Capítulo 008

revisto - 28/02/10


“Jerônimo fez outra pausa, colocou a carta sobre a mesa e tomou a Coca que estava em seu copo, fiz o mesmo. A história do motim tinha me deixado curioso. Jerônimo colocou mais Coca no meu copo”.
— E o Kirsch? O que aconteceu com ele?
“Ele colocou mais refrigerante em seu copo” — Depois que Nicolau, Iolanda e seus filhos, meu avô, tios e meu pai, Albert, desembarcaram do Kérberos, meu avô virou-se para o navio e viu dois marujos negros trazerem Kirsch diante de Claudius — “ele pegou a carta que tinha colocado sobre a mesa” — Ah! aqui está! “Olhe Nicolau! O Kirsch!” Nicolau e Iolanda olharam. Enfesado, com os punhos cerrados, Claudius parecia que ia dar uma surra em Kirsch”
“Interrompi-o” — Que aparência tinha esse Kirsch?
“Jerônimo olhou para mim” — Meu avô conta que o polaco tinha cabelos lisos e vermelhos, usava barba, era um pouco mais baixo que o capitão — “olhou para a carta” — “Kirsch estava com hematomas nos braços, ao lado do capitão estavam seus imediatos, Zarco, entregou um revólver a Claudius, que apontou-o para Kirsch. Este, até então olhava lentamente de um lado, de outro, fazia uma careta, olhava para o capitão, desviava dele o olhar, resmungava, enquanto os marujos torciam seus braços, quando viu o revólver apontado para ele, fechou a boca, tossiu e ficou olhando para a arma e para o rosto do capitão. “Olha’qui filho-da-puta!”, Claudius agarrou-o pela gola do casaco e puxou-o, engatilhou a arma e enfiou o cano dela embaixo do queixo do polaco; de dentes cerrados, aproximou a cara da cara do outro, “eu poderia ter mandado enfiar um balaço no meio da sua testa e ter-te atirado aos tubarões, meio morto meio vivo!” O capitão empurrou o polaco, “mas já estou cansado de ver morte e miséria!”, desengatilhou o revólver, abaixou-o, olhou para esquerda e fez um gesto de cabeça, um marinheiro atirou as coisas de Kirsch ao chão, diante deste; Zarco atirou um maço de dinheiro sobre a mala dele, “agora dê o fora do Kérberos e nunca mais apareça na minha frente!”, olhou para os marujos que o seguravam e fez um gesto de cabeça, eles o soltaram, Kirsch olhou para os marujos e para o capitão, “tem um cigarro aí?”, Claudius tirou um do bolso da camisa e atirou-o sobre o dinheiro, Kirsch abaixou-se, pegou o dinheiro e o cigarro com uma mão e com outra a mala, Kirsch ergueu a cabeça e fitou a cara enfezada de Claudius. O polaco guardou o dinheiro e o cigarro no bolso do casaco azul, pegou outra mochila e caminhou para a rampa de desembarque, ia devagar, mancava, Claudius e seus marinheiros ficaram observando-o, ao colocar o boné, já no porto, ele voltou-se para a proa do navio, onde estava escrito Kérberos, fez um movimento de cabeça e seguiu em frente, cumprimentou-nos com um aceno e continuou, olhando de um lado, de outro”. Meu avô olhou para o capitão, Claudius o fitou sem dizer nada, depois continuou olhando o marujo indo até ele desaparecer no meio das pessoas. Kirsch tinha sido o único sobrevivente dos amotinados, trabalhava com Claudius há anos.
“Único sobrevivente?! A coisa deve ter sido feia mesmo!”
— Meu avô estava com pena do Nicolau, “vermelho, triste, coitado dele”, enquanto pensava em algo para dizer-lhe, algo para animá-lo, ele olhou para frente: Valim conversava com o carroceiro. Eles iríam até o tal Hans Dusseldorf, depois, a alguma secretaria ou bureau do governo, para dizer que estavam aqui! por fim, pegariam um trem para Blumenau, “será que vai caber tudo na carroça Karl?”, minha avó, que carregava o tio Johann, sempre chorando, perguntou-lhe isto, mas não esperou resposta, estava interessada em conversar com Iolanda e as moças. “Como estaria o Christian? ele tinha 29 anos quando veio para cá, apegado à idéia de fazer fortuna. Ele supunha que encontraria outra Tróia aqui”. Meu avô olhava as pessoas que passavam, pensava no irmão, “achei que tinha visto alguém conhecido no meio das gentes, olhei de novo... fitava-me”.
— “E-Elsa, olhe, olhe ali!”, ele gaguejou e apontou para alguém. “Ele estava de chápeu, um chapéu de abas largas, tinha engordado, já não tinha mais aquele rosto comprido de antes”. Ele estava de camisa azul, calça marrom, meu avô suspirou, “está sorrindo agora! Ele vem! vem vindo agora!”
“Jerônimo tirou os óculos e esfregou os olhos”
— Fico emocionado ao lembrar-me de meu avô contando isto — Então ele parou, estava tão comovido que duvidava que fosse verdade. “Agora chega de cartas e longas esperas!” Minha avó reconheceu-o — “Jerônimo recolocou os óculos” — ela parou de falar e olhou. Nicolau percebeu alguma coisa e saiu de seu mutismo, tentou perguntar algo, percebeu que não era preciso, os meninos também se viraram: era o Christian!
— “Você deixou crescer a barba!” foi a primeira coisa que Christian tentou falar-lhe, a primeira coisa que ouviu dele, em alemão, a voz era a mesma. “E eu fiquei, parecendo... mais velho? Christian?”, ao ouvir seu nome, ele sorriu, “sorriu como uma criança! como sorria quando menino!” Meu avô inspirou profundamente, ele mostrou p’ra mim! Lembro’! — “Jerônimo já estava com os olhos cheios d’água” — “você ainda sorri como nossa mãe”, meu avô dizia que o irmão lembrava muito a mãe deles. Christian concordava com movimentos de cabeça, olhava para meu avô. “Mamãe!” Meu avô tinha avisado-o por carta que ela estava doente, “ela queria qu’eu voltasse, mamãe gostaria qu’eu estivesse próximo dela nos seus últimos dias... todos os seus filhos e filhas estavam lá, menos eu!”, olhou para Elsa, Nicolau, Iolanda, “depois ele escreveu-me que ela estava nas últimas... fiquei desesperado ora-sim! Nunca chegaria a tempo... sofri muito tempo com esta constatação!” Meu avô não acreditava! Era mesmo Christian! Lá estavam dois irmãos, dois alemães, o mais novo, pálido, magro, barbudo e fugitivo, o outro, vermelho, forte, de barba feita e feliz. “Não há mais o que discutir! Ora-sim! Ela morreu querendo me ver! foi ele quem me escreveu: mamãe não está mais conosco, e você não estava aqui. É hora de pedir perdão ao meu irmão”. Christian e Karl se aproximaram, com cuidado, o primeiro colocou a mão no ombro do irmão mais novo, “perdão, carne-de-minha-carne” — Alemanha! Alemanha reunificada! Sejam bem-vindos!
— “18 de janeiro de 1915. Fechei meus olhos e concordei, agradeci”, ele abraçou meu avô, há anos esperava por isso! “ao vê-lo, lembrei-me com tristeza de nossa mãe”. “Perdão! Vou pedir nem que seja tarde!”
— Meu avô não queria chorar ali, então chamou Elsa, que Christian conhecia apenas por foto, Nicolau, Iolanda, os meninos, para conhecê-lo. “Todo dia, aqui, tem gente se reencontrando!”, disse Christian ao observar o irmão, Elsa e os meninos, “aqueles que podem estão felizes”, Nicolau e Iolanda, “os que estavam tristes agora parecem estar consolados”, olhou à direita, o marujo apertava a mão do carroceiro, “será mesmo que a felicidade é uma ilusão? Penso eu que é. Dúvidas! Elas me fazem julgar e julgar o mundo que conheci, buscando a serenidade, penso eu, numa verdade que não entendo, mas que sinto”.
— “Christian”, meu avô lhe falou, “Claudius, o capitão”.
“Ele é capitão agora! Ora-sim!”
— “Ele mandou”, olhou para Valim e o carroceiro, “conseguir um transporte para levar nossas coisas”.
“O sujeito vai cobrar caro isto! Ora-sim! conheço esses bandidos-rufiões! O-Holst, sim! o Holst pode muito bem levar as coisas deles”.
“Ora-sim! Gentileza! Mas já arrumei tudo!”, Christian olhou sorrindo para Valim e o carroceiro, “não se preocupem!” O carroceiro resmungou algo, deu-lhe as costas, pulou na carroça, raiou com o cavalo e foi embora. “Agradeça ao capitão pelo favor”, disse Christian em português, a Valim, este concordou com um movimento de cabeça e se afastou. Christian olhou novamente para o Kérberos, da popa à proa, “Claudius conseguiu o que queria”, virou-se para Karl, “Holst não irá cobrar nada para levar a bagagem, vamos encontrá-lo”. Fazia 4 dias que meu tio tinha chegado a Santos. Quando avistou o navio, caminhou em direção a ele. Viera com outros alemães que tinham vindo encontrar seus parentes. A guerra permitiu este reencontro.
“Jerônimo parou de falar, tomou mais um gole de Coca, fico’viajando-nas-lembranças-dele. Olhei para o copo também, achei chato perguntar mais, deix’ele! Esperei um pouco. Percebi que a sala estava vazia, e ele continuava quieto. Esperei mais um pouco. Olhei a maleta aberta sobre a mesinha e os papéis amarelados das cartas, vou cutucá-lo!”
— E de lá? Eles foram direto p’ra Blumenau? — “Jerônimo olhou-me distraídamente, umedecia os lábios com a ponta da língua, voltou-se para direita”. — Hrrm! Não-não — “Jerônimo arrumou os óculos” — de lá eles foram para São Paulo, lá-na-pensãozinha onde o Bart dis’que foi. Meu tio-avô, Christian, estava esperando um alemão, amigo dele de Blumenau, que tinha vindo com ele para receber uns parentes também. O navio deles tinha atrasado, e eles ficaram em São Paulo por três dias.
— E o tal de Hans Dusseldorf que Claudius indicou?
— Ah!sim! Eles foram até’le. Trabalhava numa casa velha, atrás de um armazém, na rua do Comércio; disse que foram bem tratados, depois que o Christian entregou-lhe a carta do Claudius... daí ele foi muito gentil. Trocou o dinheiro deles e ainda aconselhou-os sobre onde ir em São Paulo, que trem pegar etc. Em São Paulo, eh!eh! uma São Paulo muito, muito diferente da de hoje, havia muitos imigrantes naquela época — e foi enumerando-os nos dedos — italiano, alemão, espanhol, português, judeu, turco! Christian quis proporcionar distração a Nicolau.
“Ora!sim!sim! Um passeio por São Paulo lhe fará bem Karl!”
— Levou-os pela cidade. Nicolau não imaginava que o Brasil tinha uma cidade como São Paulo.
“Quanto concreto! gente!”
— Eles foram à Praça da Sé, ao Vale do Anhangabaú, ao Viaduto Santa Ifigênia, ao Páteo do Colégio, passaram diante dos casarões da Avenida Paulista.
“Como será a vida numa casa destas Karl?”
— Christian e Karl perceberam que ele se interessou pela cidade. Continuaram pela Rua Direita.
“Edifícios! toldos, muitos toldos sobre as calçadas, gente, gente em todas as ruas! e carros!”
— Aquilo impressionou Nicolau. Durante os três dias eles andaram p’ra cima e p’ra baixo em São Paulo. Depois disto, eles pegaram o trem para Blumenau.
— Eu já estive lá — “ihh... faz tempo! 79? 81?” — ainda tenho primos lá. Seu bisavô achou que a cidade era uma Alemanhazinha — “eh!eh! assim mesmo que meu avô me disse!” — mas ele não gostou muito de lá não.
— Não? Por que não?
— Ainda tinha a lembrança de São Paulo que o tentava — “será isto? Não tenho bem certeza, bem, Alemanhazinha... hum, ele não se lembraria da guerra? de tudo que eles sofreram lá?” — mas enfim eles ficaram lá mesmo. Seu bisavô ficou feliz por encontrar outros alemães aqui no Brasil, de falar alemão e ser entendido. Tanto ele quanto meu avô se irritavam de tentar falar português e ninguém responder, eles que não falava nada de português. Eles aprenderam, tiveram que aprender em São Paulo porque em Blumenau só falam alemão. Nicolau esqueceu a Grande Alemanha, identificou-se com as tradições alemãs dos seus compatriotas e por fim recuperou-se. Ele e meu avô montaram uma pequena siderúrgica, ganharam algum dinheiro. Conheciam muito bem máquinas, processos de produção, materiais, etc. Às vezes voltavam à São Paulo para comprar uma máquina ou um material para a siderúrgica. A cidade nova, as ruas cheias de gente diferente, as praças, os carros e os prédios voltaram a encantar seu bisavô.
“Quantos carros! como será que é ter um? Sinto-me bem aqui Karl, aqui os meninos podem estudar, arrumar um bom emprego. Blumenau me traz muitas lembranças desagradáveis, coisas que queria esquecer. Aqui está o futuro Karl!”
— Mas meu avô resistia a estas perspectivas, “Blumenau é uma cidade boa Nicolau!” Essa resistência de Karl, que Nicolau tentava convercer cada vez que eles voltavam a São Paulo, por fim frustou Nicolau. Dona Iolanda, sua bisavó, não gostava de lá também, ela eu conheci, ela mesma disse-me que ficava lembrando o tempo todo da vida deles na Alemanha, da guerra e do Franz.
“Pois bem! Se ele quer ficar lá, que fique! Eu virei para cá!”
— Meu avô tentava recuperar os anos perdidos longe de Christian, tentou, tentou, mas descobriu que sentia saudades da cidade grande, de Essen. Elsa, minha’vó, começou a queixar-se da dureza da vida lá. Descobriu que Christian era louco por um rabo-de-saia! Começou a achar que meu avô acompanhava o irmão nestas “escapadas” e tornou-se neurastênica, passaram a brigar. Em 1917 Johann ficou doente, nenhum médico de Blumenau conseguiu tratá-lo. Meu avô levou-o a médicos de Florianópolis mas nada-nada! parecia um tipo de bronquite. Em 1918 Johann morreu. A preocupação com os filhos, a insatisfação de minha’vó e a nostalgia da vida em Essen fizeram meu avô mudar de idéia quanto a São Paulo. Christian insistiu p’ra que eles ficassem, mas meu tio e meu avô tinham idéias diferentes. Então eles voltaram à São Paulo: Nicolau, Iolanda, seus tios, tias, Karl, Elsa e seus filhos, foi quando a guerra acabou, voltaram na pensãozinha onde eles ficaram da primeira vez — e que na época da 2ª Guerra deu um bafafá-lá pois era um reduto de integralistas! Nos dias seguintes eles foram procurar emprego em uma siderurgica que tinha muitos funcionários alemães, “precisamos de operários experientes, se souberem alemão, melhor, muito melhor!”, eles aceitaram, no dia seguinte começaram. Nicolau estava entusiasmado, “há muito não o via tão feliz”, e só tinha olhos para os carros, os bondes, “vejam como São Paulo anda!” e os prédios. Nicolau tornou-se um paulistano! Ele e os filhos passeavam pela cidade aos domingos, mas os moços estavam mais interessados em admirar as moçoilas que encontravam pelo caminho.
— Parece que’u conheç’ essa história?!
— Eh!eh! Caríssimo! Esta história não muda! Todas as histórias são iguais nessa parte!
— E meu bisavô esqueceu do Franz?
— Não, não Mondrian. Meu avô dizia que a gente nunca esquece um filho morto, mas Nicolau tornou-se forte o bastante para conviver com isso. Na fábrica onde eles trabalharam em São Paulo havia alemães que tinham perdido os filhos na guerra, fugido em navios de carga, alemães que também acreditavam na “Grande Alemanha”. Gräss, um deles, tinha perdido 4 filhos na guerra: sua vida era seu trabalho, consolava-se com a cachaça no bar da esquina. Seu bisavô ouvia notícias do caos pós-guerra que reinava na Alemanha e pensava nos filhos, Hans casara-se em 1919, Wilhein formou-se em engenharia e casou-se em 1921, em 1922 nasceu mais uma menina, temporona, Olga, e a primeira neta, Verônica, filha do Hans. Vladimir formou-se em direito em 1923 e casou-se dois anos depois, a alegria tinha voltado à casa dele, “que futuro eles teriam lá? que futuro?!”, ele não queria voltar mais p’ra Alemanha...
— E daí de São Paulo p’ra Itapê?
— A crise de 1929 afetou os produtores de café, e a siderurgica vendia muitas máquinas para esses fazendeiros. Eles quebraram, a siderurgica teve que se adaptar aos novos tempos. Nicolau, Karl, Gräss, entre outros, foram mandados embora. Meu avô ainda tinha o sonho de montar uma siderúrgica. Ele sabia que havia clientes da siderurgica na região de Itapetininga que não tinham sido afetados pela crise. Propôs a Nicolau que eles abrissem uma siderurgica em Itapetininga. Hans e Otto também entrariam. Após muita discussão eles aceitaram. Em 1930 vieram para cá meu avô, seu bisavô e suas famílias, montaram a siderurgica “Essen”.

