penso eu que é. Dúvidas! Elas me fazem julgar e julgar o mundo que conheci, buscando a serenidade, penso eu, numa verdade que não entendo, mas que sinto”.
— “Christian”, meu avô lhe falou, “Claudius, o capitão”.
“Ele é capitão agora! Ora-sim!”
— “Ele mandou”, olhou para Valim e o carroceiro, “conseguir um transporte para levar nossas coisas”.
“O sujeito vai cobrar caro isto! Ora-sim! conheço esses bandidos-rufiões! O-Holst, sim! o Holst pode muito bem levar as coisas deles”.
“Ora-sim! Gentileza! Mas já arrumei tudo!”, Christian olhou sorrindo para Valim e o carroceiro, “não se preocupem!” O carroceiro resmungou algo, deu-lhe as costas, pulou na carroça, raiou com o cavalo e foi embora. “Agradeça ao capitão pelo favor”, disse Christian em português, a Valim, este concordou com um movimento de cabeça e se afastou. Christian olhou novamente para o Kérberos, da popa à proa, “Claudius conseguiu o que queria”, virou-se para Karl, “Holst não irá cobrar nada para levar a bagagem, vamos encontrá-lo”. Fazia 4 dias que meu tio tinha chegado a Santos. Quando avistou o navio, caminhou em direção a ele. Viera com outros alemães que tinham vindo encontrar seus parentes. A guerra permitiu este reencontro.
“Jerônimo parou de falar, tomou mais um gole de Coca, fico’viajando-nas-lembranças-dele. Olhei para o copo também, achei chato perguntar mais, deix’ele! Esperei um pouco. Percebi que a sala estava vazia, e ele continuava quieto. Esperei mais um pouco. Olhei a maleta aberta sobre a mesinha e os papéis amarelados das cartas, vou cutucá-lo!”
— E de lá? Eles foram direto p’ra Blumenau? — “Jerônimo olhou-me distraídamente, umedecia os lábios com a ponta da língua, voltou-se para direita”. — Hrrm! Não-não — “Jerônimo arrumou os óculos” — de lá eles foram para São Paulo, lá-na-pensãozinha onde o Bart dis’que foi. Meu tio-avô, Christian, estava esperando um alemão, amigo dele de Blumenau, que tinha vindo com ele para receber uns parentes também. O navio deles tinha atrasado, e eles ficaram em São Paulo por três dias.
— E o tal de Hans Dusseldorf que Claudius indicou?
— Ah!sim! Eles foram até’le. Trabalhava numa casa velha, atrás de um armazém, na rua do Comércio; disse que foram bem tratados, depois que o Christian entregou-lhe a carta do Claudius... daí ele foi muito gentil. Trocou o dinheiro deles e ainda aconselhou-os sobre onde ir em São Paulo, que trem pegar etc. Em São Paulo, eh!eh! uma São Paulo muito, muito diferente da de hoje, havia muitos imigrantes naquela época — e foi enumerando-os nos dedos — italiano, alemão, espanhol, português, judeu, turco! Christian quis proporcionar distração a Nicolau.
“Ora!sim!sim! Um passeio por São Paulo lhe fará bem Karl!”
— Levou-os pela cidade. Nicolau não imaginava que o Brasil tinha uma cidade como São Paulo.
“Quanto concreto! gente!”
— Eles foram à Praça da Sé, ao Vale do Anhangabaú, ao Viaduto Santa Ifigênia, ao Páteo do Colégio, passaram diante dos casarões da Avenida Paulista.
“Como será a vida numa casa destas Karl?”
— Christian e Karl perceberam que ele se interessou pela cidade. Continuaram pela Rua Direita.
“Edifícios! toldos, muitos toldos sobre as calçadas, gente, gente em todas as ruas! e carros!”
— Aquilo impressionou Nicolau. Durante os três dias eles andaram p’ra cima e p’ra baixo em São Paulo. Depois disto, eles pegaram o trem para Blumenau.
