Mondrian observa o movimento das nuvens — lívidas — "e sobre estas nuvens há outras mais lívidas, por todo céu esta uniformidade cinzo-gasosa, densa, tão densa quanto uma vida inteira sob o olhar panorâmico no ocaso da maturidade, lamentando as oportunidades perdidas e ainda sentindo o fluir da vida já ameaçada pela proximidade inaceitável da morte! Incômodo cessar da especulação inerente ao humano, desamparado de qualquer conforto após alimentar uma duradoura simpatia pelo ateísmo. Há nuvens, por todos os tempos, silenciosas. E meu pensamento, claro, vasculhando em todas as direções num ímpeto de conhecer, ignorando se terá forças para levar a cabo descomunal tarefa, sensível aos significados das palavras, elas lançam luz à escuridão do não-ser-além-homem. Bem poderia compor, sim, compor é mais próximo do ofício, não como um dever mas uma idiossincrasia sem escolha do artista, idealizar, mais poético, uma poesia consistente, plástica ainda, pois as representações por este meio ainda atraem-me não obstante eu ter abandonado a alma mater há tanto sonhada, e involuntariamente mergulhar no caos, nas incertezas pois suponho que não é do destino do homem topar com a singularidade neste campo, estas reflexões, reflexões nunca escritas de Mondrian, sob estas mesmas nuvens caminhando pelo bois de Paris, no statu quo da 1ª Guerra indo ao encontro do consolo, e também desta ânsia latente de restauração que o homem busca nas religare, de ter vivido numa época passada num lugar mais afeito às coisas do espírito, um viver não mais maculado pela dureza das necessidades e misérias, eis outra pluralidade de tormentos que pesa no fado humano, além do legado da experiência artística, um viver, aos mortais permitido apenas o exercício da contemplação, transitando numa silenciosa orbe, pela lembrança dos contemporâneos e miríade imaginada, feito uma tradição oral a nós legada da noite dos tempos, em sua silenciosa viagem com destino ao esquecimento. Nuvens tristes, mas um sentimento suportado pelo sofredor... nuvens tuberculosas!", lembra-se de um fragmento de um solo de piano, ele vê um teclado surgir da escuridão tocado pelas mãos de um pianista, "Chopin", um retrato pintado deste, "figura soturna o polonês, cabelos longos, casado pesado e olhar vago", olha para as nuvens, "noturnos de Chopin" — deve ser triste: — "sozinho a ouvir a chuva no telhado, assim que ele compôs algumas músicas", ergue o lábio inferior e as sobrancelhas, "não, talvez não seja tão ruim assim. Quem escreveu que a natureza nos dá forças para suportar as vicissitudes? não sei, acho que foi um romano. Mas acho que não é Chopin e sim John Cage, é daquele CD que tem a música para o piano de brinquedo, que ouvi na casa do Tales, mas a disposição para a melancolia serve para ambos. Cedo mais uma vez ao vício de concluir ao supor não se tratar de uma inclinação a tal estado de espírito mas sim relampejos de uma ulterior maturidade, a mesma que vejo estampada na seriedade de meu pai em seu esforço diário de resignação na loja de meu avô. É certo que ele um dia foi tão jovem quanto eu, a preferir a diversão e a piada ao fardo da sobrevivência, ou então a disposição para piadas seja um atributo da juventude e um dia também acabe, e reste o perene e universal e cotidiano desafio de afrontar a vida".