Capítulo 005

revisto - 28/02/10


“A história tinha recuperado sua beleza! De repente, uma coisa que conhecia desde pequeno passou por uma metamorfose — lembrei-me de Ovídio —, as sombras da incerteza foram afastadas e novas cores surgiram. Sentia que refazia o caminho dos meus bisavós, do fim p’r’o começo, arrepiava-me ao pensar que chegaria ao statu quo ante.
“Mondrian na Alemanha!”
“Isto mexeu comigo! Iria enfim curar-me da frustração de ser brasileiro, apagaria o verde-amarelo sob o paralelismo preto-vermelho-amarelo, esqueceria este país tão desigual, estes tristes trópicos — no dizer de Lévi-Strauss — caminhando pelas ruas de Essen, Berlim ou, quem sabe, Paris!”
“Encontrei Jerônimo, no dia seguinte, na praça da avenida, em frente ao fórum velho, ele tinha ido comprar o Estadão. Falou-me de suas impressões da Itapetininga que conhecera, mas não com esse desespero que tenho de querer uma restauration das coisas perdidas, e sim como um homem indiferente que observa um movimento, Brás Cubas vendo os séculos e as estripulias dos homens passar diante de si! Como bons itapetininganos, aproveitamos a bela e límpida manhã para darmos um passeio pela rua Campos Sales, Jerônimo ia comprar não-sei-o-quê no Empório Campos Sales; as lojas estavam abrindo, carros passando, carros estacionando, as pessoas indo e vindo, as filhas dos italianos... aaahhh! cheirando a banho, bem arrumadas, passavam por nós deixando o encanto de seus olhos azuis ou verdes e o perfume dos seus cabelos castanhos ou loiros. Era impossível, tanto p’ra mim quanto p’r’o Jerônimo, não olhar p’ra trás! Enquanto ele falava-me de quão diferente era a Campos Sales quando ele era menino, quando ainda podia perguntar o que não sabia para o seu ‘vô Karl, os mais velhos que encontrávamos cumprimentavam-no. Ele dizia-me de quem se tratava, velhos itapetininganos, cujos pais ou avós tiveram o nome imortalizado numa rua; alguns tinham conhecido Karl. Admirava-me com o conhecimento do Jerônimo”.
“Voltei à casa dele numa noite, fiz muitas perguntas sobre Essen, a Krupp etc. Volt’e-meia perguntava “ma’onde’cê-descobriu-tant’coisa’ssim?!”, mas ele deixava passar. Por fim, quando comecei a fazer perguntas sobre o navio, a viagem até o Brasil e Claudius ele abriu o jogo, revelou-me a fonte! aind’me’rrepia-de-lembra’! naquele noite, naquela saleta no fundo da casa, agradável-bem-agradável-silenciosa, ele gesticulou-me p’ra eu’spera’. Levantou-se, foi até uma das estantes, pegou uma maleta qu’estava na prateleira mais alta e a levou até a mesa, tirou as coisas de cima da mesa, abriu a maleta, velha e empoeirada, e virou-a sobre a mesa. Lá estavam! Não’creditei! As cartas! Meeeuu! ‘magine a minha emoção quando peguei em minhas mãos as cartas trocadas entre Christian e Karl?! Me senti o Indiana Jones! Parecia filme cara!” — São velhos pergaminhos! — “deixei escapar ao pegar uma delas” — Papel amarelado — “levei-a até meu nariz” — cheiro de papel velho, gosto deste cheiro, a tinta borrada e, e-escritas-em-alemão! Incrível Jerônimo! — “ele sorriu, tinha observado minha reação ao pegar a carta”.
— Meu avô anotava tudo pois meu tio Christian era ávido por detalhes. Ele se importava mais com estes, como deixou claro numa... — “olhou para o monte de cartas” — deixe-me ver... não!não! não sei onde está a carta agora, do que com a sucessão dos fatos — Jerônimo meneou a cabeça enquanto olhava para o monte de cartas sobre a mesa — ele adorava minúcias... ah! ali está — esticou o braço e pegou uma carta, folheou-a e leu com os olhos até o meio de uma folha — aqui está: “Minha curiosidade tem sede de descobertas, experiências novas. Por meio dos detalhes, penso eu, podemos apreciar as coisas até descobrirmos aquilo que não nos era claro ao primeiro olhar.” Foi esta curiosidade — “concluiu Jerônimo” — que, segundo meu avô, levou-o a embarcar no Kérberos, 12 anos antes da guerra, e ir aos confins da África, à Índia, à China e depois vir ao Brasil.
“Novamente senti-me num filme! Eis o elo perdido entre a vida de meus bisavós na Alemanha e a vida aqui... entre a Alemanha e eu, caaar! uma curiosidade! Enquanto esta comparando esta descoberta com a história que minha avó contava, Jerônimo encontrou outra carta”.
— Ah! ouça isto: “a cada dia, um motivo para arrepender-se, uma razão a menos para se viver...” — “Jerônimo empolgou-se” — Deutschland, das große Deutschland! — “olhou para mim enquanto mexia nos óculos” — Isto é, Alemanha! A Grande Alemanha! Bonito não é? Eh! eh! Bem grave em alemão! — “olhou para a carta” — “É uma loucura contagiosa sob o ideal de unificação... unificação de todos os alemães num único país, ein vereinheitlichtes Berlin!” — “olhou para mim” — Berlim unificada.
— Quem disse isto?
— Claudius Von Scheifner, o capitão do Kérberos.
“Eu concordei com um movimento de cabeça, mas não fiz a pergunta que Jerônimo esperava”.
— Quer saber pra quem ele falou isto?
“Ah! Jogo’verde-p’ra-colhe’maduro!” — Pra quem?
— Para o seu bisavô, Nicolau.
— É mesmo?! — “Jerônimo abaixou os olhos e concordou com um movimento de cabeça, depois, olhou para a carta que tinha na mão”.
— Seu Nicolau contou isto ao meu avô, anos depois. Jamais ele se esqueceu destas palavras. Nicolau passou a falar às pessoas: “a cada dia achamos um motivo para nos arrependermos, e uma razão a menos para viver”. Lembrava-se que seu caro filho tinha morrido no front inutilmente, “für die große Verrücktheit!” — “olhou para mim” — em vernáculo, “por uma grande loucura”.
— Há alguma coisa a mais nas cartas sobre Claudius?
“Jerônimo olhou para o monte de cartas” — Sim. Ele foi um mercenário do mar, um capitão prussiano que ganhou dinheiro tirando alemães, russos, judeus, ingleses e americanos da Alemanha durante a 1ª Guerra. Meu avô conheceu-o na Krupp, Claudius fazia parte de um esquema de contrabando de armas, conhecia o mundo todo, viveu mais no mar do que em terra — “enquanto ele falava, remexia as cartas sobre a mesa, Jerônimo pegou uma das cartas” — olha esta — “ele correu os olhos pela primeira folha” —, durante alguns dias, meu avô viu apenas a Alemanha ficando para trás, mar entre ele e a Alemanha, chuva e frio, minha avó Elsa triste, abraçada aos filhos, Nicolau taciturno indo pra lá e pra cá, Claudius subindo, descendo, gritando, mandando, quando avistavam um navio era’um tedéu, “amigo-ou-inimigo?!”, e outras pessoas que não conhecia a bordo. Algumas vezes, Claudius tentava ser cordial, parava para conversar com os passageiros, saber de onde eles eram, mas, depois explodiu o motim...
— O-quê?! Um motim?! — “Era mais um detalhe que não sabia”.
— Hã-hã! ficou mais difícil encontrar o capitão pelo convés. As cartas — “Jerônimo olhou novamente para o monte de cartas” mencionam o cabeça do motim: Kirsch. Veja isto aqui — “começou a ler um trecho de outra carta” — “você! seu trapaceiro! Claudius! Ficou como capitão! Eu! eu deveria ser o capitão do Kérberos!” “Muitos marujos e passageiros ouviram-no dizer isto. Os ânimos ficaram exaltados durante dias, Claudius tornou-se arredio, Kirsch ficou preso até o fim da viagem. No começo, fazia umas gritarias, batia nas paredes, depois, aquietaram-no, e esquecemos dele”. — “Jerônimo colocou a carta sobre a mesa, olhou para mim” — quer uma Coca? — “eu tentava compor uma imagem deste capitão, olhei para Jerônimo e concordei com um movimento de cabeça. Observei-o sair da sala. Quando li Moby Dick, a figura do Capitão Ahab lembrou-me muito Claudius-mercenário-do-mar. Por quê? Não, Claudius não tinha perna-de-pau, talvez-ach’que pela impaciência dele, pelas suas reações ante às vicissitudes àquele fim-de-mundo, mandando-desmandando naqueles trabalhadores do mar... sim-sim! tinha também um-quê-não-sei de Victor Hugo. O Pequod de Claudius tinha um nome fascinante para mim: Kérberos, o nome do imenso-cão-de-duas-cabeça’ que guarda os portões do inferno... Qual não foi minha surpresa, coincidência literária bem-na-minha-frente-Cara! Sob minhas origens! quando, em minha imaginação, meu outro ‘vô, Saratoga, surgiu sob o nome de Claudius?! Pai-d’meu-pai, Saratoga para Itapetininga, ‘vô Ladislau p’ra nós-da-família! Lembro-me, eu’inda-er’menino, de quando ia à casa do Saratoga, casa-velha-escura, onde o assoalho rangia onde quer que se pisasse, a mobília antiga aqui-e-ali, lustres e a sala de estar co’as grandes janelas pelas quais se via as árvores-e-arredores da praça Siqueira Campos. E neste ambiente, a figura ranzinza de meu avô Ladislau, xingando-mandando-criticando, tal como Claudius naqueles dias de fuga de meus bisavós. Por anos, sempre que andava pela casa-de-meu’vô e ouvia os rangidos do assoalho imaginava que estava no convés de um navio... do Kérberos! — n’sei-s’o-Kérberos-qu’existiu-er’de-madeira, nem o Jerônimo soube responder-me — e quando dormia lá, quando deitava-me naquela cama-grande, ficava ouvindo a casa range’range’, os berros do Saratoga, daí parecia, meu!que-cagaço! que a cama balançava também, e-estava no Kérberos! e o ronco-surdo das águas do mar atrás-das-paredes-e-embaixo-do-assoalho enchiam meus ouvidos, como os enchem o som da circulação do sangue. Às vezes, permanecia acordado, olhando para o velho guarda-roupa do quarto, a penteadeira, o branco-pálido-escurecido do teto-de-forro-do-quarto... Jerônimo tirou-me de minha viagem, ele tinha voltado da cozinha com uma garrafa de Coca e dois copos”.
— Vovô tinha muitas histórias p’ra contar — “sentou-se na cadeira, colocou os copos e a garrafa ao lado do gabinete do PC” — se desse lado, ele não pararia de falar, eh!eh! Seu Karl! Seu Karl!
“Ele colocou a Coca gelada nos copos e entregou-me um deles. Fizemos um brinde”.
— Deutschland! — “Jerônimo propôs, com o copo erguido e um sorriso”.
— Já! — “putz! geladíssima! Assim é qu’eu gosto!” — E o meu bisavô? Você o conheceu?
— Lembro-me muito pouco dele, quando comecei a brincar no jardim, 51-52, ele já estava doente, ficava mais na cama, não saía muito. Logo depois morreu — “parou de falar e olhou p’ra mim, eu bebia Coca — Lembro-me que uma vez meu avô contou-me da chegada deles em Santos.
— E como foi Jerônimo? V’Olga uma vez disse-me que’les vieram parar aqui, Nicolau, Iolanda, Vladimir...
— É! — “Jerônimo concordou distraído, meneando a cabeça”.
“Vovô sentiu a morte do seu Nicolau, não passava um dia sem falar nele, sentiu mais a morte dele do que a do Christian” — no porto de Santos... — “ele observava o líquido no copo enquanto balançava-o”.
— ...e que o ‘vô Bart conheceu o lugar-lá-em-São-Paulo onde’les ficaram.
— É! êh Bart velho! Era uma pensãozinha, acho que nem existe mais. Meu avô disse-me que eles estranharam muito o calor, eh!eh! minha avó achava que eles estavam no Egito!
— É mesmo?! Ah!ah! — “Egito! Mas, por que Egito?!”
— Eh!eh!eh! — “Jerônimo acabou por rir também” — A que ponto chegou hein? Talvez ela achasse que, que, o faraó! viesse recebê-los hein?! — “ele riu novamente, tomou o resto de Coca de seu copo e colocou mais Coca nos dois copos”.
“Jerônimo continuou a história”.
— Quando o navio estava próximo do equador, no meio do Atlântico, os dias quentes e agradáveis aumentaram, animando a todos. Meu avô planejava o que faria quando chegasse ao Brasil. Eles iriam para Blumenau, Christian estaria esperando por eles em Santos. Nicolau estava alheio à estas preocupações, vivia entre um surto de arrependimento, de saudade, pois falava em voltar à Alemanha, e de desespero, por ter deixado o filho se perder naquela loucura de guerra. Ele preparava cartas, pedindo informações sobre a guerra, Essen e a Krupp, para conhecidos dele na Alemanha, assim que desembarcassem iria colocá-las no correio.
“Jerônimo parou de falar, tomou mais um gole de Coca”.
— Meu avô conta que o porto de Santos era uma bagunça! barracões de madeira, quase caindo, ao lado de barracões de alvenaria, sobrados velhos, terrenos baldios cheios de lixo e entulho, barcos quebrados de um lado e outro, ruelas apertadas e sem calçamento...
“Interrompi-o, ah! não agüentei!” — Com camelos, dromedários, beduínos-de-turbantes-coloridos-indo-e-vindo, salam-daqui, vendedores-de-tapete’eunucos-janízaros-com-cimitarras, salam-dali, escravos hebreus também?!
— Também! também! também! Decerto, p’ra minha avó não é? Eh!eh!eh! Havia também pequenas oficinas e um mau cheiro que ó! dava p’ra sentir do navio! O porto, na verdade, eram portos, muitos portos irregulares mal-feitos, e havia caixas, barris, sacos de todos os lados, gente então! Era um forfé! Eh!eh! meu avô dizia que lá você podia fazer de tudo: tinha uns capatazes lá que estavam sempre precisando de peão p’ra colocar ou desembarcar as cargas dos navios, terminado o serviço, você recebia; com dinheiro, podia ir até um bar, comer alguma coisa, tomar uma — “rimos” — e depois ir até um daqueles sobrados velhos, que eram tudo bordel, eh!eh!eh! e, e, “afogar o ganso” sabe?!
“Rimos novamente, afogar-o-ganso! Ess’eu-não-esperav’ouvi-dele!”
— E de quebra você levava uma gonorréia ou uma sífilis!
“Ui-credo! Jerônimo continuou rindo”.
— No dia do desembarque, havia outros navios nos portos, e aquela bagunça-descarrega-carrega estava a todo vapor, minha avó e as outras mulheres olhavam tudo da amurada, “Meu Deus Karl! Olhe aquilo! Parece o cativeiro dos judeus no Egito!” Meu avô estava olhando a cidade depois dos portos, quando ouviu isso, olhou para ela, “não diga besteira mulher!” e virou-se para o Nicolau, ele olhava para tudo com aquele desânimo estampado no rosto, “vamos começar tudo de novo Karl”. Ao seu lado, Wilhein, Hans, Vladimir, Otto, entusiasmados com o país que conheciam através das cartas do Christian. Meu tio e meu pai observavam as coisas no porto: uma carroça cheia de laranjas, que sobressaía do fundo cinzento do porto, foi a lembrança “mais colorida” que meu pai guarda deste dia, a profusão de tipos bizarros vagando, trabalhando, uma mulher negra, velha e banguela, que andava com uma trouxa grande sobre a cabeça foi novidade p’ra eles também... acho que aqui nem se vê mais isto, a boca cheia de dentes-de-ouro do marujo que ria em meio a uns negros de vários tipos. Karl observava os outros alemães, que olhavam para aquele novo mundo, e para os marinheiros do Kérberos, que preparavam a rampa do navio para desembarcarem. O sol, um sol quente, terrívelmente quente, levantava-se atrás da popa, a luz deixou quase branco o convés, onde eram projetadas as sombras dos alemães que se dirigiam para a rampa. Nicolau, seu bisavô, viu um grupo de italianos que tirava sacos, sacos-de-café de um caminhãozinho, e disse “todas as dificuldades do começo da vida, na minha idade”.
“Jerônimo olhou para o copo, pegou e tomou mais um gole de Coca”.
— Meu avô ia responder mas ouviu a voz de Claudius próxima deles, “Depois de tantos dias de cinzas-e-sombras uma vida nova!”
“Interrompi-o” — Bem poético isto hein?
“Jerônimo sorriu e continuou” — “Olhamos para o capitão, Claudius ergueu um pouco o quepe da testa e sorriu, parecia estar bêbado ou a simpatia não lhe caía bem, sorriu enquanto fitava a todos. Claudius estava com as mãos na cintura, uma jaqueta azul e camisa branca, calças escuras e os sapatos encardidos de sempre — aqui não há guerra, é uma terra de gente pacífica, nada dos duros inverno da Deutschland. Talvez um dia” — “ele olhou para seu bisavô” — “Nicolau, me aposente e venha morar aqui, hum!hm!hm!”, “o capitão achou mais graça nisso do que nós, mas rimos. Ele olhou para as malas, o baú e os sacos — Valim, que sabe um pouco de português, desceu ao porto — e olhou para o porto enquanto mexia num dos bolsos da jaqueta — lá, lá-está-ele! — “olhamos para ver Valim, um baixinho e meio gordo, caminhando entre os alemães e outros que levavam seus pertences pelo porto — Valim vai arranjar uma carroça, a um bom preço, por conta de vocês, claro, para levá-los até um conhecido meu — “ele olhou para o bolso da jaqueta e puxou um envelope, quando olhou-nos percebeu a surpresa em nossos rostos! Quem imaginaria um gesto destes vindo de Claudius, o mercenário?!” — Eh!eh! éééé... tome Nicolau, entregue esta carta a Hans Dusseldorf. Ele trocará o dinheiro de vocês — franziu as sobrancelhas ao mesmo tempo em que esticou a mão diante do rosto e afastou-a para a esquerda — não se preocupem! — “ele disse isso com tamanha ênfase que fomos incapazes de dispensar o favor”, dizia meu avô — com esta recomendação ele será honesto com vocês, dirá como chegar até a estação de trem e dará indicações de como chegar ao destino de vocês, ele sabe tudo! — “estendeu a mão esquerda para o lado, dando-nos passagem em direção à rampa. Foi a única vez que vi aquele homem ser gentil; o sorriso e as rugas do rosto dele, sob a luz da manhã, demonstravam sobriedade, em seus olhos, havia satisfação. Este gesto causou uma boa impressão a todos, mas eu me perguntava o porquê daquela atenção” — Ah! Karl! Karl Andersen! — “ele voltou-se para mim, a satisfação em seus olhos fora substituída pela sinceridade” — boa sorte nesta nova empreita! espero que possa encontrar seu irmão — “Claudius sorriu e concordou com um movimento de cabeça. Imaginei que aquelas cortesias, tão afetadas quanto inabituais para ele, eram em consideração a Christian. Claudius estendeu-me a mão robusta, apertei-a. Nicolau esperava-me para descer a rampa, os meninos se divertiam levando nossas bagagens para o porto”.
— Vladimir, Otto e Henrik — “explicou-me Jerônimo” — eram da mesma idade, mais ou menos 15 anos, e ajudaram os marujos com as bagagens. As crianças reclamaram a viagem inteira! 40 dias e 40 noites! da comida ruim, das instalações, da sujeira do navio! Mais, mais de um mês no mar! entre polacos fedidos, portugueses estúpidos, que arrumavam briga por causa dos seus tonéis de azeite, carga aqui, mais carga lá, um galinheiro mal cheiroso... às vezes, meu avô dizia que encontravam galinhas no convés, e ai de quem pegasse uma delas! Eram todas do capitão! O único divertimento das crianças era andar de um lado a outro do navio. Johann e Albert, meu pai, não, só choravam e ficavam agarrados à minha ‘vó o tempo todo... o Johann talvez já sofresse da tal doença, que não foi diagnosticada a tempo, quando chorava daquele jeito. Nessas andanças, os meninos fizeram amizade com os marinheiros, fizeram amizade até com Kirsch! — “Jerônimo parou de falar e olhou para o lado” — eh!eh! depois que o Kirsch foi preso meu pai e os outros meninos ficavam pensando como teria sido o fim dele! Bem, na rampa, seu bisavô perguntou ao Karl “o que ele lhe disse Karl?”.
— Desejou-nos boa sorte e que eu encontrasse meu irmão.
— Eles se conhecem?
— Pensei ter falado para você. Christian foi marujo do Kérberos — “Nicolau não deu muita importância a isto, observou os passos que dava na rampa, que rangia ao descerem por ela. Olhou para trás, “este navio é a Alemanha, Alemanha que deixo, é uma ironia: deixar a Alemanha num navio chamado Kérberos”, Nicolau olhou para a água azul-escura que batia no casco rangendo, “por vezes, a ousadia é um ímpeto de ignorância”. Lembrou-se do dia de seu casamento, “todos rindo! Cumprimentos e mais cumprimentos, Iolanda, ah! Iolanda estava feliz! Havia luz em seu rosto, em seus olhos azuis!”, observou a luz refletida na água, “estava lá também aquele meu tio que enfrentou os poloneses. Ele foi um herói, um herói alemão!”, olhou para o porto, para tanta gente, suspirou, “não sou como ele”, sentiu-se só, ele e seus ideais em cacos, “de todas as dores, as piores são as sofridas sozinhas”. Claudius voltou-se para os marujos que se atrapalhavam ao desembarcar uma caixa de madeira grande, enquanto descíamos a rampa, ouvimos o capitão gritar eles, os marujos”.