— Eu já estive lá — “ihh... faz tempo! 79? 81?” — ainda tenho primos lá. Seu bisavô achou que a cidade era uma Alemanhazinha — “eh!eh! assim mesmo que meu avô me disse!” — mas ele não gostou muito de lá não.
— Não? Por que não?
— Ainda tinha a lembrança de São Paulo que o tentava — “será isto? Não tenho bem certeza, bem, Alemanhazinha... hum, ele não se lembraria da guerra? de tudo que eles sofreram lá?” — mas enfim eles ficaram lá mesmo. Seu bisavô ficou feliz por encontrar outros alemães aqui no Brasil, de falar alemão e ser entendido. Tanto ele quanto meu avô se irritavam de tentar falar português e ninguém responder, eles que não falava nada de português. Eles aprenderam, tiveram que aprender em São Paulo porque em Blumenau só falam alemão. Nicolau esqueceu a Grande Alemanha, identificou-se com as tradições alemãs dos seus compatriotas e por fim recuperou-se. Ele e meu avô montaram uma pequena siderúrgica, ganharam algum dinheiro. Conheciam muito bem máquinas, processos de produção, materiais, etc. Às vezes voltavam à São Paulo para comprar uma máquina ou um material para a siderúrgica. A cidade nova, as ruas cheias de gente diferente, as praças, os carros e os prédios voltaram a encantar seu bisavô.
“Quantos carros! como será que é ter um? Sinto-me bem aqui Karl, aqui os meninos podem estudar, arrumar um bom emprego. Blumenau me traz muitas lembranças desagradáveis, coisas que queria esquecer. Aqui está o futuro Karl!”
— Mas meu avô resistia a estas perspectivas, “Blumenau é uma cidade boa Nicolau!” Essa resistência de Karl, que Nicolau tentava convercer cada vez que eles voltavam a São Paulo, por fim frustou Nicolau. Dona Iolanda, sua bisavó, não gostava de lá também, ela eu conheci, ela mesma disse-me que ficava lembrando o tempo todo da vida deles na Alemanha, da guerra e do Franz.
“Pois bem! Se ele quer ficar lá, que fique! Eu virei para cá!”
— Meu avô tentava recuperar os anos perdidos longe de Christian, tentou, tentou, mas descobriu que sentia saudades da cidade grande, de Essen. Elsa, minha’vó, começou a queixar-se da dureza da vida lá. Descobriu que Christian era louco por um rabo-de-saia! Começou a achar que meu avô acompanhava o irmão nestas “escapadas” e tornou-se neurastênica, passaram a brigar. Em 1917 Johann ficou doente, nenhum médico de Blumenau conseguiu tratá-lo. Meu avô levou-o a médicos de Florianópolis mas nada-nada! parecia um tipo de bronquite. Em 1918 Johann morreu. A preocupação com os filhos, a insatisfação de minha’vó e a nostalgia da vida em Essen fizeram meu avô mudar de idéia quanto a São Paulo. Christian insistiu p’ra que eles ficassem, mas meu tio e meu avô tinham idéias diferentes. Então eles voltaram à São Paulo: Nicolau, Iolanda, seus tios, tias, Karl, Elsa e seus filhos, foi quando a guerra acabou, voltaram na pensãozinha onde eles ficaram da primeira vez — e que na época da 2ª Guerra deu um bafafá-lá pois era um reduto de integralistas! Nos dias seguintes eles foram procurar emprego em uma siderurgica que tinha muitos funcionários alemães, “precisamos de operários experientes, se souberem alemão, melhor, muito melhor!”, eles aceitaram, no dia seguinte começaram. Nicolau estava entusiasmado, “há muito não o via tão feliz”, e só tinha olhos para os carros, os bondes, “vejam como São Paulo anda!” e os prédios. Nicolau tornou-se um paulistano! Ele e os filhos passeavam pela cidade aos domingos, mas os moços estavam mais interessados em admirar as moçoilas que encontravam pelo caminho.