O vento frio se alterna com o chuvisqueiro, Mondrian franze a testa, pisca rapidamente e desvia o rosto — que tempo horrível! — "Itapetininga é mesmo uma highland, acabei de crêr...", volta-se para frente, percebe então, as pessoas passando, a rua e os edifícios ao redor, "estava tão absorto nas minhas reflexões que ignorava tudo isto, parece um despertar", lembra-se que caminha para a editora onde trabalha, sente aborrecimento, "o homo theoricu cede ante o homo labor", olha os carros que passam, "as pessoas que vão ao centro da cidade se escondem nos Tempras, Vectras, Ômegas, com todos os vidros fechados e o som ligado; quem pode, fica em casa, na cama quentinha, embaixo dos cobertores, que delícia é acordar tarde nestes dias!", mexe a cabeça — e o Maldito Judeu... — "que entonação rude! foi sem querer, hã? cadê o involuntário tão bem considerado para usar há pouco nas reflexões?", suspira, "eis a resignação mutatis mutandis" — necessário à sobrevivência! — disse isso com uma raiva sem força, como um animal capturado, "aproveitando a deixa desta queixa, aah! ora-pois-lusitano! já tinha suspeitado disto quando usei alhures sozinho a ouvir, declarou:" — é uma delícia acordar às 10 horas todo dia vassalo! — "perde-o-amigo-mas-não-perde-a-piada!" — ah!ah!ah! — o riso dissipa o mau humor, deixa-o à vontade, mas o fruir do bem-estar é interrompido ao perceber que está caminhando pela calçada, "opa!verdade-cara!", olha ao redor, para ver se alguém o flagrou rindo e falando sozinho, "ufa! ninguém", sorri, "e-daí-se-alguém-me-flagrou-rindo? daí?!" — aposto que você ficaria sem graça se alguém estivesse vendo! — "é verdade cara!", dá de ombros, "usufruindo a solidão de estar entre as gentes!" Olha as pessoas, caminhando apressadas pela calçada, deste e do outro lado da rua, "os dias estão curtos para quem levanta-se cedo para trabalhar, agora estás-a-plagiar-Hesíodo-heterônimo!" — ah! — "os limpos dias de pouco sol e céu azul, típicos de inverno, há tempos não dão as caras, e as noites, frias e longas, me fazem pensar por que tenho que acordar cedo, levantar da cama quentinha e ir trabalhar, não sou tão pobre assim", tenta convercer-se desta afirmação, frusta-se, "pel’enésima-vez!" — o hábito de resignar-se é mais forte que a verdade — pressiona um lábio contra outro, olha para o chão, "meu pai não iria sustentar um artista anônimo, um, um dândi!", olha ao redor, tenta encontrar esperança, "mas ele também gosta de ler" — mas e o ‘vô Saratoga?! — mexe a cabeça em negativa, "eis o problema! detesta livros, quando meu pai morava com ele tinha que esconder os livros senão o ‘vô jogava tudo, sempre diz que nossa família nasceu pra trabalhar e não estudar! mesmo assim, meu pai e o tio Fausto conseguiram fazer faculdade, e eu não terminei a minha, ele não toleraria minha licença, cairia de pau no meu pai! vai-perde’dinheiro-com-ele-de-novo?!", olha para o chão, "o ‘vô já acha que artes plásticas, publicidade é coisa de viado..." — Maldita necessidade de trabalhar! — "bem que Kafka dizia que o mundo é uma colônia penal!"
Mondrian desce do centro da cidade pela rua Quintino Bocaiúva, ele caminha alguns minutos aborrecido, sem conseguir chegar a uma conclusão — quantos prédios antigos atrás dos postes elétricos — "a padariazinha escura, atrás do ponto de ônibus cimentado, pouco movimentada, nunca fui lá, qual é o nome dela mesmo? o prédio do século XIX, com seus arcos sobre altas portas, amarelo e branco, os arabescos, parece aquelas construções históricas de Portugal, na esquina da ruela-que-vai-lá-embaixo... eu também nunca fui lá, é Vila alguma-coisa", atravessa a rua, inspira sonoramente — Ah! que merda! — "o homem marcha inexoravelmente para o caos! e que adianta revoltar-me?!", observa a casa da esquina — a casa de rico sempre fechada — "pelo menos", ergue os ombros, "vejo-a mais fechada que aberta", olha para o circular descendo a rua, "vai parar diante do prédio abóbora, na frente da mercearia do barbudo, ao lado das duas garagens... cara! que frio! que mão gelada!". O circular pára diante do ponto de ônibus, algumas mulheres obesas, com casacos de lã sobre blusões de moleton, com sacolas nas mãos, chamando as crianças que acompanham-nas e falando com alguém que ficou dentro, descem do ônibus, Mondrian, aproximando-se das mulheres e crianças, observa um homem de cabelos brancos, magro, de chapéu preto, óculos, bigode e cavanhaque brancos, vestindo um casaco de lã surrado e segurando um livro numa das mãos descer do circular, ao pisar na calçada, ele e Mondrian trocam um olhar, "ele tem olhos azuis", o homem toca na aba do chapéu e mexe a cabeça em cumprimento, involuntariamente Mondrian mexe a cabeça também, "eu conheço? se