Capítulo 004




revisto - 31/01/10

"Com o passar do tempo, surgiram dúvidas sobre a imigração de meus bisavós que minha ‘vó não sabia responder, e quando tentava, era com suposições do tipo: ‘tinh’um-imão-dele... ma’eu-era-muito-pequena, não-lembro-direito’, ou relatos imprecisos como ‘ach’qu’era’ssim...’ Certo dia, estava na sala, deitado no sofá, minha mãe e ‘vó Olga, quase cochilando, n’outro sofá, assistindo à TV".
— Ah mãe! O Natan falou qu’o Jerônimo foi lá na loja ontem e...
— Jerônimo?! — Olga ergueu a cabeça e franziu as sobrancelhas — Que-Jerônimo?! N’um-conheç’nenhum-Jerônimo! — "o Bart não tinha um amigo..."
— A-ah-mãe! Claro que conhece! O Jerônimo neto do tio Karl!
— Ah! Ele...
"Dei um pulo no sofá e sentei, minha mãe e ‘vó Olga olharam ‘ssustadas p’ra mim, acharam qu’eu ‘tava passando mal"
— Neto-do-tio-Karl?! Karl-Andersen?! Que trouxe o ‘vô Nicolau p’r’o Brasil?!
— É — "o que deu nele?".
— N’um sabia que tinh’um neto do tio Karl morando ‘qui em Itapê!
— Ele não é do seu tempo Mond, deve ter quase a minh’idade — "disse minha mãe"— mas por que esse espanto todo?
— Ele sabe a história da família? De como o ‘vô Nicolau veio d’Alemanha?
"Minha mãe olhou para a ‘vó, ela estava de braços cruzados, com uma das mãos no queixo... ‘té minha ‘vó tem mais que’xo qu’eu!" — Sabe mãe?
— Sabe — "ela estava olhando p’r’o tapete quando respondeu, depois olhou p’ra mim — E sabe bem! — "mal-pude’creditar-cara!" — el’era curioso igual a você Mondrian, gostava d’ouvi’ as história’ do ‘vô dele, perguntava coisas p’r’os meus irmão’, ele preferia ficar conversando c’os mais velho’ do que ir brincar c’os outro’ menino’! A mãe dele sempre falav’isso.
— Ond’ele-mora?!
— Na João Evangelista — "disse minha mãe".
"Jerônimo Christian Andersen! Neto de Karl Andersen, o tio Karl. Ess’er’o-homem! Procurei pelo sobrenome dele na lista telefônica, achei o número e liguei p’r’ele, apresentei-me, falei que queria saber mais da história da família, bla-bla-blá. Combinamos uma noite p’r’eu ir à casa dele. Na noite combinada, fui até a rua João Evangelista, a casa dele era 3 quadras p’ra cima da praça Siqueira Campos. Ele esperava-me no portão, vestia calça jeans, camisa branca e um casaco azul-marinho.
— Com licença, o senhor é o Jerônimo Andersen?
— Você é o Mondrian? — "estendeu-me a mão, apertei-a" — é um prazer. Vamos entrar — "assim mesmo, bem seco e rápido: É-um-prazer! Vamos-entrar. Achava que ia’ncontra’ um alemão de 2 metros, mas não, Jerônimo é um pouco mais baixo qu’eu, cabelos escuros, lisos, bigode, usa óculos de grau, ach’que tem uns 5 graus de miopia; à primeira vista, reparando nos óculos e no bigode, fez-me lembrar de Joyce, James Joyce! Eh! êh! Stephen Dedalus encontra James Joyce! Até onde a literatura vai e onde começa a vida real? Atravessamos uma varanda cheia de plantas, ele... taciturno, eis-a-palavra! não olhava para mim quando falava, isto deixou-me pouco à vontade, para distrair, comecei a olhar as samambaias e avencas; uma boa casa, que chama minha atenção não é de hoje, mais um modelo para o projeto da minha casa ideal".
— Então — "fez uma pausa" — você é neto da Olga?
— Sou. Minha mãe é a Stella — "ele concordava com leves movimentos de cabeça" — meu pai é o Natan, filho do Ladislau...
"Fez um movimento brusco com a cabeça" — Ladislau? — "virou-se lentamente tentando examinar meu rosto".
— Ah! — "senti meu rosto corar, corar? isto-so’estranho!queimar!" — Saratoga! ‘vô Saratoga — "que chato, já na apresentação um engano deste! O que ele poderia achar? Que era um golpe? Que eu era um bandido?! escapou-me um riso sem graça" — Todo mundo conhec’ele por Saratoga n’é?!
"Jerônimo olhou para mim por sobre os óculos e sorriu" — E não é de hoje! — "ainda sorrindo, olhou para frente" — Há muito tempo não ouço alguém chamá-lo de Ladislau — "voltou-se para mim" — conheço seu avô bem antes de você nascer, do tempo em que tinha aquele velhinho que era sócio dele...
"Ah!Ist’eu-sei!Vam’vê-qu’ele-acha!"— O-tio-De’teronômio-véio!
"Jerônimo, com uma cara de espanto e tentando segurar o riso, olhou para mim" — lembro-me que era um nome diferente, bíblico, achava que era Melquisideque.
"Eu não aguentei, parei e coloquei as mãos nos joelhos" — Áhararará! — "Jerônimo riu também" — Melquisideque! Áhararará! Mas-é-ainda-pior!
— Nu-Nunca, ah! ah! ah! soube de ninguém chamado assim — "olhou para mim" — como era mesmo o nome dele?
— Deuteronômio! Áhararará!
— Nem ele chamava seu avô de Ladislau, ah! ah!
"Continuamos em frente, passamos por um corredor, entre o muro do vizinho e a casa, iluminado em parte pela luz da janela da sala, atravessamos um jardim, uma pintcher preta apareceu latindo e veio em cima do meu pé, Jerônimo parou".
— Bia! Passa-Bia! Passa-já! — "olhou p’ra mim" — ela só late — "continuamos a caminhar pelo jardim".
— Então o senhor...
"Jerônimo interrompeu-me" — Chame-me por você — "enquanto observava-me, concordei com um movimento de cabeça" — Então você — "estranh’fala’ssim!" — é neto do Karl, o tio Karl que minha ‘vó tanto fala!
"Ele olhou para frente, concordou com outro movimento de cabeça" — Vovô viveu mais próximo do pai dela, — "virou-se p’ra mim, tinhamos chegado ao quintal. Estávamos diante de uma edícula" — seu bisavô, Nicolau Zeiller — "é’sse-é-o-home’!sabe-tudo-da-família!!!" — do que dos irmãos naturais dele — "ele fitou-me por um instante" — tornamo-nos uma só família — "então virou-se, destrancou a porta da edícula, abriu-a, entrou e acendeu a luz. Esperei um pouco, estava comovido com aquelas palavras: somos uma só família! Os Zeillers e os Andersens! respirei fundo, também podiam significar: bem vindo à casa filho! olhei para o lado, cara! é isso! respirei fundo novamente, sorri, depois segui-o. Entrei numa sala onde havia estantes de metal repletas de livros, brochuras, pastas plásticas, maletas velhas, uma mesa com calhamaços e outros objetos, três cadeiras estofadas, uma mesinha com um PC e uma impressora matricial, tudo limpo e organizado, meeeuuu! um dia quero tê’ um escritório assim, imprescindível no meu projeto de casa ideal! Jerônimo sentou-se numa cadeira estofada em frente ao computador, cruzou as pernas, indicou-me outra cadeira, depois colocou o braço sobre a mesa".
— Meu avô nasceu em Frankfurt, em 1875 — "percebi que Jerônimo falava com respeito do avô, parecia ter cultivado uma disposição d’espírito p’ra se referir ao alemão, um formalismo solene" — conheceu Nicolau Zeiller em 1894, quando trabalhava na Krupp, em Essen.
"1894! Essen! Minha mente voltou no tempo".
— A fábrica de armamentos! — "lembrei-me de Os Sertões" —Na Guerra de Canudos foram usados canhões Krupp! A Matadeira!
"Jerônimo sorriu e concordou com um movimento de cabeça" — Isso! E na 1ª e 2ª Guerras também. Meu pai chama-se Albert, nasceu em 1907, papai veio com meu avô da Alemanha em 1915.
— Uma coisa Jerônimo, que sempre pergunto p’ra minha ‘vó e ela não sabe responder é: por qu’eles vieram p’r’o Brasil?
— Meu avô tinha um irmão — "lembrei-me das palavras de minha ‘vó, ‘tinh’um-imão-dele...’" — o Christian, Johann Christian Andersen, que, anos antes da guerra explodir, veio ao Brasil, e foi morar em Santa Catarina, em Blumenau; eles trocaram correspondência por muitos anos. O Christian falava muito de Blumenau nas cartas.
‘Blumenau lembra muito a Alemanha Karl’.
— Meu avô comentava com o Nicolau, seu bisavô, o assunto tratado nestas cartas, ele inclusive levava-as à casa do seu bisavô — "Jerônimo sorriu" — Nicolau achava que a Alemanha estava conquistando o mundo.
‘Há muitos dos nossos, trabalho, clima quente e todos falam alemão aqui’.
— Meu avô ficou entusiasmado com o Brasil, foi através das cartas do irmão que ele começou a pensar em vir para o Brasil; anos antes da guerra a tensão tinha aumentado, a guerra era questão de tempo.
"Cara!que’rrepio! conhecia’ssa-parte!"
— Aquelas histórias de "Grande Alemanha", "Uma Alemanha para todos os alemães", inflamou os ânimos; protestos, atos pró-guerra foram feitos em Essen, Frankfurt e Berlim.
‘No Brasil não tem nada disso!’
— Meu avô pensou em montar uma metalúrgica em Blumenau. Pensou também que Nicolau poderia ajudá-lo nisso. Pensou que poderia livrá-lo também da guerra. Então, lá por 1914, pouco antes da guerra explodir, ele disse ao seu bisavô: ‘Nicolau, tenho um amigo que é capitão de um navio, estou negociando com ele uma passagem, para mim, para Elsa e as crianças, para o Brasil...’, Nicolau não o deixou terminar de falar, ‘O-quê?! que loucura é esta Karl?! Isto é um insulto ao sonho da Grande Alemanha! Você está alienado! Foram os espiões estrangeiros que perverteram sua cabeça!’
‘Você é alemão!’
‘Vai abandonar o que conquistou aqui Karl?! todos esses anos de luta, aqui, aqui é a terra de seus avós, seus pais, é aqui que você deve ficar!’.
"Jerônimo observou-me por alguns instantes".
— Nicolau sentia que a insatisfação crescia por todos os lados, mas achava que tudo iria passar, se houvesse guerra, ela não duraria muito tempo. Em vão Karl insistiu, Nicolau tomou aquilo como ofensa, não queria mais vê-lo, meu avô não voltou mais à casa do Nicolau. Poucas semanas depois, ‘nigro notanda lapillo’, dizia meu avô quando se referia àquele dia, um operário chegou correndo ao barracão onde meu avô trabalhava gritando ‘assassinaram o arquiduque em Sarajevo!’, todos pararam e olharam para ele, ‘a Áustria está acusando a Sérvia’, os operários entreolharam-se e começaram a falar ao mesmo tempo, alguns dias depois, a guerra explodiu. Meu avô comprou as passagens para o Brasil, ele, Elsa e os filhos ficaram aguardando um sinal para embarcarem. Todos achavam que tratava-se de uma blitzkrieg, esta suposição tomou ares de verdade quando os alemães chegaram a 50 km de Paris. Entretanto, isto não tardou a mudar. Aquela não era uma guerra como as outras, ela revelou-se muito mais difícil do que se imaginava. As imensas baixas vieram comprovar isso. Uma incerteza assustadora de repente despencou sobre todos, era então guerra de todo lado!
"O cara sabia muito mesmo! Jerônimo olhou para baixo e continuou".
— A data do embarque foi adiada várias vezes, a guerra tinha causado reflexos no transporte marítimo, meu avô ficou preocupado em perder o dinheiro, e o que era pior, ser convocado para lutar. Neste ínterim, um dia, meu avô surpreendeu-se em ver Nicolau, imóvel e silencioso, na varanda da casa, ‘Karl! que alívio encontrá-lo!’, ele percebeu — "depois ele disse-me que foi assim mesmo que seu avô lhe contara:" — ‘por detrás do modo frio com que Nicolau falava, o medo, sob a polidez excessiva, a insegurança, nos olhos, a tristeza, a sensação de já ser tarde demais para se fazer alguma coisa’.
‘Os sonhos são diferentes da realidade...’
— Ele tentou concluir. Meu avô imaginou, como contou depois, que alguma coisa tinha acontecido.
‘Franz foi pego no front...’
— Ele não teve coragem de continuar, do bolso da calça, Nicolau puxou "a carta". Karl ficou olhando para ela alguns instantes.
‘Errei em não acreditar em você...’
"Cara!eu’stava’arrepiado!não-tinh’com’não-se-comove’!inspira!inspira! imagine fazer um filme disto!"
— Dito isso, Nicolau abandonou o corpo ao banco de madeira da varanda, escondeu o rosto e chorou, desesperado. Meu avô ficou muito abalado também. Sem pensar nada ou medir esforços, disse: ‘Vamos fugir daqui Nicolau, vamos levar nossas famílias para longe! Para o Brasil!’. Nicolau não lhe deu ouvidos, praguejou contra a Alemanha, ele era presa da dor, inefável, causada pela perda do filho — "Jerônimo calara-se, tinha se emocionado com o relato, mas não queria deixar transparecer isto diante de mim, novo de casa. Só vim a compreender sua comoção anos depois, e então as alterações em sua voz, os olhares furtivos e a respiração ofegante e mal dissimulada fizeram sentido. Ele umideceu os lábios com a língua antes de continuar — Para meu avô, "Brasil" tinha se tornado sinônimo de esperança, Nova Vida, e durante muitos anos depois disso, em sua longa jornada por estas terras ignotas, ainda o foi, até ele morrer, em 1965.
"Parecia qu’estava numa peça-de-teatro, e era minha vez de falar".
— E-estamos prontos Karl... — "arrisquei, lembrando de um fragmento desta cena lembrado por ‘v’Olga. Jerônimo, admirado, ergueu a cabeça e fitou-me com um olhar de aprovação" — não nos resta mais nada aqui...
‘Muito bom, moço!’ — Exato — concordou com movimentos de cabeça — exato Mondrian — "acertei-cara! sorri satisfeito comigo mesmo!" — foi isso mesmo que seu bisavô respondeu. Meu avô disse: ‘há famílias que perderam todos os filhos nesta maldita guerra’, Nicolau interrompeu-o, ‘não quero perder mais nenhum filho’. Meu avô sorriu, segurou firme no ombro do seu bisavô, ‘escute’, meu avô representou esta cena para mim Mondrian! — "Jerônimo já não se esforçava por conter a emoção que aquilo lhe dava, percebi cara! percebi isto!" — meu avô disse a Nicolau, ‘conheço Claudius, o capitão, há muito tempo... ele... ele pode arrumar mais passagens...’, Nicolau riu timidamente, tentando esconder, mas riu aliviado.
‘Vi uma luz naquela escuridão, abençoado seja esse capitão Claudius!’
— ‘Muito bem’, disse meu avô, ‘é preciso que Claudius saiba disso. Dinheiro? você tem dinheiro guardado? Claudius exigirá um bom pagamento’. Nicolau ofereceu todas as economias dele para comprar as passagens, mas a procura aumentara, e Claudius elevou o preço das passagens, muitos queriam fugir da guerra, o risco de transportar passageiros num navio de carga também. Seu bisavô foi obrigado a vender a casa, por um valor mais baixo, dar quase todo o dinheiro, juntamente com as economias que ele tinha oferecido, a Claudius.
— Minha ‘vó conta qu’ele quase desisitiu do negócio...
— Contou também que o irmão dela, Hans Zeiller, fora convocado também?
"Fiquei assustado em saber disso, e ao mesmo tempo excitado, cara! era apenas a ponta do iceberg que conhecia desta história!" — E-ele não confiou em Karl?! — "Jerônimo fez um movimento com a cabeça negando".
— Ele ficou revoltado com o que Claudius pedira, mas, depois que Hans foi convocado, ele pagou sem pensar duas vezes. Três dias depois, numa noite chuvosa, eles embarcaram no navio de Claudius, Claudius Von Scheifner, o capitão, que estava sempre preocupado com "as autoridades".