— Parece que’u conheç’ essa história?!
— Eh!eh! Caríssimo! Esta história não muda! Todas as histórias são iguais nessa parte!
— E meu bisavô esqueceu do Franz?
— Não, não Mondrian. Meu avô dizia que a gente nunca esquece um filho morto, mas Nicolau tornou-se forte o bastante para conviver com isso. Na fábrica onde eles trabalharam em São Paulo havia alemães que tinham perdido os filhos na guerra, fugido em navios de carga, alemães que também acreditavam na “Grande Alemanha”. Gräss, um deles, tinha perdido 4 filhos na guerra: sua vida era seu trabalho, consolava-se com a cachaça no bar da esquina. Seu bisavô ouvia notícias do caos pós-guerra que reinava na Alemanha e pensava nos filhos, Hans casara-se em 1919, Wilhein formou-se em engenharia e casou-se em 1921, em 1922 nasceu mais uma menina, temporona, Olga, e a primeira neta, Verônica, filha do Hans. Vladimir formou-se em direito em 1923 e casou-se dois anos depois, a alegria tinha voltado à casa dele, “que futuro eles teriam lá? que futuro?!”, ele não queria voltar mais p’ra Alemanha...
— E daí de São Paulo p’ra Itapê?
— A crise de 1929 afetou os produtores de café, e a siderurgica vendia muitas máquinas para esses fazendeiros. Eles quebraram, a siderurgica teve que se adaptar aos novos tempos. Nicolau, Karl, Gräss, entre outros, foram mandados embora. Meu avô ainda tinha o sonho de montar uma siderúrgica. Ele sabia que havia clientes da siderurgica na região de Itapetininga que não tinham sido afetados pela crise. Propôs a Nicolau que eles abrissem uma siderurgica em Itapetininga. Hans e Otto também entrariam. Após muita discussão eles aceitaram. Em 1930 vieram para cá meu avô, seu bisavô e suas famílias, montaram a siderurgica “Essen”.
— E o Kirsch? O que aconteceu com ele?
“Ele colocou mais refrigerante em seu copo” — Depois que Nicolau, Iolanda e seus filhos, meu avô, tios e meu pai, Albert, desembarcaram do Kérberos, meu avô virou-se para o navio e viu dois marujos negros trazerem Kirsch diante de Claudius — “ele pegou a carta que tinha colocado sobre a mesa” — Ah! aqui está! “Olhe Nicolau! O Kirsch!” Nicolau e Iolanda olharam. Enfesado, com os punhos cerrados, Claudius parecia que ia dar uma surra em Kirsch”
“Interrompi-o” — Que aparência tinha esse Kirsch?
“Jerônimo olhou para mim” — Meu avô conta que o polaco tinha cabelos lisos e vermelhos, usava barba, era um pouco mais baixo que o capitão — “olhou para a carta” — “Kirsch estava com hematomas nos braços, ao lado do capitão estavam seus imediatos, Zarco, entregou um revólver a Claudius, que apontou-o para Kirsch. Este, até então olhava lentamente de um lado, de outro, fazia uma careta, olhava para o capitão, desviava dele o olhar, resmungava, enquanto os marujos torciam seus braços, quando viu o revólver apontado para ele, fechou a boca, tossiu e ficou olhando para a arma e para o rosto do capitão. “Olha’qui filho-da-puta!”, Claudius agarrou-o pela gola do casaco e puxou-o, engatilhou a arma e enfiou o cano dela embaixo do queixo do polaco; de dentes cerrados, aproximou a cara da cara do outro, “eu poderia ter mandado