o tio Franz não tivesse desaparecido na guerra talvez seria esse senhor... a-a! não exagere! quantos-anos-ele-deve-ter?75? Se o tio Franz estivesse vivo estaria com uns 100 anos", olha para o ônibus, que se põe em movimento, "e lá vai o azul-e-branco...", olha para as mulheres, que falam alto, e as crianças ainda no ponto de ônibus, "aliviado! continuar seu trajeto pra Chapadinha", olha para frente, o senhor abre o livro e caminha para a esquina, Mondrian lembra-se das suposições acerca da necessidade de trabalhar, dá de ombros, "não seja tão trágico!", e deixa-as de lado. O homem vira a esquina e sobe a rua Cesário Mota. Mondrian pára diante de um portão baixo, atrás do ponto de ônibus; as mulheres resolvem subir a rua Quintino Bocaiúva e chamam as crianças, que reclamam de fome e querem comprar doce na mercearia, para virem, ele abre o portão e sobe uma escada, olha para o outro lado da rua, observa o casarão em frente, "a sede da fazenda de antigamente, talvez fosse de um coronel apadrinhado pelo Júlio Prestes, no meio do que um dia deve ter sido um jardim, que agora é chão batido", lembra-se novamente do solo de piano, "agora que reparei: à esquerda, sob árvores, há um caminho, um-velho-caminho, que leva ao fundo do casarão". A escada conduz ao pátio do 1º andar, ele percebe que o chuvisqueiro parou ao olhar para o piso, ainda molhado, onde há desenhos abstratos feitos com cacos de cerâmica, no meio destes, ele vê uma data, final de 1974, "deve ter sido quando terminaram o prédio, o mesmo costume de colocar a data, 1917, por exemplo, no alto das fachadas das casas antigas... será que na fachada do casarão tem alguma data?", olha para as janelas e as portas que dão para o pátio, pintadas de verde-escuro, e o abóbora das paredes, olha para o muro e para as árvores atrás deste, ao fundo, o prédio amarelo de apartamentos, "imagine como seria viver ali, sem preocupar-se nem com dinheiro ou alguém! ter tempo suficiente para poder ler, para escrever... já falei isto para o Maldito Judeu, estás a delirar vassalo!", Mondrian, sorrindo e mexendo a cabeça, entra numa sala de estar, "eh!eh! maldito judeu!", ao fundo há uma cozinha, separada da sala por uma meia-parede e meia-divisória, entra por uma porta à esquerda, numa sala espaçosa, Mondrian lembra-se das dimensões desta, "a mesona, cheia de papéis, livros, caixas de equipamentos eletrônicos e uma escultura em barro, lembro-me que foi aqui que encontrei o Vítor pela primeira vez, a sala parecia maior ainda, acho que é porque estava vazia". Há cadeiras estofadas pretas espalhadas pela sala, uma janela grande na parede ao lado da escada que leva à rua e outra, mais estreita, na parede que dá para rua Quintino. Esta janela está um pouco aberta, as lâmpadas fluorescentes estão acesas, de cada lado da janela em questão há uma mesa com um 486. Na da esquerda há um homem sentado diante do micro, ele aparenta ter uns 40 anos.
Vítor olha para Mondrian e sorri.
— Fala aí cara — diz com voz rouca — vamos trabalhar um pouco? — sorri.
— Tem n’é?! — "cabelos lisos, longos, pretos, talvez como Chopin! Vítor! O-Chopin-d’Itapetininga!". Vítor está com uma blusa de lã grossa, que encobre as mãos, "ach’qu’é da Luiza", suas pálpebras estão semi-abertas, ele leva o cigarro à boca e dá uma tragada enquanto observa Mondrian rir, volta-se para a tela do monitor.
— Ô-o... Mondrian, como é mesmo a ferramenta para eu fazer o degradê?
— Clica no baldinho que’ce acha.
Mondrian senta-se diante do micro, "às vezes...", segura no mouse, clica duas vezes no ícone do Corel, olha para Vítor enquanto o programa abre — e se você salvar como default o degradê, ele entrará automaticamente em cada figura que‘cê fizer — "...ele fica assim horas-e-horas", coloca o relógio de pulso sobre o monitor, "nem liga p’r’o que acontece ao redor", seus olhos observam o programa aberto.
Vítor força os olhos e ergue as mãos diante do monitor — não, não, Mondrian, não é isso! como volta mesmo? control-o-quê? Só quero aplicar degradê nesta figura aqui de fundo para uma ilustração...
— Control-z!
Vítor olha para o teclado, "control-z", aperta as duas teclas e olha para o monitor, "aí!", olha para Mondrian — é isso aí... mestre do computador! — e sorri, Mondrian ri sem olhar para Vítor — imagine Mondrian: uma ilustração de alimentos, usando aquela técnica — arregala os avermelhados olhos — de profundidade!
Mondrian olha para Vítor — Legal hein Vítor!
— Ninguém aqui usa um recurso deste! Vai ser um toque de sofisticação no Guia — ele olha para a janela e dá outra tragada.
— E a gente pode usá-la no jornal!
— Pode sim... — volta-se para o monitor — vai ser muito legal — sorri.
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