Capítulo 003





revisto - 16/11/09

Olga pisca os olhos e mexe a cabeça, "dia triste, credo!", vira-se para Mondrian, sentado à mesa, do lado da parede:
— Eh! eh! vai toma’um cafézinho béééémm gostoso co’a ‘vó Olga hein?!
Mondrian, que olhava para o armário à direita, volta-se para a avó, sorri-lhe — hã-rã! — "ah! Vó! V’Olga!"
— Eh! eh! menino lindo! — ela inspira sonoramente pelo nariz, olha para a mesa, está posta para o café da manhã, "onde’stá-o-véio-co’pão?".
Olga é uma senhora de estatura mediana, cabelos loiros, "lindíssimos-cabelos-lisos-e-loiros! E’u-co’esta-drog’de-cabel’enrolado!", esbranquiçados aqui e ali, "até hoje’la não tem muitos cabelos brancos", usa-os presos em pitote; os olhos, "azuis-com’o-céu-sobre-Deutschland! gostaria de mirar o mundo com olhos-cerúleos-germânicos assim!", cintilam por detrás das lentes bifocais. O rosto se aconchega nos contornos engordados pela idade, "que realçam a expressão bonacheirona de seus sorridentes olhos" — à sua memória vem a foto de Olga moça, "curioso", ele compara-a com a imagem da Olga que conhecera, "ach’que quando ela é tocada pela... altivez-ach’, al-ti-vez! Isso! um frescor da beleza que’la, um dia possuiu, se recupera por instantes... caaara-que-lo’co-iss’! A altivez restaura a beleza perdida... hum, isto me lembra Proust. Notei essa ‘restauração’ certa vez, quando estávamos no portão de casa, enquanto ela conversava com o seu Aníbal". Olga é uma mulher robusta, de quadril largo e pernas grossas, costuma andar de chinelos de vão de dedo; neste dia, além do calçado habitual, está usando um par de meias escuras, um vestido azul-marinho com detalhes em azul-claro, "que-a-véia-tem’té-hoj’e-não-dá-não’mpresta-não-vende-p’rá-ninguém! é que nem o Vicente Matheus: ‘o Sócrates é invendível, inalugável e imprestável’", por sobre o vestido, um casaco de lã lilás, que desce até o quadril, "e esconde a bunda enorme ah!ah!ah!foi-mi’a-mãe-que’disse!" — lembra-se de Stella rindo depois de ter dito aquilo — e as mangas avançam até a palma das mãos, "cheio-cheio de bolinha! Ess’mi’a-mãe-consegui’dá’fim!".
Olga volta a observar as roupas no varal, "tomara que seque co’vento" — ach’ que seu ‘vô enrosco’ na prosa de novo... o Corinthians ganhou o jogo ontem, ‘magine se ele não vai comenta’ o jogo inteirinho lá p’r’os véio’ do senadinho da São João! — olha para a leiteira de alumínio onde ferve a água — você torce p’ra que time Mondrian? — e volta-se para o menino, que olha assustado para a avó. "Que perguntinha chata! eu estava observando as coisas da cozinha: o despertador fora-de-moda, vermelho-desbotado, sobre a geladeira, entre um rádio de pilha engordurado, que-quando ‘stava ligado tocava umas música’ sertaneja-lazarenta, e um pingüim de louça, abominável, segundo meu pai, daí, pumba! a perguntinha-chata! Fiquei uns instantes mudo". Olga continuava a fitar Mondrian, "ai!ai! só falta ele dize’ qu’é corinthiano também!". O menino umideceu os lábios com a língua, "só se ouvia a água fervendo no canecão; nunca gostei de futebol! Quando estava na escola, passav’um-apuro-danado-ih! quando ‘queles moleques-fedidos-vileraiada perguntavam-me p’ra que time’u torcia... tinha que mentir-ué!"
— Ah! — "qual-é-o-problema-dize’p’ra‘vó?" — não ligo muito p’ra futebol ‘vó.
"Ahhh..." — faz-muito-bem! — ratifica o comentário com um movimento de cabeça, olha para a àgua fervendo, "já’stá-bom!", retira o canecão do fogo e despeja um pouco no coador cheio de pó de café, "eu achava que o coador era uma meia do ’vô-Bart!ah!ah!", enquanto o vapor d’água embaça seus óculos, "hummm!!!", ela inspira, "cheiro-gostoso-de-café-da-hora!", e sorri. Mondrian passa os olhos pela cozinha, olha para a janela, observa um canto onde a massa que segura o vidro está partida, "uma vez, antes disso, durante a Copa de 82, nos reunimos lá n’Os Tropeiros, eu-meu-pai-o’vô-o-tio-How-o’vô-Bart-tio-Frédão-e-não-sei-quem-mais p’ra’assistir a um jogo do Brasil, eu olhava p’ra todo mundo atento ao jogo sem entender a graça daquilo! eh!eh!eh! já na Copa de 86 eu me interessava mais, que-sofrimento-vê’o-Brasil-perde’nos-pênaltis-p’r’a-França!".
Olga despeja toda água do canecão no coador, ouve um barulho abafado no fundo do corredor, "chegô’de-fininho!", olha para o relógio sobre a geladeira, "8-e-15... e ele saiu daqui 7-e-meia!"
Mondrian nota que, não obstante o frio, Olga está de vestido, "daí eu achei estranho! Ué?! Será que’la não tem frio?! Eu estava de blusa de lã e ainda sentia frio! Tive vontade de perguntar, ela estava experimentando o café num copo, mas daí ouvi meu ‘vô-Bart pigarrear na sala, e acabei esquecendo". Enquanto Bartolomeu atravessa o corrredor, Mondrian observa o armário de 7 portas, vermelho, com uma vitrine de vidro corrediço, onde há copos de diversos tamanhos, xícaras, pires, canecas de louça (algumas com o emblema do Corinthians), saleiros, imagens de Nª. Sª. Aparecida, São Benedito, Santa Luzia e Frei Galvão. Olga coloca o leite para esquentar noutro canecão. Um senhor magro, de estatura mediana, de cabelos grisalhos, lisos, bigode esbranquiçado, olhos verdes e longas sobrancelhas surge na cozinha, com um velho chapéu preto de pêlo de lebre, casaco de lã preto, abotoado sobre a "modesta barriga, como o ‘vô dizia", e calça de veludo marrom, aos pés, sapatos pretos desbotados, trazia um saco de pão no braço, olha para Mondrian e sorri — já levantô’! —, e, ainda sorrindo, olha para Olga, "ih!conheç’sse-olhar".
— Foi busca’ o pão em Tatuí Bart?! — Olga faz movimentos circulares com a mão que segura o copo de café. "O ‘vô-Bart fazia umas cara’engraçada quando a ‘vó dava umas comida-de-rabo-nele!", Bart solta as pálpebras até o meio dos olhos e empurra o bigode para cima com o lábio inferior, "eh!eh!eh!". Bart volta para o corredor, entra no banheiro, acende a luz, e deixa o chapéu num suporte fixado na parede.
— Você saiu daqui era’7-e-meia home’!
— Maaiii... — ele responde do banheiro, "qu’eu-falo?", volta para a cozinha — tinha-muita-gente-lá, lá-lá-na-São-João-Orga! — "começo’começo’!", coloca o saco de pães sobre a mesa, "se-deixa’ela-dispara-a-ladainha!’quele-monte-de-conversa-inútil-e-enfadonh’, uma matraca!", suspira, olha para Mondrian, "mai’já-do’m-jeito-nela!", pisca um olho para o menino, Mondrian sorri.
— Muito corinthiano ‘cê qué’ dize’! — toma outro gole de café, Bart pega nos lados da calça e puxa-a para cima, "o-qu’el’tem-contr’o-timão? velha-rabugenta!", ele olha a caneca de leite no fogo, "mai’ ela ‘squece fácil-fácil das coisa’...".
— Óóóó-o-leite-aí-Org’! vai-ferve’! — "Hã?", Olga vira-se para ver o leite, "quase bom", depois olha para a mesa e dá pela falta da "manteiga", em verdade, a margarina.
— Bart-faça-o-favor, pegue a mante’ga na geladeira — Olga vira-se para ver o leite e Bart vai até a geladeira pegar a margarina.
Mondrian olha para a imagem de Frei Galvão e nota que o formato elíptico do porta-retratos impresso parece o de algumas fotos que há na estante da sala, "era lá que ficavam aqueles porta-retratos... meu! quantos! o impulso de perguntar foi mais forte que a contemplação" — Ô’vó! de quem são aquelas fotos lá na estante?!
Bart, com o pote de margarina na mão, diante da geladeira aberta, olha de soslaio para Olga, "ela já ‘squeceu!", olha para a geladeira e fecha-a, "já‘squeceu! graças-ao-bom-pai!".
— De quem são? — "o leite já ‘stá bom", apaga o fogo e leva o canecão à mesa, Bart, sorrindo de boca fechada, senta-se à cabeceira da mesa de 6 cadeiras, atento ao que Olga fala— são dos seus bisavós e tios-avôs que vieram da Alemanha, dá sua xícara que a ‘vó vai coloca’ o café p’ra você.
"Lembro-me de certa vez em que parei diante da estante, a sala estava vazia, passei os olhos, apreciando, tentando reconhecer as pessoas, os lugares nas fotos, reconhecera minha ‘vó, mais nova, mas as outras pessoas nunca tinha visto. Eu era pequeno ainda e a estante parecia tão grande! retângulos de madeira com fotos preto-e-branco, gente-lívida-que-nunca-vi-olhando-me, mudas, olhos! brancos-e-tristes-olhos-sobre-mim! Plásticos-vermelhos-enfeitados, já sem brilho, para fotos maiores, tentando alegrá-las". Mondrian inspira, ergue o tronco, olha as casas à sua direita, a rua e outras casas, "aquela realidade era distante, diferente para mim, mas desejava conhecê-la, descobrir a relação daquelas pessoas comigo".
Mondrian entrega a xícara para a avó.
— D’Alemanha ’vó?! — "eh!eh!êh! Fiquei‘mpressionado-co’aquilo! Uma vez, ainda pequeno, perguntei ao meu pai: onde fica a Alemanha?, ‘na Europa’, e que tamanho ela tem?, ‘mais-ou-menos o do estado de São Paulo’, Mondrian observa a avó colocar o leite em sua xícara — iii... por qu’eles vieram de lá?
— ‘tó querido, cuidado que ‘tá quente — disse Olga ao colocar a xícara de café-com-leite diante do menino, ele agradece com um movimento de cabeça, "e a história ‘vó?!", Olga senta-se à mesa e abre o saco de pão — Ô Bart — tira um filãozinho e entrega-o para Mondrian.
Bart engole seco, "ai! Lembrô’!" — Hein-Org’? — "qu’eu falo agora...", Olga coloca um pão em frente a Bart e arruma-se na cadeira.
— O Mondrian — e olha, por sobre os óculos, para Bart, as sobrancelhas dela estão arqueadas, um sorriso esboça-se em seus lábios — ‘tá querendo saber por que meu pai veio da Alemanha — ela olha para a xícara dela, onde coloca café no leite.
Mondrian olha para o avô fazendo "sim" com um movimento de cabeça.
Bart olha para Mondrian e para Olga, "Achei-qu’ela-ia-começa’tudo-de-novo mai’..." — Bo-boa idéia! — "ich’não!", ele vê Olga franzir as sobrancelhas, "q-quero dizer..." —Conte p’r’ele Orga — ela sorri e concorda com um movimento de cabeça, "daí eu tomo meu leitinho-quentinho-quietinho’qui" — eh-eh! conte — Bart vê Olga, sorrindo, olhar para o menino, Bart ergue levemente os ombros e, com sarcasmo, diz — tudinho... — Bart olha para Mondrian e pisca-lhe um olho, Olga volta-se para o pão onde passa a margarina.
— A guerra acabou com a vida deles lá Mondrian — ela pega a xícara, leva-a à boca, sorve um gole de café com leite, "o café ficou bom".
— Guerra?! — "eu bebia o café sem tirar os olhos dela!".
Enquanto caminha para casa, Mondrian observa, à sua direita, os arbustos do jardim de uma casa; ao fundo, uma varandinha iluminada, onde há um banco de madeira, próximo à porta da sala, "com uma janelinha p’ra espia’ quem está no portãozinho. Numa varandinha’ssim me sentaria e leria um livro inteiro... durante uma agradável tarde", da janela da sala vem uma luz, "talvez a casa de meus bisavós na Alemanha fosse assim, quem passandinho fosse e olhasse a janela veria o fogo da lareira aceso".
— Que guerra foi essa ‘vó?
— A de 14.
Bart sorve seu café calmamente, "êta-cafezinh’bão!", olha para o bule de café sobre a mesa, "s’o Jagüira-camisa-nove não tivesse perdido aquela bola, passou-feit’um-frango no meio das perna’ dele! Não‘tava-ne’mpedido! O-que’le-pensou?! Na boca do gor, gole’ro não pegaria’li um chute-bem-dado-no-canto-do-gor, seria mais um golaço em cima do São Paulo p’ra’ntupi’quele-técnico-bocudo-deles: ‘é-num-sei-o-quê-lá-por-qu’isso-não-pode-por-que-põe’vááá-cagá’!". Coloca na boca o último pedaço de pão, observa que Olga não pára de falar.
— Meu pai, seu bisavô Nicolau, Nicolau Zeiller, e sua bisavó Iolanda, perderam 1 filho na guerra, Franz, meu irmão mais velho, foi a-gota-d’água p’r’o meu pai "acordar" daquelas histórias de "Grande Alemanha", "um-só-povo-alemão" e fugir de lá, a vida de Hans, Wilhein, Vladimir, Otto, Ingrid e Helen era mais importante que a "Grande Alemanha" — Olga olha para a parede em acima do menino, à sua mente veio a imagem do irmão que conheceu através de fotos, a dor e o desespero no rosto de sua mãe, que Olga flagrou várias vezes e o ar triste, avoado, sempre longe do Nicolau, que nunca terminava de contar como eles fugiram da Alemanha.
Bart percebe que Olga parou de falar, "eh-eh!Vô’cutuca’a-onça-com-vara-curta" — Org’, me dá mais um filãozinho-sim? — "Oscarzinho-camisa-sete‘infalível’ comprou briga com o Moacir-do-São-Paulo: foi entra’ de carrinho nele daquele jeito, infalível-cabeça-de-bagre! Por quê?!Por quê?! O juiz foi lá e toco’um cartão’marelo-nele" — ‘brigado Org’ — ele nota que a mulher sequer olhou para ele ao entregar o pão, "sempre acha ruim que’u coma mais de um... então vou comer mais um ainda! Maaaiii... se não tivesse saído o terceiro gor a coisa ia ficar preta! ah-ia!"
Olga engole o pedaço de pão-com-margarina que mastigava e toma um gole de café com leite, "a ‘vó fazia umas pausas enquanto contava aquela história", olha para Mondrian — meus irmãos, meu pai ‘tavam entusiasmado’ com as história’ da Grande Alemanha, fizeram uma festa quando Franz foi convocado para a guerra, quem me contou isso foi sua bisavó... ela nunca entendeu o porquê daquilo. No dia da partida dele, minha mãe estava desesperada, ela e meu pai acompanharam o Franz até o portão, eles se despediram, depois, Franz voltou-se para meus irmãos, eles estavam na porta da casa, acenaram p’ra ele, daí’le foi, muito contente com a farda nova, para ele aquilo era um passeio no campo, ele desapareceu no carro, naquela estrada-triste-poeirenta para o nunca mais. Minha mãe deve ter sentido isso — Olga leva a xícara à boca, desvia os olhos de Mondrian — sentiu-sim! Minha mãe começou a chorar, não queria acreditar naquilo que sentia. Meu pai ergueu os olhos e viu a estrada-lá-longe, onde meu irmão tinha sumido, ‘a guerra não vai durar muito’.