enfiar um balaço no meio da sua testa e ter-te atirado aos tubarões, meio morto meio vivo!” O capitão empurrou o polaco, “mas já estou cansado de ver morte e miséria!”, desengatilhou o revólver, abaixou-o, olhou para esquerda e fez um gesto de cabeça, um marinheiro atirou as coisas de Kirsch ao chão, diante deste; Zarco atirou um maço de dinheiro sobre a mala dele, “agora dê o fora do Kérberos e nunca mais apareça na minha frente!”, olhou para os marujos que o seguravam e fez um gesto de cabeça, eles o soltaram, Kirsch olhou para os marujos e para o capitão, “tem um cigarro aí?”, Claudius tirou um do bolso da camisa e atirou-o sobre o dinheiro, Kirsch abaixou-se, pegou o dinheiro e o cigarro com uma mão e com outra a mala, Kirsch ergueu a cabeça e fitou a cara enfezada de Claudius. O polaco guardou o dinheiro e o cigarro no bolso do casaco azul, pegou outra mochila e caminhou para a rampa de desembarque, ia devagar, mancava, Claudius e seus marinheiros ficaram observando-o, ao colocar o boné, já no porto, ele voltou-se para a proa do navio, onde estava escrito Kérberos, fez um movimento de cabeça e seguiu em frente, cumprimentou-nos com um aceno e continuou, olhando de um lado, de outro”. Meu avô olhou para o capitão, Claudius o fitou sem dizer nada, depois continuou olhando o marujo indo até ele desaparecer no meio das pessoas. Kirsch tinha sido o único sobrevivente dos amotinados, trabalhava com Claudius há anos.
“Único sobrevivente?! A coisa deve ter sido feia mesmo!”
— Meu avô estava com pena do Nicolau, “vermelho, triste, coitado dele”, enquanto pensava em algo para dizer-lhe, algo para animá-lo, ele olhou para frente: Valim conversava com o carroceiro. Eles iríam até o tal Hans Dusseldorf, depois, a alguma secretaria ou bureau do governo, para dizer que estavam aqui! por fim, pegariam um trem para Blumenau, “será que vai caber tudo na carroça Karl?”, minha avó, que carregava o tio Johann, sempre chorando, perguntou-lhe isto, mas não esperou resposta, estava interessada em conversar com Iolanda e as moças. “Como estaria o Christian? ele tinha 29 anos quando veio para cá, apegado à idéia de fazer fortuna. Ele supunha que encontraria outra Tróia aqui”. Meu avô olhava as pessoas que passavam, pensava no irmão, “achei que tinha visto alguém conhecido no meio das gentes, olhei de novo... fitava-me”.
— “E-Elsa, olhe, olhe ali!”, ele gaguejou e apontou para alguém. “Ele estava de chápeu, um chapéu de abas largas, tinha engordado, já não tinha mais aquele rosto comprido de antes”. Ele estava de camisa azul, calça marrom, meu avô suspirou, “está sorrindo agora! Ele vem! vem vindo agora!”
“Jerônimo tirou os óculos e esfregou os olhos”
— Fico emocionado ao lembrar-me de meu avô contando isto — Então ele parou, estava tão comovido que duvidava que fosse verdade. “Agora chega de cartas e longas esperas!” Minha avó reconheceu-o — “Jerônimo recolocou os óculos” — ela parou de falar e olhou. Nicolau percebeu alguma coisa e saiu de seu mutismo, tentou perguntar algo, percebeu que não era preciso, os meninos também se viraram: era o Christian!
— “Você deixou crescer a barba!” foi a primeira coisa que Christian tentou falar-lhe, a primeira coisa que ouviu dele, em alemão, a voz era a mesma. “E eu fiquei, parecendo... mais velho? Christian?”, ao ouvir seu nome, ele sorriu, “sorriu como uma criança! como sorria quando menino!” Meu avô inspirou profundamente, ele mostrou p’ra mim! Lembro’! — “Jerônimo já estava com os olhos cheios d’água” — “você ainda sorri como nossa mãe”, meu avô dizia que o irmão lembrava muito a mãe deles. Christian concordava com movimentos de cabeça, olhava para meu avô. “Mamãe!” Meu avô tinha avisado-o por carta que ela estava doente, “ela queria qu’eu voltasse, mamãe gostaria qu’eu estivesse próximo dela nos seus últimos dias... todos os seus filhos e filhas estavam lá, menos eu!”, olhou para Elsa, Nicolau, Iolanda, “depois ele escreveu-me que ela estava nas últimas... fiquei desesperado ora-sim! Nunca chegaria a tempo... sofri muito tempo com esta constatação!” Meu avô não acreditava! Era mesmo Christian! Lá estavam dois irmãos, dois alemães, o mais novo, pálido, magro, barbudo e fugitivo, o outro, vermelho, forte, de barba feita e feliz. “Não há mais o que discutir! Ora-sim! Ela morreu querendo me ver! foi ele quem me escreveu: mamãe não está mais conosco, e você não estava aqui. É hora de pedir perdão ao meu irmão”. Christian e Karl se aproximaram, com cuidado, o primeiro colocou a mão no ombro do irmão mais novo, “perdão, carne-de-minha-carne” — Alemanha! Alemanha reunificada! Sejam bem-vindos!
— “18 de janeiro de 1915. Fechei meus olhos e concordei, agradeci”, ele abraçou meu avô, há anos esperava por isso! “ao vê-lo, lembrei-me com tristeza de nossa mãe”. “Perdão! Vou pedir nem que seja tarde!”
— Meu avô não queria chorar ali, então chamou Elsa, que Christian conhecia apenas por foto, Nicolau, Iolanda, os meninos, para conhecê-lo. “Todo dia, aqui, tem gente se reencontrando!”, disse Christian ao observar o irmão, Elsa e os meninos, “aqueles que podem estão felizes”, Nicolau e Iolanda, “os que estavam tristes agora parecem estar consolados”, olhou à direita, o marujo apertava a mão do carroceiro, “será mesmo que a felicidade é uma ilusão? Penso eu que é. Dúvidas! Elas me fazem julgar e julgar o mundo que conheci, buscando a serenidade, penso eu, numa verdade que não entendo, mas que sinto”.
— “Christian”, meu avô lhe falou, “Claudius, o capitão”.
“Ele é capitão agora! Ora-sim!”
— “Ele mandou”, olhou para Valim e o carroceiro, “conseguir um transporte para levar nossas coisas”.
“O sujeito vai cobrar caro isto! Ora-sim! conheço esses bandidos-rufiões! O-Holst, sim! o Holst pode muito bem levar as coisas deles”.
“Ora-sim! Gentileza! Mas já arrumei tudo!”, Christian olhou sorrindo para Valim e o carroceiro, “não se preocupem!” O carroceiro resmungou algo, deu-lhe as costas, pulou na carroça, raiou com o cavalo e foi embora. “Agradeça ao capitão pelo favor”, disse Christian em português, a Valim, este concordou com um movimento de cabeça e se afastou. Christian olhou novamente para o Kérberos, da popa à proa, “Claudius conseguiu o que queria”, virou-se para Karl, “Holst não irá cobrar nada para levar a bagagem, vamos encontrá-lo”. Fazia 4 dias que meu tio tinha chegado a Santos. Quando avistou o navio, caminhou em direção a ele. Viera com outros alemães que tinham vindo encontrar seus parentes. A guerra permitiu este reencontro.
“Jerônimo parou de falar, tomou mais um gole de Coca, fico’viajando-nas-lembranças-dele. Olhei para o copo também, achei chato perguntar mais, deix’ele! Esperei um pouco. Percebi que a sala estava vazia, e ele continuava quieto. Esperei mais um pouco. Olhei a maleta aberta sobre a mesinha e os papéis amarelados das cartas, vou cutucá-lo!”