"Uma casinha num campo, com um castelo ao fundo, vaquinhas pastando e moças-loiras-sorridentes com longos vestidos de camponesa, conversando sob uma árvore, olhando-olha! o soldado-belo-forte-alemão se despedindo dos pais para ir à guerra. A’lemanha-vai-conquistar-o-mundo! Papai-e-mamãe o abraçam, ele pega seu mosquetão e diz adeus".
Bart pigarreia, "e quando saiu o terceiro gor? Daí os’ão-paulino ficaram deseperado’! no segundo tempo?! ‘acuda!acuda!’ Ninguém esperava o Jagüira-camisa-nove-ali-de-novo, lindo!lindo! Ajeitou-no-peito-e-mandô’mandô’bunhito-a-bola-lá-lá-em-cima-no-gor! Não teve goleiro-nem-ninguém que segurass’... e o Rubão-caipora-lá-na-padaria diss’ que qualquer um faria, fari’o-cu-dele! fari’o-cu-dele’sso-sim!"
— Meu pai — continuou Olga — trabalhava numa fábrica de armas, ele achava que a Alemanha já tinha arma’ suficiente p’ra vencer qualquer guerra, a Alemanha ia vence’ a guerra, os alemães iam ter uma única Alemanha, todos iam fica’ bem, er’o-que-todo-mund’dizia — ela toma mais um gole de café
"Fui ‘sfregan’o as mão’ daqui ‘té a São João hoje cedo! ah!ah! Mal pudia espera’ p’ra ver as cara’ daqueles-fro’xo’: ‘o Corinthians não tem chance’, não-é?!Não-é?! Olhei p’ro céu, pelo meio daqueles galho’ seco das árv’re da rua, parecia tanto galho, e o céu-eu-vi, era ‘quele céu-limpo-gelado-de-inverno, fui pela Francisco Válio como sempre, p’ra ver as mocinha’indo-p’r’escola! Ah! As moça’! Quando vejo elas ‘lgumas me olham... hum! Olham como se’u foss’ o ‘vô delas! Que caralho! Por que’las não tentam me olhar’ssim’ssim! Vend’o rapagão, rapagão-qu’eu-era? jogava futebor... Só ‘quelas-véia, de’zói’esbugaiado-peito-caído-20-ano’mai’velha-qu’eu-me-o’iam‘ssim! Véia-de-peito-caído já tenho em casa! A-lá!a-lá!a-lá! As-mocinhas!Vêm-vindo!Rapagão-então!Andar-de-jogador! Duas morenas e a loirinha no meio, no-meio-da-loirinha... nem olharam...". Bart contina caminhando pela calçada, suspira, "hoje vai dar sol, mai’ o-frio-vai-continua’, não-quero-nem-sabe’de-banho! Nêêm que me dêêm o bilhete premiado da loto!".
— Meu pai acompanhava a guerra pelos jornais: os soldado’ invadiram tal lugar, outro lugar, inimigo’ cerca pela frente, dos lado’, a guerra estava aumentando, complicando... cidades sendo destruída’, muitos, que não tinham nada que ver co’a guerra estavam morrendo por mosquetão, metralhadora e tiro de canhão... — Olga olhou para o rádio, sobre a geladeira — e os soldados alemães também... Minha mãe contava ‘os boatos na feira! semanas depois do começo da guerra, as convocações, convocações?! Sim! convocações-em-massa! continuavam! Por quê?! Por quê?! A morte encontrou os soldados no front, ‘é-um-pesadelo!A-coisa-é-p’ra-valer-mesmo!’ ‘Ai-meu-Deus!Meu-Deus-o-Franz!’, foi ficando tudo difícil, ‘os preços das coisas, quando ainda eram achadas, tinham aumentado!’ O meu pai começou a sentir que tudo aquilo que tinha conquistado estava ameaçado, que o preço para criar uma Grande Alemanha seria muito alto.
Bart olha para o forro de madeira da cozinha. "Lá estava’ o Orlando-Amoreira-fiel-contente-ma’nem-tanto, ele queria-porque-queria que o Zíglio-camisa-três tivesse feito um gor, prantado do lado do balcão, com os pés marcando 10-e-10, e-o-baixinho-mai’nda-ao-lado-d’Orlandão, o-Zé-Roberto-risadinha-eh-eh!, o quatr’ olho-tremede’ra-bebede’ra-Rubão-Costa que não sai do Fecha-Nunca, o-Mateus-beiço-doc’comedô que queria ir lá-em-casa-onde-já-se-viu?! ver o jogo’nte’, o-careca-mais-que-todos-chaminé’duardão-Mendes-cada-vei’mai’largadão,‘tava-de-chinelo-na-padaria! onde-já-se-viu! e-o-Popeye-Chicão-o-cospe-fogo?! ‘Hoje não tem p’ra são-paulino, parmerens’ ou santista! Tem alguns, que-nem-o-Saratoga, que-passo’como-que’não-que’nada-olhandinho-sempr’enfesado, viu a gente aqui e continuou, virou-a-esquina-foi-compra’pão-lá-na-São-Francisco!ah!ah!ah!’. Rubão-é-de-morte!Rubão-é! O’rlandinho‘tav’inconformado, o-balconista-magrinho-bobinho-que’güentou! Queria mais gor, ‘mai’uns-3-em-cima-do-São-Paulo!Lógico!Lógico!’, fazia ‘quela boc’caída’ssim enquanto olhava p’ra-todo-mundo-ali. ‘Ói, digo-p’r’ocêis! o Morumbi nunca viu jogão’ssim-hein?!’, ‘duardão ‘tava contente!’, ‘Ah! verdade-me’mo! nunca viu-jogão’ssim! é-ou-n’um-é-Bart?! Bartão-Bartão! fugiu-da-Orga-hoje-hein?!’, mai’que-raiva! Que-fugi’o-quê?!, Bart olha para a balconista, "mei’dúzi-de-filãozinho-e-doi’litro’de-leite" — Bart lembra-se do tema do Desafio ao Galo, que ele não perdia — "então que tal se..." — Bart imagina o Morumbi, "com-gente-e-gente-gritaria-festança-de-um-lado-a-outro, e uma banda, ói-a-banda-chegan’o-molecada! daquelas que’u corria p’ra vê’ quando era pequeno! com músicos de jaleco’ azur’, co’ detalhes doirado’, quepe’azur’tamé’m, calça’ vermeia’, tocando-p’ra-tod’o-mundo-ouvir o tema do Desafio ao Galo enquanto entra em campo o Timão!"
"Brasil-sil-sil-sil-sil!!!"
"Orlandinho-Amoreira-o-camisa-sete, Zé-Roberto-camisa-dez, sob aplauso’ das torcida’, Mateus-de-camisa-oito, ah!ah! acenando e mandando beijos, Eduardão-Mendes-artilheiro-camisa-cinco, Chicão-sempre-13!13! e o capitão, aplauso’assobios-histeria! o-camisa-três-Bart-Bartolomeu! a-lá! pose para foto! ‘Olha-lá!olha-lá!o-bigode!’, Rubão não perdoa! ‘tem-car’de-pa’rmeirens’a-lá!a-lá!ele-já-viu-a-gente!’".
Olga olhou para Bart, "‘gora-é-tarde!já-comi-3-filõezinhos! Depois qu’a balconista-mocinha entregô’s pão-e-o-leite ela sorriu... el’era parecida com a Stella, Stella-mocinha, ela cresceu rápido, quem diria que casaria c’um filho do Saratoga". Rubão deu-lhe uma cotovelada na barriga, estavam falando alto do jogo, ‘o-bigode-risonheta ‘tava ali-perto-pedindo‘mutzarela’:bate-na-cangaia-p’r’o-burro’ntedê!".
—E por qu’eles vieram p’r’o Brasil? — Mondrian pergunta, Bart e Olga olham para ele.
— Karl Andersen. Acostumei a chamá-lo de tio Karl, ele ajudou seus avós a fugi’ da Alemanha, se não fosse ele ach’que todos meus irmãos teriam morrido na guerra — lembra-se de certa vez em que Karl e Nicolau, velhinhos, estavam sentados num banco da praça Siqueira Campos — Karl e papai eram muito amigos, tinham se conhecido na fábrica de arma’.
"Por que eles vieram p’r’o Brasil! Nunca tinha pensado nisso! menino inteligente! E-com’é-parecido-c’a-mãe!"
— No final de outubro veio "a carta", comunicando a morte do soldado Franz, foi uma bomba p’ra eles... minha mãe conta que ‘Nicolau tremia com a carta nas mãos, ‘Io-Ioland...’, sua boca tremia enquanto as lágrimas iam escorrendo pelo rosto, barba dele, queria esconder aquilo, mas não teve forças, quando pensou em destruir aquela carta, minha mãe já estava lendo ela, meus irmãos e irmãs começaram a chorar, minha mãe apenas conseguia ler o nome do meu irmão e nada mais, a carta foi passando de mão em mão, liam-e-choravam, pobre Franz! caíra sob uma rajada de metralhadora, meu pai só conseguia enxergar o brasão alemão e "Ministério da Guerra", ela virou-se para o meu pai, ele parecia estar bêbado.
‘Nicolau!Poderíamos-ter-evitado-isso!’
— Meu pai olhou p’r’um lado, p’r’outro, abaixou a cabeça, ele tinha mais de 1,90m de altura, fitou o rosto vermelho e as lágrimas de minha mãe.
‘Ele não conseguia decidir mais nada...’
‘...a nossa vida... o mundo... chegou ao fim!’
— Minha mãe ficou olhando para ele durante algum tempo... via em seus olhos seus sonhos todos-todos indo, ele começava a sentir a dura realidade, não havia mais espaço para os seus sonhos.
‘Não existe nenhuma Grande Alemanha!!!’
— Meu pai soltou um hurro de dor, virou-se, derrubou uma cadeira, saiu p’r’o quintal com porta-e-tudo, não viu os degraus, tropeçou, caiu, no tombo ele bateu o nariz e começou a sangrar, minha mãe e meus irmãos foram acudir ele.
‘Me-larga!!!’
— Minha mãe e meus irmãos, assustados, se afastaram, ele levantou-se, c’os olho’rregalado’, olhava p’r’eles, p’ra casa, ‘tud’acabado... tudo-perdido!’, deu alguns passos p’ra trás, ‘eu ajudei a começar esta destruição!’, ele olhou para o lado da estrada, onde o carro que levara Franz tinha sumido, correu ‘té o muro do quintal, tropeçou, caiu de novo, levantou e olhou p’ra ‘strada.
‘Caro!caro-demais!não-vai’xisti’uma-Grand’Alemanha...’
— Ele olhou para o lado do barracão, foi até lá, minha mãe e meus irmãos, abraçados e chorando, olhavam de longe, meu pai achou marca’ de mãos de criança numa parede, ‘ele costumava brincar aqui quando criança! E agora está morto!’, ele beijou a marca da mãozinha, encostou o rosto na parede, começou a chorar e ajoelhar, ‘meu Franz!’.
Bart cutuca Olga com o pé neste momento, ela olha para ele sem entender, Bart franze a testa — assim você vai ‘ssusta’ o menino, olha a cara dele já! — Olga inspira profundamente, depois, olha para Mondrian.
— Papai e mamãe estavam sozinhos com sua dor, e mais notícias de morte, morte-e-destruição, chegavam da guerra, ‘onde está todo mundo? Karl, onde está Karl?’ Meu pai lembrou do tio Karl, foi na casa dele, encontrou-o no quintal.
‘Franz... front...’
— Meu pai não teve coragem de continuar, ficou olhando para o tio Karl alguns instantes, depois escondeu o rosto entre as mãos e chorou, chorou amargamente. Tio Karl pensou no pior, mas não acreditou, convenceu-se vendo o desespero em que se encontrava o meu pai, e também chorou, ele queria bem meu irmão como se fosse um filho dele! ele viu Franz nascer, crescer e desaparecer na guerra...
‘Maldita-Alemanha!maldito-Kaiser!até-quando-irá-essa-loucura?!’
— E meus outros irmãos? meu pai não queria qu’eles fossem p’ra guerra p’ra morrer. Co’os olho’em-ódio fechou a mão e jurou:
‘Nenhum-filho-meu-vai-morrer-nesta-ou-noutra-guerra-Deutschland!’
‘Vamos p’ra outro país Nicolau, vamos p’r’o Brasil!’
— Meu pai ficou quieto, soluçando, tio Karl esperava uma resposta dele, então ele olhou p’r’o tio Karl, ‘estamos prontos Karl, já não nos resta mais nada aqui...’
— Meu pai usou todas as economias, teve que vender a casa p’ra pagar a viagem até o Brasil. Fico’ caro, muito caro, ele quase desistiu, mas confiou em Karl, sacrificou tudo pelos filhos. Alguns dias depois, numa noite fria, seus avós, tios, Karl, Elsa e seus filhos estavam embarcando num navio p’r’o Brasil.
Eles terminam o café. Bart observa Olga, "a véia ainda vai te’ um xilique, as mãos dela já estão tremendo". Olga inspira e olha para o menino.
— Daí Mondrian, vieram parar aqui o meu pai, minha mãe, o Hans, o Wilhein, o Vladimir, o Otto, a Helen e a Ingrid, chegaram em Santos... é-Santos? Santos Bart? — Bart faz um movimento de cabeça em aprovação — eles foram p’ra São Paulo então, o Bartolomeu conheceu o lugar onde’les ficaram n’é Bart?
— É! Er’uma pensãozinha, ach’ que nem existe mais! era lá na Barra Funda.
— Daí Mondrian, eles-todos foram p’ra Blumenau, você imagine só Mondrian! Imagine-só! a alegria do seu bisavô de encontra’ outros alemães aqui no Brasil! de falar alemão e ser entendido! — "ele se irritava de tenta’ fala’ português e ninguém responde’" — ele que no começo não falava nada de português. Ele aprendeu, teve que aprender, em São Paulo porque em Blumenau ele só falava em alemão. Eles tentaram a vida lá em Blumenau, mas minha mãe não gostava de lá, ela ficava lembrando o tempo todo da vida deles na Alemanha, do Franz e da guerra. O único que gostava de lá era o tio Karl, mas depois que o filho dele, o Johann, morreu, o tio ficou desiludido, e decidiu vir com meu pai p’ra São Paulo. Isso foi em 18, quando a guerra acabou. Eles foram trabalhar numa fábrica que tinha muitos empregados alemães. Meus irmãos também trabalharam lá. Daí eles ficaram bem, foi nessa época que’u nasci, morei em São Paulo até os meus 8 anos.
"Eu estava fascinado com tudo aquilo, quando eu estiver bem rico, vou à Alemanha conhecer a cidade onde meus bisavós moravam! Pensava".
Minha’vó continuou:
— Quand’eu era menina, a fábrica onde meu pai trabalhava teve que fechar. Então eles vieram p’ra cá, porque tinha gente que pagava bem e era interessada no trabalho deles, e montaram uma oficina.
— Mas o que o ‘vô Nicolau fazia na oficina?
Minha’vó não soube responder, e olhou para meu ‘vô.
— Lá na oficina do seu Nicolau eles fazia’ motor de trator, ele, o Hans e o Wilhein, carretas, tinha também a parte de carpintaria, que o Vladimir fazia, lembro’ bem disso!
— E agora Mondrian, que você sabe toda a história, que tal ver as fotos da família? P’ra saber quem-é-quem?
"Eu adorei a idéia!" — Legal ‘vó!
"Bem pensado O’rg’", Bart olha para Mondrian, que se levanta e pisca-lhe, o menino sorri. Quando a avó e o menino sairam da cozinha, ele coloca mais um gole de café na xícara, "o-café’tá-muito-bom!".
"Por anos, fora esta versão que conheci da história".