— E de lá? Eles foram direto p’ra Blumenau? — “Jerônimo olhou-me distraídamente, umedecia os lábios com a ponta da língua, voltou-se para direita”. — Hrrm! Não-não — “Jerônimo arrumou os óculos” — de lá eles foram para São Paulo, lá-na-pensãozinha onde o Bart dis’que foi. Meu tio-avô, Christian, estava esperando um alemão, amigo dele de Blumenau, que tinha vindo com ele para receber uns parentes também. O navio deles tinha atrasado, e eles ficaram em São Paulo por três dias.
— E o tal de Hans Dusseldorf que Claudius indicou?
— Ah!sim! Eles foram até’le. Trabalhava numa casa velha, atrás de um armazém, na rua do Comércio; disse que foram bem tratados, depois que o Christian entregou-lhe a carta do Claudius... daí ele foi muito gentil. Trocou o dinheiro deles e ainda aconselhou-os sobre onde ir em São Paulo, que trem pegar etc. Em São Paulo, eh!eh! uma São Paulo muito, muito diferente da de hoje, havia muitos imigrantes naquela época — e foi enumerando-os nos dedos — italiano, alemão, espanhol, português, judeu, turco! Christian quis proporcionar distração a Nicolau.
“Ora!sim!sim! Um passeio por São Paulo lhe fará bem Karl!”
— Levou-os pela cidade. Nicolau não imaginava que o Brasil tinha uma cidade como São Paulo.
“Quanto concreto! gente!”
— Eles foram à Praça da Sé, ao Vale do Anhangabaú, ao Viaduto Santa Ifigênia, ao Páteo do Colégio, passaram diante dos casarões da Avenida Paulista.
“Como será a vida numa casa destas Karl?”
— Christian e Karl perceberam que ele se interessou pela cidade. Continuaram pela Rua Direita.
“Edifícios! toldos, muitos toldos sobre as calçadas, gente, gente em todas as ruas! e carros!”
— Aquilo impressionou Nicolau. Durante os três dias eles andaram p’ra cima e p’ra baixo em São Paulo. Depois disto, eles pegaram o trem para Blumenau.
— Eu já estive lá — “ihh... faz tempo! 79? 81?” — ainda tenho primos lá. Seu bisavô achou que a cidade era uma Alemanhazinha — “eh!eh! assim mesmo que meu avô me disse!” — mas ele não gostou muito de lá não.
— Não? Por que não?
— Ainda tinha a lembrança de São Paulo que o tentava — “será isto? Não tenho bem certeza, bem, Alemanhazinha... hum, ele não se lembraria da guerra? de tudo que eles sofreram lá?” — mas enfim eles ficaram lá mesmo. Seu bisavô ficou feliz por encontrar outros alemães aqui no Brasil, de falar alemão e ser entendido. Tanto ele quanto meu avô se irritavam de tentar falar português e ninguém responder, eles que não falava nada de português. Eles aprenderam, tiveram que aprender em São Paulo porque em Blumenau só falam alemão. Nicolau esqueceu a Grande Alemanha, identificou-se com as tradições alemãs dos seus compatriotas e por fim recuperou-se. Ele e meu avô montaram uma pequena siderúrgica, ganharam algum dinheiro. Conheciam muito bem máquinas, processos de produção, materiais, etc. Às vezes voltavam à São Paulo para comprar uma máquina ou um material para a siderúrgica. A cidade nova, as ruas cheias de gente diferente, as praças, os carros e os prédios voltaram a encantar seu bisavô.
“Quantos carros! como será que é ter um? Sinto-me bem aqui Karl, aqui os meninos podem estudar, arrumar um bom emprego. Blumenau me traz muitas lembranças desagradáveis, coisas que queria esquecer. Aqui está o futuro Karl!”
— Mas meu avô resistia a estas perspectivas, “Blumenau é uma cidade boa Nicolau!” Essa resistência de Karl, que Nicolau tentava convercer cada vez que eles voltavam a São Paulo, por fim frustou Nicolau. Dona Iolanda, sua bisavó, não gostava de lá também, ela eu conheci, ela mesma disse-me que ficava lembrando o tempo todo da vida deles na Alemanha, da guerra e do Franz.