Capítulo 001



revisto - 22/06/09

"Nublado, nublado e frio".
Mondrian observa o movimento das nuvens — lívidas — "e sobre estas nuvens há outras mais lívidas, por todo céu esta uniformidade cinzo-gasosa, densa, tão densa quanto uma vida inteira sob o olhar panorâmico no ocaso da maturidade, lamentando as oportunidades perdidas e ainda sentindo o fluir da vida já ameaçada pela proximidade inaceitável da morte! Incômodo cessar da especulação inerente ao humano, desamparado de qualquer conforto após alimentar uma duradoura simpatia pelo ateísmo. Há nuvens, por todos os tempos, silenciosas. E meu pensamento, claro, vasculhando em todas as direções num ímpeto de conhecer, ignorando se terá forças para levar a cabo descomunal tarefa, sensível aos significados das palavras, elas lançam luz à escuridão do não-ser-além-homem. Bem poderia compor, sim, compor é mais próximo do ofício, não como um dever mas uma idiossincrasia sem escolha do artista, idealizar, mais poético, uma poesia consistente, plástica ainda, pois as representações por este meio ainda me atraem não obstante eu ter abandonado a alma mater há tanto sonhada, e involuntariamente mergulhar no caos, nas incertezas pois suponho que não é do destino do homem topar com a singularidade neste campo. Estas reflexões, reflexões nunca escritas de Mondrian, sob estas mesmas nuvens caminhando pelo bois de Paris, no statu quo da 1ª Guerra indo ao encontro do consolo, e também desta ânsia latente de restauração que o homem busca nas religare, de ter vivido numa época passada num lugar mais afeito às coisas do espírito, um viver não mais maculado pela dureza das necessidades e misérias, eis outra pluralidade de tormentos que pesa no fado humano, além do legado da experiência artística, um viver, aos mortais permitido apenas o exercício da contemplação deste, transitando numa silenciosa orbe, pela lembrança dos contemporâneos e miríade imaginada, feito uma tradição oral a nós legada da noite dos tempos, em sua silenciosa viagem com destino ao esquecimento. Nuvens tristes, mas um sentimento suportado pelo sofredor... nuvens tuberculosas!", lembra-se de um fragmento de um solo de piano, ele vê um teclado surgir da escuridão tocado pelas mãos de um pianista, "Chopin", um retrato pintado deste, "figura soturna o polonês, cabelos longos, casaco pesado e olhar vago", olha para as nuvens, "noturnos de Chopin" — deve ser triste: — "sozinho a ouvir a chuva no telhado, assim que ele compôs algumas músicas", ergue o lábio inferior e as sobrancelhas, "não, talvez não seja tão ruim assim. Quem escreveu que a natureza nos dá forças para suportar as vicissitudes? não sei, acho que foi um romano. Mas acho que não é Chopin e sim John Cage, é daquele CD que tem a música para o piano de brinquedo, que ouvi na casa do Tales, mas a disposição para a melancolia serve para ambos. Cedo mais uma vez ao vício de concluir ao supor não se tratar de uma inclinação a tal estado de espírito mas sim relampejos de uma ulterior maturidade, a mesma que vejo estampada na seriedade de meu pai em seu esforço diário de resignação na loja de meu avô. É certo que ele um dia foi tão jovem quanto eu, a preferir a diversão e a piada ao fardo da sobrevivência, ou então a disposição para piadas seja um atributo da juventude e um dia também acabe, e reste o perene, universal e cotidiano desafio de afrontar a vida".
O vento frio se alterna com o chuvisqueiro, Mondrian franze a testa, pisca rapidamente e desvia o rosto — que tempo horrível! — "Itapetininga é mesmo uma highland, acabei de crêr...", volta-se para frente, percebe então as pessoas passando, a rua e os edifícios ao redor, "estava tão absorto nas minhas reflexões que ignorava tudo isto, parece um despertar", lembra-se que caminha para a editora onde trabalha, sente aborrecimento, "o homo theoricu cede ante o homo labor", olha os carros que passam, "as pessoas que vão ao centro da cidade se escondem nos Tempras, Vectras, Ômegas, com todos os vidros fechados e o som ligado; quem pode, fica em casa, na cama quentinha, embaixo dos cobertores, que delícia é acordar tarde nestes dias!", mexe a cabeça — e o Maldito Judeu... — "que entonação rude! foi sem querer, hã? cadê o involuntário tão bem considerado para usar há pouco nas reflexões?", suspira, "eis a resignação mutatis mutandis" — necessário à sobrevivência! — disse isso com uma raiva sem força, como um animal capturado, "aproveitando a deixa desta queixa, aah! ora-pois-lusitano! já tinha suspeitado disto quando usei alhures sozinho a ouvir, declarou:" — é uma delícia acordar às 10 horas todo dia vassalo! — "perde-o-amigo-mas-não-perde-a-piada!" — ah!ah!ah! — o riso dissipa o mau humor, deixa-o à vontade, mas o fruir do bem-estar é interrompido ao perceber que está caminhando pela calçada, "opa!verdade-cara!", olha ao redor, para ver se alguém o flagrou rindo e falando sozinho, "ufa! ninguém", sorri, "e-daí-se-alguém-me-flagrou-rindo? daí?!" — aposto que você ficaria sem graça se alguém estivesse vendo! — "é verdade cara!", dá de ombros, "usufruindo a solidão de estar entre as gentes!" Olha as pessoas, caminhando apressadas pela calçada, deste e do outro lado da rua, "os dias estão curtos para quem levanta-se cedo para trabalhar, agora estás-a-plagiar-Hesíodo-heterônimo!" — ah! — "os limpos dias de pouco sol e céu azul, típicos de inverno, há tempos não dão as caras, e as noites, frias e longas, me fazem pensar por que tenho que acordar cedo, levantar da cama quentinha e ir trabalhar, não sou tão pobre assim", tenta convercer-se desta afirmação, frusta-se, "pel’enésima-vez!" — o hábito de resignar-se é mais forte que a verdade — pressiona um lábio contra outro, olha para o chão, "meu pai não iria sustentar um artista anônimo, um, um dândi!", olha ao redor, tenta encontrar esperança, "mas ele também gosta de ler" — mas e o ‘vô Saratoga?! — mexe a cabeça em negativa, "eis o problema! detesta livros, quando meu pai morava com ele tinha que esconder os livros senão o ‘vô jogava tudo, sempre diz que nossa família nasceu pra trabalhar e não estudar! mesmo assim, meu pai e o tio Fausto conseguiram fazer faculdade, e eu não terminei a minha, ele não toleraria minha licença, cairia de pau no meu pai! vai-perde’dinheiro-com-ele-de-novo?!", olha para o chão, "o ‘vô já acha que artes plásticas, publicidade é coisa de viado...", inspira sonoramente — Maldita necessidade de trabalhar! — "bem que Kafka dizia que o mundo é uma colônia penal!" — Ah! que merda! — "o homem marcha inexoravelmente para o caos! e que adianta revoltar-me?!"
Mondrian desce do centro da cidade pela rua Quintino Bocaiúva, ele caminha alguns minutos aborrecido, sem conseguir chegar a uma conclusão, olha ao redor — quantos prédios antigos atrás dos postes elétricos — "a padariazinha escura, atrás do ponto de ônibus cimentado, pouco movimentada, nunca fui lá, qual é o nome dela mesmo? o prédio do século XIX, com seus arcos sobre altas portas, amarelo e branco, os arabescos, parece aquelas construções históricas de Portugal, na esquina da ruela-que-vai-lá'mbaixo... eu também nunca fui lá, é Vila alguma-coisa". Atravessa a rua, observa a casa da esquina — a casa de rico sempre fechada — "pelo menos", ergue os ombros, "vejo-a mais fechada que aberta", olha para o circular descendo a rua, "vai parar diante do prédio abóbora, na frente da mercearia do barbudo, ao lado das duas garagens... cara! que frio! que mão gelada!". O circular pára diante do ponto de ônibus, algumas mulheres obesas, com casacos de lã sobre blusões de moleton, com sacolas nas mãos, chamando as crianças que acompanham-nas e falando com alguém que ficou dentro, descem do ônibus, Mondrian, aproximando-se das mulheres e crianças, observa um homem de cabelos brancos, magro, de chapéu preto, óculos, bigode e cavanhaque brancos, vestindo um casaco de lã surrado e segurando um livro numa das mãos descer do circular, ao pisar na calçada, ele e Mondrian trocam um olhar, "ele tem olhos azuis", o homem toca na aba do chapéu e mexe a cabeça em cumprimento, involuntariamente Mondrian mexe a cabeça também, "eu o conheço? se o tio Franz não tivesse desaparecido na guerra talvez seria esse senhor... a-a! não exagere! quantos-anos-ele-deve-ter?75? Se o tio Franz estivesse vivo estaria com uns 100 anos", olha para o ônibus, que se põe em movimento, "e lá vai o azul-e-branco...", olha para as mulheres, que falam alto, e as crianças ainda no ponto de ônibus, "aliviado! continuar seu trajeto pra Chapadinha", olha para frente, o senhor abre o livro e caminha para a esquina, Mondrian lembra-se das suposições acerca da necessidade de trabalhar, dá de ombros, "não seja tão trágico!", e deixa-as de lado. O homem vira a esquina e sobe a rua Cesário Mota. Mondrian pára diante de um portão baixo, atrás do ponto de ônibus; as mulheres resolvem subir a rua Quintino Bocaiúva e chamam as crianças, que reclamam de fome e querem comprar doce na mercearia, para virem, ele abre o portão e sobe uma escada, olha para o outro lado da rua, observa o casarão em frente, "a sede da fazenda de antigamente, talvez fosse de um coronel apadrinhado pelo Júlio Prestes, no meio do que um dia deve ter sido um jardim, que agora é chão batido", lembra-se novamente do solo de piano, "agora que reparei: à esquerda, sob árvores, há um caminho, um-velho-caminho, que leva ao fundo do casarão". A escada conduz ao pátio do 1º andar, ele percebe que o chuvisqueiro parou ao olhar para o piso, ainda molhado, onde há desenhos abstratos feitos com cacos de cerâmica, no meio destes, ele vê uma data, final de 1974, "deve ter sido quando terminaram o prédio, o mesmo costume de colocar a data, 1917, por exemplo, no alto das fachadas das casas antigas... será que na fachada do casarão tem alguma data?", olha para as janelas e as portas que dão para o pátio, pintadas de verde-escuro, e o abóbora das paredes, olha para o muro e para as árvores atrás deste, ao fundo, o prédio amarelo de apartamentos, "imagine como seria viver ali, sem se preocupar nem com dinheiro ou alguém! ter tempo suficiente para poder ler, para escrever... já falei isto para o Maldito Judeu, estás a delirar vassalo!", Mondrian, sorrindo e mexendo a cabeça, entra numa sala de estar, "eh!eh! maldito judeu!", ao fundo há uma cozinha, separada da sala por uma meia-parede e meia-divisória, entra por uma porta à esquerda, numa sala espaçosa, Mondrian lembra-se das dimensões desta, "a mesona, cheia de papéis, livros, caixas de equipamentos eletrônicos e uma escultura em barro, lembro-me que foi aqui que encontrei o Vítor pela primeira vez, a sala parecia maior ainda, acho que é porque estava vazia". Há cadeiras estofadas pretas espalhadas pela sala, uma janela grande na parede ao lado da escada que leva à rua e outra, mais estreita, na parede que dá para rua Quintino. Esta janela está um pouco aberta, as lâmpadas fluorescentes estão acesas, de cada lado da janela em questão há uma mesa com um 486. Na da esquerda há um homem sentado diante do micro, ele aparenta ter uns 40 anos.
Vítor olha para Mondrian e sorri.
— Fala aí cara — diz com voz rouca — vamos trabalhar um pouco? — sorri.
— Tem n’é?! — "cabelos lisos, longos, pretos, talvez como Chopin! Vítor! O-Chopin-d’Itapetininga!". Vítor está com uma blusa de lã grossa, que encobre as mãos, "ach’qu’é da Luiza", suas pálpebras estão semi-abertas, ele leva o cigarro à boca e dá uma tragada enquanto observa Mondrian rir, volta-se para a tela do monitor.
— Ô-o... Mondrian, como é mesmo a ferramenta para eu fazer o degradê?
— Clica no baldinho que’ce acha.
Mondrian senta-se diante do micro, "às vezes...", segura no mouse, clica duas vezes no ícone do Corel, olha para Vítor enquanto o programa abre — e se você salvar como default o degradê, ele entrará automaticamente em cada figura que‘cê fizer — "...ele fica assim horas-e-horas", coloca o relógio de pulso sobre o monitor, "nem liga p’r’o que acontece ao redor", seus olhos observam o programa aberto.
Vítor força os olhos e ergue as mãos diante do monitor — não, não, Mondrian, não é isso! como volta mesmo? control-o-quê? Só quero aplicar degradê nesta figura aqui de fundo para uma ilustração...
— Control-z!
Vítor olha para o teclado, "control-z", aperta as duas teclas e olha para o monitor, "aí!", olha para Mondrian — é isso aí... mestre do computador! — e sorri, Mondrian ri sem olhar para Vítor — imagine Mondrian: uma ilustração de alimentos, usando aquela técnica — arregala os avermelhados olhos — de profundidade!
Mondrian olha para Vítor — Legal hein Vítor!
— Ninguém aqui usa um recurso deste! Vai ser um toque de sofisticação no Guia — ele olha para a janela e dá outra tragada.
— E a gente pode usá-la no jornal!
— Pode sim... — volta-se para o monitor — vai ser muito legal — sorri.