“Pois bem! Se ele quer ficar lá, que fique! Eu virei para cá!”
— Meu avô tentava recuperar os anos perdidos longe de Christian, tentou, tentou, mas descobriu que sentia saudades da cidade grande, de Essen. Elsa, minha’vó, começou a queixar-se da dureza da vida lá. Descobriu que Christian era louco por um rabo-de-saia! Começou a achar que meu avô acompanhava o irmão nestas “escapadas” e tornou-se neurastênica, passaram a brigar. Em 1917 Johann ficou doente, nenhum médico de Blumenau conseguiu tratá-lo. Meu avô levou-o a médicos de Florianópolis mas nada-nada! parecia um tipo de bronquite. Em 1918 Johann morreu. A preocupação com os filhos, a insatisfação de minha’vó e a nostalgia da vida em Essen fizeram meu avô mudar de idéia quanto a São Paulo. Christian insistiu p’ra que eles ficassem, mas meu tio e meu avô tinham idéias diferentes. Então eles voltaram à São Paulo: Nicolau, Iolanda, seus tios, tias, Karl, Elsa e seus filhos, foi quando a guerra acabou, voltaram na pensãozinha onde eles ficaram da primeira vez — e que na época da 2ª Guerra deu um bafafá-lá pois era um reduto de integralistas! Nos dias seguintes eles foram procurar emprego em uma siderurgica que tinha muitos funcionários alemães, “precisamos de operários experientes, se souberem alemão, melhor, muito melhor!”, eles aceitaram, no dia seguinte começaram. Nicolau estava entusiasmado, “há muito não o via tão feliz”, e só tinha olhos para os carros, os bondes, “vejam como São Paulo anda!” e os prédios. Nicolau tornou-se um paulistano! Ele e os filhos passeavam pela cidade aos domingos, mas os moços estavam mais interessados em admirar as moçoilas que encontravam pelo caminho.
— Parece que’u conheç’ essa história?!
— Eh!eh! Caríssimo! Esta história não muda! Todas as histórias são iguais nessa parte!
— E meu bisavô esqueceu do Franz?
— Não, não Mondrian. Meu avô dizia que a gente nunca esquece um filho morto, mas Nicolau tornou-se forte o bastante para conviver com isso. Na fábrica onde eles trabalharam em São Paulo havia alemães que tinham perdido os filhos na guerra, fugido em navios de carga, alemães que também acreditavam na “Grande Alemanha”. Gräss, um deles, tinha perdido 4 filhos na guerra: sua vida era seu trabalho, consolava-se com a cachaça no bar da esquina. Seu bisavô ouvia notícias do caos pós-guerra que reinava na Alemanha e pensava nos filhos, Hans casara-se em 1919, Wilhein formou-se em engenharia e casou-se em 1921, em 1922 nasceu mais uma menina, temporona, Olga, e a primeira neta, Verônica, filha do Hans. Vladimir formou-se em direito em 1923 e casou-se dois anos depois, a alegria tinha voltado à casa dele, “que futuro eles teriam lá? que futuro?!”, ele não queria voltar mais p’ra Alemanha...
— E daí de São Paulo p’ra Itapê?
— A crise de 1929 afetou os produtores de café, e a siderurgica vendia muitas máquinas para esses fazendeiros. Eles quebraram, a siderurgica teve que se adaptar aos novos tempos. Nicolau, Karl, Gräss, entre outros, foram mandados embora. Meu avô ainda tinha o sonho de montar uma siderúrgica. Ele sabia que havia clientes da siderurgica na região de Itapetininga que não tinham sido afetados pela crise. Propôs a Nicolau que eles abrissem uma siderurgica em Itapetininga. Hans e Otto também entrariam. Após muita discussão eles aceitaram. Em 1930 vieram para cá meu avô, seu bisavô e suas famílias, montaram a siderurgica “Essen”.

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