Capítulo 002



revisto - 18/05/09


Mondrian observa o lado esquerdo do monitor, "di’nteir’vend’ssa-tela-tremend’é-de-sai’c’os’olho’ardendo!", encosta-se no espaldar, inspira, olha no relógio, "já-são-20-pra-6! Beleza!", apóia os braços sobre a mesa, "nem senti o dia passar hoje. Em compensação, tem dia que a hora não passa nem a pau!", volta-se para o Vítor, "puta merda! e não é que ele ficou o dia inteiro assim?! Acho que nem foi almoçar, saí e voltei e ele estava ali...". Eles ouvem alguém subir a escada, "é mulher!". Mondrian olha a impressora ao lado do PC, " ‘tá com pouco sulfite... puta-vontade-de-da’ma-cagada-cara! Devia ter cagado depois que almocei, ‘tava com um pouco de vontade".
A porta do pátio é aberta, entra uma moça, de cabelos loiros e ondulados na altura dos ombros, olhos castanhos; ela está com uma blusa de lã vermelha, que vem até o meio do quadril, e que lhe revela os contornos do corpo, calça jeans e sapatos pretos.
— Ai gente! oi! oi! — Mondrian e Vítor voltam-se para a vendedora ofegante — está frío-frio lá fora! — "Frío, meu Deus! mas consegui!" — Vítor! — ela sorri — consegui vender mais dois anúncios de R$540,00! — Vítor concorda com um movimento de cabeça, ela coloca a bolsa sobre a mesa — ai gente! — abre-a — que bom! — procura o contrato assinado. Mondrian olha a moça dos cabelos até os pés, "hmmm! se’la-vie’co’esse-ai-expirado-quente-muito-perto, nossa-cara! juro-qu’agarro-ela!"
Vítor observa-a mexer na bolsa, "blusa vermelha", volta-se para o desenho mostrado na tela do monitor, "tem muito vermelho ainda aqui... qual o problema? ele cria um contraste com o verde e o azul mais frios... mas tá muito vermelho, talvez engrossando o contorno preto... onde mesmo que engrossa o contorno? Mondri... ah! aqui no bico de pena... hã?".
— Olha! olha aqui Vítor! Este — "ele vai gostar!", ela faz um movimento para entregar-lhe o contrato mas Vítor não estende a mão, "hã?", ela fita-lhe o rosto, "não entendeu? aiii! que pouco caso! pelo menos pegue da minha mão!", enquanto ele olha para o contrato — é daquela floricultura no largo do Rosário — "falei agora até sem querer. Será que vou ter que contar a história inteira?" — ai-ai! — "disfarça", sorri-lhe, "que chato! parece que ele não está nem aí! será que ele esqueceu os anúncios de R$ 540,00 que vendi esta semana?" — foi igual a dona da loja que queria também um anúncio pequeno, achei que a mulher ia fazer um deste também — "mostrei o anúncio e vi que ela achou, achou mas não disse, muito pequeno o de R$ 120,00", olha para Mondrian — ela... — "hã? o que foi? ‘tá olhando p’ra mim! Acho que minha blusa ‘tá muito apertada — ...quer ver o layout amanhã — "ele ‘tá olhando meu peito!"
Mondrian não percebe isto, "que coisinha linda que é a Márcia! loirinha... parece a Holandezinha, que susto cara: achei qu’era ela quando a vi de costas, sentada diante da mesa da Luiza, pela primeira vez... que bundinha que’la tem... e uns lábios carnudos... imagine-beijá-los?!". Ele olha nos olhos dela "o que foi?!" — ah sim! vou fazer o layout amanhã — volta-se para o monitor, "xiii... parec’qu’ela-percebeu-qu’eu‘tava-secand’-a, só-falt’eu-fica’vermelh’agora!".
"Dona da loja? anúncio pequeno?" — O quêêê?! — "achei que era outra moça que tinha vendido aquele anúncio", Márcia olha para Vítor, ele, levantando-se da cadeira, sorri como se tivesse acordado agora, mostrando os dentes escuros, "caiu a ficha dele!", ela estende a mão com os contratos, Vítor pega-os, "540 reais mesmo...", olha para Mondrian — ela ‘tá ficando boa de venda hein?! — ele sorri também, "mas ela já é boa!". A moça, envaidecida, "não precisa elogiar, só estou fazendo minha obrigação, ah! ah!", olha para Mondrian, ele fita os lábios da moça, "aquele "ai" não sai da minha cabeça cara!". Vítor examina os contratos, "seria muito bom uns 10 destes por dia", olha vagamente para o computador, "mas as coisas não são tão fáceis assim...", estende a mão com os contratos em direção à vendedora, "...tanta dificuldade..." com o canto dos olhos, Márcia percebe isto, "que grosso! parece que ‘tá fazendo pouco caso! só faltou jogar na mesa!", e pega os contratos novamente.
Mondrian desvia o olhar, "senão-ela-vai-percebe’deve’star...". Márcia observa-o de perfil, "ele tem jeito de ser bonzinho". Ele levanta-se da cadeira, "e aquele maldito judeu falou outro dia que uma-aí, com uns lábios assim, fez um boquete pra ele que deixou-o fissurado...", eles ouvem um grupo subindo a escada, "a-dupla-piadinha-e-saco-de-risada!", olha para a vendedora, estende-lhe a mão, olha nos lábios dela — então deixa’qui comigo o contrato — "hmmm!" — Márcia.
A vendedora, "ele está olhando meu peito de novo", entrega-lhe o papel, "se eu tivesse entregado o contrato pra Luiza ela reagiria diferente, sei lá! seria uma reação mais direta, acho que mais espontânea! Ele parece que vive no mundo da lua", lembra-se da venda, "deixa pra lá", suspira, observa Mondrian guardar o contrato na gaveta da outra mesa, transversal com a mesa do PC, "quando a dona da floricultura viu o anúncio maior ela balançou, não resistiu! só fiquei esperando ela morder a isca: eu fico com este maior aqui, olhou pra mim e sorriu!"
Mondrian olha para a moça, "ela está distraída", desvia o olhar, "cara! que sorriso lindo!", olha novamente, "esses olhos castanhos, os cabelos loiros", ela umidece os lábios com a língua, "parece que’la passa a língua nos lábios com volúpia, ach’qu’é’ssa-palavra: vo-lú-pi-a! E esses peitos durinhos?!", os olhos da vendedora miram os dele, "por que não deu certo com a Holandezinha?! E essa coisinha aqui? Uma mulher linda, loira assim deve ter um macho que come!" — amanhã-de-manhã eu faço o layout.
— Só falta ela ver o layout do anúncio pra entregar os cheques Mondrian — "ele disfarça, disfarça e olha, dizem que é os quietos que são os piores", Mondrian concorda com um movimento de cabeça, "ahh!hoje’u-toc’umas-pensand’nela!".
— Márcia — ela volta-se para o Vítor — pra quem você vendeu outro anúncio?
A porta do pátio é aberta novamente, a conversa e as risadas de outros vende-dores chama a atenção da Márcia, "hã? ah! é ela! mas que risada escandalosa! eu teria vergonha de rir se tivesse uma risada assim", Mondrian olha no relógio, "é agora", Vítor ignora a gargalhada, "uma semana de venda e ela conseguiu vender uma média de... dois anúncios grandes por dia! qual o perfil de comprador se identifica com o tipo de venda dela? A mulher da floricultura... Mondrian?"
— Vítor, já ‘tô indo nessa aí!
Vítor concorda com um movimento de cabeça — Sim Mondrian. Até amanhã.
Márcia observa-o, "ai-ai! não acredito que fechei esses contratos! Amanhã, é só mostrar o layout que eu pego os cheques! Tanto tempo sem emprego e já na primeira semana me dô bem assim! Aaah! Hoje, hoje eu quero comemorar!", ela se vê na cama, de camisola preta, bem decotada, olha para os seios, empina-os e olha para a porta do quarto, "e se ele não tiver a fim?! Vai dizer que ‘tá cansado, que ‘tá frio, que tem que levantar cedo amanhã... quando a gente namorava era tão diferente, era tão gostoso escondidinho no carro!", pisca lentamente tentando lembrar-se daqueles momentos, mas percebe que Mondrian olha para ela, seus olhos encontram os "castanhos-sorridentes-olhos-dela, que vontade de te beijar!", aquilo escapa ao seu controle e ele continua fitando-a nos olhos, julgando ler nestes um consentimento dela para beijá-la, "você é tão parecida com ela! Dava pra ser irmã até", ele é despertado de sua tristeza pela percepção de que aquele olhar já durou demais — tchau Márcia — "tchau... ex-cunhada!"
— Tchau! E não se esqueça do meu layout hein?! — ela sorri, "sem querer ser chata", Mondrian sorri também, baixa lânguidamente o olhar até os lábios carnudos sob o batom, "pequenos dentes, é a Holandezinha que está rindo para mim! ‘tô-pirando-cara!’tô-pirando!n’é-possível!", ela percebe que Mondrian olha a sua boca, e enquanto sorri, pisca-lhe.
Um vendedor, sisudo, olhando os contratos e layouts nas mãos, com uma pasta abarrotada debaixo do braço, entra na sala — licença, Vítor — olha para Mondrian que está saindo — ou! Já vai mesmo?! ‘tá frio lá fora!
Mondrian, "ela’tá-dando-bola-pra-mim?!", olha para o vendedor — É! pelo jeito ‘tá mesmo — sorri-lhe e sai da sala, "esquece-cara! ela já tem namorado-marido-sei-lá! Por que não deu certo co’a Holandezinha? Ela era a mulher dos meus sonhos!", inspira, achando que este lamento vai deixá-lo acabrunhado novamente, "é a enésima vez que penso nisto", considera a frustração por um momento, "já não é tão dolorosa quanto antes, ela poderia ser um drama de um personagem... e deixar-me em paz duma vez!"
Há um casal de vendedores na cozinha tomando café.
— Daí, ele falou bem assim: "non!-non! já fiz anú’cio noutro guia!"
Mondrian ouve isso, "hã?! A-lá!a-lá! Mais um causo do Jorginho!"
— É! É’ssim-mesmo-que’le-fala! — disse a moça, uma morena, que ri das caretas e dos falsetes que o vendedor faz.
— ‘té’manhã pessoal! — "por hoje chega!".
Jorginho olha para Mondrian e acena-lhe — tchau, tchau Mond!
Mondrian sai para o pátio escuro, "parece que não está tão frio assim", a vendedora morena, Angélica, explode numa gargalhada, "puutz! que risada! eh!eh!êh!". Mondrian enfia as mãos nos bolsos dianteiros da calça; está com um blusão-de-lã cinza-e-preto, "quente-pra-caramba, êpa! Er’da-minha-mãe-também! E eu falando do blusão do Vítor!", uma calça jeans azul desbotada e Nike nos pés, "lembro-me do primeiro dia dela aqui na agência: "é meu primeiro emprego...", disse-me com aquela cara que’ra só boas-intenções", caminha para a escada, um carro com escapamento furado sobe a Quintino, "puta-barulho-cara! Tem-que-se’pobre!", ele observa as plantas que balançam à luz amarela da rua, ao vento, sobre a escuridão do canteiro, ao lado da escada, "outro dia o Vítor mostrou-me uma pétala de flor onde o vermelho de uma ponta se misturava com o branco num suave degradê... achei tão-tão poético isso! Faz lembrar-me Goethe: a beleza está nos olhos de quem contempla". Ele chega à calçada, as motos usadas pelos vendedores estão paradas, em 45°, diante do portão da escada, uma delas, a preta, é usada por Angélica e pelo Jorge, "Jorginho. Jorginho é um figura! miudinho, cabelão-preto-jogad’p’ra-cima, Ray Bans de Chips, dentes de cima sempre p’ra fora, aquela camisa vinho horrosa! que ele nunca tira! três botões abertos p’ra mostrar a corrente dourada e aquelas calças jeans brancas de desbotadas".
Mondrian vai Quintino ladeira acima, "hoje mesmo ele estava co’a tal camisa por baixo daquela jaqueta de veludo preto. Angélica conheceu Jorginho na agência, não demoro’ muito p’ra estarem juntos pra-cima-e-pra-baixo fazendo vendas, resultado: acabaram namorando... e-os-caipora’vendem!"
— Háháháháháhá!!! — "escandalosa daquele jeito, imagina a gritaria na hora de dá uma!" — Háháhá! — olha ao redor, "quem me vê’ rindo assim cara, achará que sou louco!", pára na esquina da "casa de rico sempre fechada" — louco-não! — "só porque encontro tipos por aí que bem poderiam ser personagens, ávidos por aventuras, quem sabe não desejem ser protagonistas de uma história? O romance de Jorginho e Angélica!" — Romeu e Julieta já era! — "a imaginação se animou tanto que o sonhador percebeu que poderia criar! — ah! ah! ah! — "a quem dizer isto?! Quem entenderá meus insights?! Tales, o Maldito Judeu!".
Olha à esquerda, a Praça 9 de Julho, diante da qual há um posto de saúde, "com gente na frente ainda, ness’frio-cara! foda!", e, do outro lado da praça, o prédio do SENAC, "que nunca terminam". Um Santana branco, dirigido por um bigodudo, vem pela Quintino e vira na rua da praça, Mondrian atravessa a rua logo em seguida.
Na outra calçada, diante do prédio da TELESP, ele é apanhado por um vento frio, "uuh!meu-rosto’tá-queimando!", vira o rosto para direita e vê o ponto de ônibus cimentado, as pessoas estão encolhidas de frio, enquanto observam o circular azul-e-branco que se aproxima. Há carros indo e vindo, motoboys "costurando", gente de bicicleta, um ônibus da Nisshinbo que deixa gente aqui e ali.
Mondrian observa uma moça no ponto de ônibus, "nunca vi por aqui", a moça olha para Mondrian, depois olha para ônibus que está vindo.
— Como Itapetininga tem mulher bonita! — "ela parece aquela vendedora eslava, Helena, que gata! ach’que-vou-namorá-la! Mas-ela-mora-nos-cafundó-do-juda’! Ai! ‘quele-dia ela saiu do banheiro e logo em seguida eu entrei p’rá dá’ uma mijada e, quando peguei no assento da privada..." — noooossss’cara!!! — "tava-quente! quente-gostoso-del’inda! quis-lambê’o-assento! lambê’ond’ela-tinha-post’a-bunda! ond’el’abriu-as-pernas! que-lô’co! que-lô’co! ‘tô-ficando-de-pau-duro! ‘magina‘quela-bunda-quent’sentand’no-meu-pau?! Noooossss’cara!!!". Ele tenta esconder a ereção com as mãos nos bolsos, "precis’rruma’uma-namorada-cara! Ela parec’ que não é cu-doce, é até meio bobona, ma’s’ela-me-de’m-fora?! Ué? daí? daí’os’cambau! Mas-ela-é’m-tesão-cara! Uma-put’eslava-cavalona! Um-fora-dela-é’m-baque! E-se-foss’ele? o-Tales?! Ele-não’tá-nem-aí! Puta-cara-de-pau! E-tem-um-pique-p’ra-coisa! Viu-gostô’chegô’! Ach’qu’a-mulherada-gost’do-jeitão-dele, p’ra-ele, caiu-na-red’é-peix’! Gostaria de ser com’ele. Ach’qu’ele-toma-menos-fora-qu’eu... ma’manhã-é-sábado!" — sábado-cara! — "s’ela-não-quise’nad’comig’, a-Bullu’s’tá-chei’de-mulhe’que-pod’querer!" — e-o-rest’que-se-foda! — "e’u-quero-sai’à-noite!", inspira, "libertar-me da maldita luta pela sobrevivência, toma’ um chopinho c’os amigos, viajar ouvindo dance-music tucs-tucs-tucs-tucs-tum-tum-tum!uou!tucs-tucs-tucs-tucs-tum-tum-tum! Conhece’ umas gostosas e arruma’ uma namorada linda-e-loira!" — E o resto que se foda!
Olha para o chão, para seus tênis, "confortáveis qu’eu poderia ir até Tatuí a pé... que-nem-o-Vicente-Matheus-falo’quele-dia: "a gente vai de Campinas a São Paulo a pé comemorando! Mas a pé em cima do caminhão!" — eh!eh!eh!
Pára na esquina da rua Julio Prestes, olha para a esquerda, "quero agradecer à cervejaria e engarrafaria Antarctica pelas Brahmas que mandou p’ra cá", um Voyage, com um imenso "Jesus salva" no vidro traseiro, veio da Julio Prestes e entrou na Quintino, "nossa!que-carro-horroso! quando eu contei essa do Vicente Matheus p’r’o Quim-lá-da-loja ele quase explodiu de rir!".
Atravessa a rua, na Quintino, um circular passa, a moça que Mondrian tinha observado no ponto de ônibus está pagando a passagem ao cobrador, "outro dia a Helena estava com uma camisa branca e reparei, que-delícia-tesuda! na rendinha do sutiã dela, e-que-peitão-gostoso’la-tem! Ela deve ter 1,70m", olha para o lado e imagina a moça em pé, "é, 1,70m, longos cabelos, lisos e castanhos, pele branca, olhos castanhos, belo sorriso e aquelas sardinhas-pouquinhas que’la tem no rosto e... no-colo-cara!!! peitão, magra, ai! hoje-preciso-toca’umas-senão-não-sossego! Mai’n’quero-mais-toca’punheta! Quero dá’m-metão!" Olha para o chão, para a calçada-pisos-aqui-cimento-lá-buraco-ali, "tenh’que-se’com’ele! Atiradão! Chega’junto-mesmo! Chega’junto-n’Helena! Usar-dest’entusiasmo! dest’paixão! dest’tesão! p’ra compo’minh’imitação! imitação-de-Tales! cheg’de-punheta! Quer’ comê-a-Helena! Diga-não-à-punheta!"
Mondrian caminha um pouco mais, distrai-se vendo o movimento dos carros, outro circular cheio sobe a rua, "tem-alguma-buceta-boa-lá?!", outros carros, no fim da rua, circular e carros tornam-se uma massa de latas com luzes vermelhas e setas amarelas — Tales. Seu-maldito-judeu! — "como pode ser atirado-lo’co-daquel’jeito e encontrar beleza em cada esquina?" — olha! Isto ficou legal! Preciso anotar! — "será qu’ele sente também esta doce melancolia que me estimula a criar? Eu escolho muito... por isso fico sempre sozinho... ach’que nunca conseguirei conciliar meu ideal de mulher com o qu’o meu caminhãozinho ‘güenta..." Lembra-se de uma loira de olhos castanhos que ele encontrou na rua Campos Sales, Mondrian olhou para ela mas esta fingiu que não o viu, "não é p’ro teu bico"; uma eslava que sorria, sentada numa mesa, num barzinho próximo à Bullu’s, ele tentou falar com ela e esta virou-lhe a cara; uma ruiva que folheava uma revista na banca da avenida, ele aproximou-se dela, ela olhou-o com tamanho desprezo que ele teve que sair da banca; "todas surgindo e sumindo na escuridão de minha sina". Ele torna-se melancólico, olha para cima, vê as nuvens cinzentas, "que fogem da luz amarela para as trevas do alto da noite", tenta imaginar este movimento, "pois p’ra mim nada resta’qui...", até encontrar uma noite sem nuvens, "profunda" e estrelada, sua memória traz-lhe de volta fragmentos de solo de piano do concerto para piano 1 de Tchaikovski, "música é tudo!"
Sente desprendimento, alheio ao tempo, pousa o olhar sobre os sobrados, fachadas e casas da rua que passam por ele, "são de uma rua de Paris, a Paris de Proust, da Belle Époque! Contemplar me dá uma paz". Ele percebe que, enquanto sua mente observa alguma coisa, pode avaliar seus sentimentos, "nesta paz comecei a entender como sou, pela primeira vez percebi que há um caminho além de tanta incerteza, da insegurança, o medo não é p’ra sempre..." — preciso registrar isso! — Lembra-se de que está com um caderno de anotações em sua mochila, ele considera o impulso de registrar este pensamento — por que comecei a escrever? — "para registrar as idéias que tinha, seja p’r’uma HQ, um roteiro de filme ou um poema, de escrever idéias passei a descrever estados de espírito". Ele vê uma rua sem saída, à sua direita, doutro lado da Quintino, onde as árvores da calçada fazem sombras nas casas e terrenos que ficam atrás, "sibipirunas", e suas folhas e galhos são balançados suavemente pelo vento, sob a luz-pálida-iluminando da rua, "o duo de flauta doce e piano", Mondrian percebe o "vvventoolllâânnnguidosssoprannndofffffolllhlhasssmmmiúdasss" enquanto elas e os galhos movem-se seguindo o vento-que-vai. Ele sente aquela miríade indo devagar, "tão devagarinho, onde já vi isso?" reduz os passos, "era assim que as árvores eram balançadas, balançadas pelo vento, naquele dia em que eu olhava pela janela da cozinha da casa da ‘vó Olga", inspira lentamente, "as árvores do quintal, terrenão-que’ra", expira devagar, viu-se naquele quintal, "roupas estendidas nos varais, suspensos por bambus secos, de-quando-em-quando elas eram erguidas lentamente pelo vento, como as velas brancas de um navio; aquele movimento parecia eterno, sempre indo, mas depois elas voltavam, o vento soprava-as no compasso de um largo-alegro d’um concerto grosso de Corelli", Mondrian arrepia-se, "fazem lembrar-me de Fernando Pessoa: às vezes, só de ver o vento soprando as roupas no varal, já vale a pena ter nascido..."
— As roupas erguidas lentamente pelo vento naquele eterno movimento.
Mondrian continua caminhando, "o céu cheio de nuvens escuras, elas se moviam lentamente também", tira as mãos dos bolsos e esfrega-as uma contra outra, "a ‘vó ‘tava de pé, de braços cruzados, diante do fogão, esperando a água ferver p’ra fazer o café". Ele chega à pracinha do Largo do Rosário, pára no posto da esquina, olha os carros que estão passando na rua, passa mais uma Kombi branca, ele atravessa a Quintino e segue pela rua Cel. Clementino de Oliveira, "a ‘vó ‘tava falandinho, ‘tava olhando pela janela da cozinha também, ach’que‘tava-meio-melancólica, então ela olhou para a jabuticabeira, suas folhas tentavam acompanhar o vento também, eu olhava p’ra ela sem ela perceber".